Ex-procurador-geral do Rio pôs Ministério Público ‘de joelhos perante a malta de corruptos’, diz acusação

Ex-procurador-geral do Rio pôs Ministério Público ‘de joelhos perante a malta de corruptos’, diz acusação

Ricardo Ribeiro Martins, atual chefe do MP estadual, afirmou, ao Tribunal de Justiça do Rio que Cláudio Lopes, preso na quinta-feira, 8, ‘nos momentos em que deveria se postar ao lado de combatentes promotores de Justiça, se prestou ao humilhante papel de escoteiro de Sérgio Cabral e sua malta’

Julia Affonso

11 Novembro 2018 | 05h00

O procurador-geral de Justiça do Rio em exercício, Ricardo Ribeiro Martins, afirmou no pedido de prisão de seu colega, o ex-procurador-geral Cláudio Lopes (2009/2012), submeteu o Ministério Público do Estado ‘ao maior revés de sua história’ e expôs a instituição a um ‘vexame’. Cláudio Lopes foi preso na quinta-feira, 8, sob acusação de participar do esquema de propinas supostamente liderado pelo ex-governador Sérgio Cabral (MDB).

“Ao se associar à quadrilha comandada por Sérgio Cabral, o denunciado Cláudio Lopes submeteu o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro ao maior revés de sua rica história, expondo a instituição ao vexame, traindo a confiança dos membros que o colocaram no topo da lista tríplice encaminhada ao Governador e submetendo o interesse institucional e da sociedade à troca de nefastas vantagens econômicas pessoais”, afirmou Ricardo Ribeiro Martins.

Como procurador-geral, Cláudio Lopes chefiou a instituição no Estado do Rio entre 2009 e 2012. Em outubro, o ex-procurador-geral de Justiça foi denunciado pelo próprio órgão por formação de quadrilha, corrupção ativa, corrupção passiva e quebra de sigilo funcional.

Ao pedir a prisão de Cláudio Lopes, o atual chefe da Procuradoria afirmou que as investigações ‘revelaram a evidente promiscuidade que entrelaçava as relações institucionais entre o chefe do Ministério Público do Rio de Janeiro e governo estadual durante os dois períodos em que o denunciado exerceu a função de Procurador-Geral de Justiça’.

“Muito, mas muito mais impactante aos olhos da sociedade é ver o chefe da instituição vocacionada ao combate à corrupção cooptado pela súcia e sua nefasta prática criminosa”, registrou Ricardo Ribeiro Martins.

“Nos momentos em que deveria se postar ao lado de combatentes promotores de Justiça, como verdadeiro líder, o denunciado Cláudio Lopes se utilizou de artifícios e ardis para defender os interesses da organização criminosa que o remunerava mensalmente, retardando investigações importantes e se prestando ao humilhante papel de escoteiro do denunciado Sérgio Cabral e sua malta.”

O atual comandante do Ministério Público do Rio destacou ainda que ‘ao pôr a chefia do Parquet Estadual de joelhos perante quadrilha de corruptos, que passou a integrar, e que tomou de assalto os cofres públicos estaduais, o denunciado Cláudio Lopes também expôs toda a Justiça’. Ricardo Ribeiro Martins justificou que a prisão de Cláudio Lopes era necessária para garantia da ordem pública e para a conveniência da instrução criminal.

“As condutas narradas na exordial abalam a credibilidade do sistema de justiça de nosso Estado, que deve ser recuperada com vigorosa resposta, de forma a indicar que eventuais novos desvios como estes não serão tolerados e serão duramente rechaçados pelas instituições constituídas”, assinalou.

Entenda as acusações contra Cláudio Lopes

O ex-procurador-geral é acusado pelo ex-secretário estadual de Saúde, Sérgio Côrtes, e pelo ex-subsecretário executivo da mesma pasta, Cesar Romero, de ter vazado para ambos uma operação de busca e apreensão que seria realizada na casa de Romero, a pedido do Ministério Público, em novembro de 2010.

A busca foi feita, mas não foram encontrados documentos comprometedores porque no dia anterior Romero destruiu o material que poderia incriminá-lo, usando até um triturador de papel, segundo contou à Justiça.

Segundo um ex-operador de Sérgio Cabral, Carlos Miranda, Lopes também recebeu mesada a mando de Cabral, enquanto este governava o Estado do Rio e Lopes chefiava o Ministério Público. Para não fiscalizar adequadamente o governo, o então procurador-geral teria recebido R$ 150 mil por mês ao longo de toda sua gestão. Nesse período, a investigação de denúncias graves deixou de avançar e acabou interrompida.

Lopes ingressou no Ministério Público do Estado do Rio em 1987. Passou pelas comarcas de Campos dos Goytacazes e São João da Barra, e em janeiro de 1995 assumiu a Promotoria de Justiça junto à 36ª Vara Criminal do Rio, onde permaneceu até julho de 2001. Em seguida foi promovido a procurador de Justiça. No final de 2008 venceu a eleição para procurador-geral de Justiça no biênio 2009-2011, tendo obtido 321 votos, apenas quatro a mais que o segundo colocado, Eduardo Gussem.

Disputou novamente a eleição para o biênio seguinte e foi reconduzido ao cargo com 483 dos 850 votos possíveis. Vencer a eleição não é garantia de ocupar o cargo, já que a nomeação cabe ao governador do Estado, que pode escolher qualquer nome entre os três primeiros colocados na eleição. Então governador, nas duas ocasiões Cabral respeitou a tradição e nomeou o mais votado.

A reportagem está tentando localizar a defesa de Claudio Lopes. O espaço está aberto para manifestação.

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