Ex-presidente do TSE diz que narrativa sobre fraudes nas eleições é ‘retórica política atrasada’ e frisa que voto impresso ‘não tem nenhum benefício’

Ex-presidente do TSE diz que narrativa sobre fraudes nas eleições é ‘retórica política atrasada’ e frisa que voto impresso ‘não tem nenhum benefício’

Pepita Ortega

24 de julho de 2021 | 17h39

Carlos Velloso. FOTO: DIDA SAMPAIO/ESTADÃO

O ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal Carlos Velloso, que presidiu o Tribunal Superior Eleitoral quando as urnas eletrônicas foram idealizadas, considera a narrativa contrária à lisura das eleições uma ‘retórica política atrasada’. O jurista frisou que desde a implantação do sistema eletrônico de votação, há 25 anos, não há nenhum indício ou evidência de fraude.

“É uma retórica política atrasada. Os parlamentares precisam tomar conhecimento do que é o processo eleitoral e de como ele se desenvolve. É, na verdade, um dos melhores processos em matéria eleitoral do mundo. E a Justiça Eleitoral foi criada no Brasil justamente para resolver o problema, para tornar legítimas as eleições e cada vez mais legítima, portanto, a democracia que praticamos, que é a democracia representativa”, destacou.

As afirmações foram feitas em entrevista ao podcast ‘Supremo na semana’, editado pela corte máxima. Na gravação, Velloso afirmou que o voto impresso – bandeira do presidente Jair Bolsonaro – ‘não traz nenhum benefício’, indicando ainda que a defesa de tal iniciativa mostra desconhecimento sobre o processo eleitoral.

“Ao contrário (de trazer algum benefício), nos faz retornar ao sistema antigo do voto de papel. Basta que se peça a conferência dos votos (eletrônicos) com os votos impressos para se restaurar a contagem manual de voto, aquilo que gerava mapismo (como era chamado o aproveitamento dos votos em branco), que gerava uma série de fraudes”, disse o ministro aposentado.

A indicação de Velloso vai de encontro com a proposta discutida na Câmara, que não prevê a substituição da urna eletrônica, mas a emissão de uma espécie de comprovante físico dos votos para recontagens manuais – o que representaria um custo aos cofres públicos na ordem de R$ 2,5 bilhões ao longo de dez anos.

A discussão sobre a medida tem patrocínio do presidente Jair Bolsonaro, que recorrentemente faz declarações sobre fraudes nas eleições, sem apresentar quaisquer provas. O ministro Gilmar Mendes e o ministro Luís Felipe Salomão, corregedor do Tribunal Superior Eleitoral, chegaram a pedir explicações do chefe do Executivo sobre as alegações contra a urna eletrônica. A escalada dos ataques de Bolsonaro também gerou reações dos presidentes do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Luís Roberto Barroso, e do Congresso, Rodrigo Pacheco.

A Comissão Especial que analisa a proposta de emenda à Constituição (PEC) do voto impresso chegou a ter maioria de votos favoráveis à medida, mas hoje o debate está esvaziado. Presidentes de partidos e ministros do STF agiram para trocar os integrantes da comissão e deixar o texto sem apoio suficiente. No fim de junho, presidentes de 11 legendas fecharam um posicionamento contra o voto impresso. O movimento ainda ganhou impulso com a ameaça do ministro da Defesa, Walter Braga Netto, de não haver eleições em 2022 caso o Congresso não aprove o voto impresso.

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