Ex-presidente da Hípica Paulista entrega defesa a conselheiros com relatos de ex-funcionários que negam assédio

Ex-presidente da Hípica Paulista entrega defesa a conselheiros com relatos de ex-funcionários que negam assédio

Documento de 52 páginas classifica de 'absurdas e infundadas' acusações contra Romeu Loureiro Ferreira Leite, que presidiu o tradicional clube de São Paulo entre 2015 e 2021; depoimentos descrevem ex-mandatário como pessoa 'compreensiva' e contrapõem testemunhos colhidos por auditoria interna que atribuem a ele abusos e desvios; uma ex-colaboradora, suposta vítima de assédio sexual, inocentou Romeu

Rayssa Motta

26 de junho de 2022 | 06h00

Títulos na Sociedade Hípica Paulista custam em torno de R$ 68 mil. Foto: Reprodução/Facebook SHP

O ex-presidente da Sociedade Hípica Paulista (SHP), Romeu Loureiro Ferreira Leite Jr, 69, apresentou no início da semana sua defesa no procedimento interno que pode terminar em expulsão. Após denúncias de assédio moral e sexual por funcionários, uma auditoria apontou irregularidades no tratamento dos colaboradores e nas finanças do clube.

Em manifestação de 52 páginas enviada aos conselheiros, os advogados Gustavo Francez e Gerson Mendonça, que representam o empresário, rebatem ponto a ponto as imputações. A defesa diz que as acusações são “absurdas e infundadas” e que Romeu “sempre pautou sua vida pessoal e profissional pela mais absoluta retidão”.

A auditoria acusou indícios de favorecimento de empresas de familiares, amigos e sócios da Hípica nas contratações autorizadas na gestão de Romeu. Ele foi presidente do clube por dois mandatos consecutivos, de 2015 a 2021, e vice-presidente até romper com o sucessor no ano passado. A defesa reconhece que houve contratações de companhias ligadas à família do ex-presidente, mas alega que elas foram “pontuais e excepcionais” e vantajosas para o clube. “Apresentando sempre valores e condições razoáveis e menores do que as de mercado”, afirmam.

Outro ponto abordado na auditoria é a consumação no restaurante da Hípica. Os funcionários entrevistados disseram que Romeu mandava retirar itens da conta. “O sindicado Romeu jamais, em tempo algum, se negou a pagar conta de restaurante da SHP que tenha consumido. Sua única exigência era para que os funcionários do restaurante sempre pegassem o seu visto nas contas que tinha a pagar, a fim de não ser cobrado, de forma indevida, por comanda que não fosse sua”, rebate a defesa.

Os relatos gravados de nove funcionários e ex-funcionários, ouvidos durante a auditoria, que durou seis meses, também apontam uma suposta rotina de agressões verbais, intimidações, xingamentos, humilhações, racismo, gordofobia, xenofobia e assédio sexual. Todos disseram que cogitaram pedir demissão por causa da “pressão psicológica diária”.

Para contrapor a auditoria, a defesa ouviu três ex-funcionários do clube, que deram versões totalmente opostas aos depoimentos colhidos na auditoria. Os relatos descrevem Romeu como uma pessoa “compreensiva”, que tratava os subordinados “como iguais” e que intervinha em favor dos colaboradores quando eles eram hostilizados pelos sócios.

Romeu foi presidente da Hípica Paulista entre 2015 e 2021. Foto: Bruna Guerra/Divulgação/SHP

Os advogados também rejeitam as denúncias de assédio sexual. Um dos argumentos é o de que a conduta é considerada crime, mas nenhuma das funcionárias registrou qualquer boletim de ocorrência, o que segundo a defesa “descredibiliza” as acusações. “Assim como no caso do assédio moral, os depoimentos das testemunhas no tocante ao assédio sexual são repletos de contradições, além de alguns deles caracterizar, de pronto, crime de calúnia já em fase de persecução”, afirmam.

Uma das ex-funcionárias ouvidas pela defesa é apontada na auditoria como vítima de assédio. Citada em quatro depoimentos como uma “pessoa que sofreu muito assédio sexual”, ela negou qualquer conduta indevida de Romeu. “Ele nunca faltou com respeito comigo, ele sempre tinha também aquela coisa paterna. É, quantas vezes eu já fui humilhada por sócios, tá, onde ele já me defendeu e nunca permitiu que sócio nenhum maltratasse funcionário”, afirmou no relato que também foi gravado.

A partir de uma representação de Romeu, a Polícia Civil abriu um inquérito para investigar se houve calúnia ou difamação nas acusações de assédio. A investigação corre no 27.º Distrito Policial da Capital, no Campo Belo, na zona sul da capital paulista. O delegado responsável já ouviu a ex-funcionária que nega ter sofrido assédio. Os próximos depoimentos estão marcados para julho.

Internamente, o conselho da Hípica, composto por 30 sócios eleitos, ainda vai deliberar sobre o caso em uma reunião extraordinária que não tem data marcada. Antes disso, uma comissão de sindicância, formada por cinco conselheiros, foi criada para analisar o caso. O procedimento envolve a tomada de depoimentos. Além dos nove funcionários e ex-funcionários ouvidos na auditoria, que serão interrogados novamente, a defesa também arrolou nove testemunhas. A partir do relatório final da comissão, o conselho do clube colocará em votação o destino do ex-presidente.

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