Ex-gerente flagrado em desvios na Petrobrás diz ter sido ‘blindado’ por Gabrielli

Ex-gerente flagrado em desvios na Petrobrás diz ter sido ‘blindado’ por Gabrielli

Geovane de Morais foi demitido por justa causa, em 2009, mas foi mantido no cargo até 2013 após suposta interferência de ex-presidente da estatal apadrinhado de Lula; objetivo seria evitar 'vazamento' de irregularidades na área de comunicação, controlada por sindicalistas do PT

Ricardo Brandt, Julia Affonso e Fausto Macedo

07 de outubro de 2016 | 05h00

DEP GEOVANI

 

Um ex-gerente da área de Comunicação da Petrobrás afirmou à Operação Lava Jato que “foi blindado” pelo ex-presidente da estatal José Sergio Gabrielli – apadrinhado político do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva -, depois de ter sido flagrado em sindicância interna, que identificou desvios e pagamentos sem contratos na área. Demitido em 2009 por justa causa, ele foi mantido no cargo até 2013, supostamente para se evitar um escândalo no setor de comunicação, que seria controlado pelo PT.

“Acredita que foi mantido na empresa por tanto tempo (2009/2013) a fim de justificar irregularidades na Petrobrás, inclusive de Gabrielli e Tripodi (Armando, chefe de gabinete)”, declarou Geovane de Morais, ex-gerente de Comunicação da Diretoria de Abastecimento da Petrobrás.

Morais foi ouvido no dia 1º de julho, na Superintendência da Polícia Federal em Salvador, na Bahia, a pedido da força-tarefa da Lava Jato, em Curitiba. O ex-gerente é figura central da apuração da Lava Jato que investiga suposto pagamento de mais de R$ 7 milhões para a Muranno Brasil Marketing, sem contrato formal. Parte desse valor foi repassado via doleiro Alberto Youssef.

Os pagamentos, segundo apura a Lava Jato, teriam sido feitos por ordem direta de Gabrielli e Tripodi, com suposta participação do ex-presidente Lula.

Na versão do doleiro que é peça central na Lava Jato, houve uma suposta chantagem do dono da Muranno, Ricardo Villani, que queria receber valores não oficiais atrasados, em 2010 – último ano do governo Lula – e uma ameaça ainda não confirmada de que seriam reveladas irregularidades na Petrobrás. Morais era o gerente da área que contratou a agência, supostamente por serviços de marketing em eventos sem contratação formal.

Em seu depoimento, Morais contou que foi demitido em 6 de abril de 2009 pela ex-gerente da Petrobrás Venina Velosa – subordinada a Paulo Roberto Costa -, mas permaneceu no cargo até 2013 por um “afastamento por problemas de saúde” .

Vazamento. “Apesar de na época não ter conhecimento das denúncias que acabaram reveladas pela Lava Jato, o declarante acredita que evitando sua demissão, Gabrielli e outros evitariam que vazasse para imprensa informações prejudiciais à imagens de tais pessoas, como por exemplo, desmandos na Gerência de Comunicação”, registrou a PF, no termo de depoimento de Morais. A área, segundo ele, era “comando de sindicalistas ligados ao PT” e ocultava ainda “patrocínios escusos”.

Na delação de Youssef, ele afirmou que Lula soube da ameaça, na época, e teria determinado a Gabrielli que usasse o dinheiro “das empreiteiras” para resolver a pendência. O ex-presidente da Petrobrás teria procurado por Costa, que mandou o doleiro – espécie de contador e financeiro das propinas na Diretoria de Abastecimento – fazer o pagamento.

fluxo abreu e lima murano

Investigada. Um deles seria os pagamentos para a Muranno. O dono da agência de propaganda apontou em depoimento à Polícia Federal, em 2015, que foi Morais que pagou por serviços que chegaram a R$ 7 milhões, sem contratação, para a divulgação da estatal em provas de Fórmula Indy, entre 2006 e 2009, nos Estados Unidos. Os pagamentos teria envolvido ainda o lobista e delator Julio Gerin Camargo, ligado ao ex-ministro José Dirceu (Casa Civil, governo Lula).

A Muranno passou a ser investigada pela Lava Jato em 2014 porque ela aparecia como recebedora de R$ 1,7 milhão, em 2010, do esquema de desvios operado por Alberto Youssef. Segundo o doleiro, foi ele quem pagou R$ 1,7 milhão à Muranno entre dezembro de 2010 e janeiro de 2011, a pedido de Costa. O ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás confirmou a versão.

PRC SOBRE MURANNO

PRC SOBRE MURANNO 2

Youssef afirmou que a ordem foi para que o valor fosse descontado do dinheiro “das empreiteiras”  – denunciadas na Justiça Federal por causa das obras da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco – para resolver a pendência.

Ligação. Em depoimento prestado em janeiro de 2015, o ex-gerente jurídico da Diretoria de Abastecimento Fernando de Castro Sá, afirmou que soube de seu superior – o então gerente executivo do Jurídico Nilton Maia – que em 2009, Gabrielli e o ex-diretor de Serviços Renato Duque, ligado ao PT, os dois ligaram “muito irritados por causa desse parecer (que demitia Geovane de Moraes)”.

“Ficou estabelecido que a área do (jurídico) compartilhado ia questionar a demissão e o jurídico ia dar um parecer revisando os pareceres anteriores”. Dois pareceres citados por ele foram emitidos pelo próprio jurídico da estatal comunicando que Geovane de Moraes, supostamente flagrado cometendo desvios, poderia ser demitido, mesmo durante período de licença médica.

Após a ligação de Duque e Gabrielli, o setor de compartilhado questionou esse parecer. “Geovane fica no auxílio doença durante quatro anos, tempo que a Petros (fundo de pensão dos trabalhadores da Petrobrás) complementa o salário. Aí é demitido. Foi demitido quatro anos depois da sindicância comandada pela Venina. Exatamente o prazo que a Petros cobre”, relatou Castro Sá.

A efetiva demissão do Geovane foi concretizada apenas quatro anos depois por Francisco Paes, substituto de Venina na gerência executiva de Abastecimento. “Quando (Paes) tentou demitir o Geovane, foi informado pelo compartilhado da existência desse parecer.”

REUNIÃO INÁCIO RICARDO VILLANI

IMAGEM TRANSCRIÇÃO PF AGENDA PRC VILLANI

Anotações analisadas da agenda de Paulo Roberto Costa vinculam o nome de “Ricardo Villani” a “Inácio”. Investigadores da Lava Jato apuram qual assunto seria tratado pelo ex-diretor com o dono da Muranno, em 2012.

Lula não é alvo desse inquérito, mas as apurações podem chegar ao suposto envolvimento dele nesse episódio. O caso Muranno não é o primeiro envolvendo suposto pagamento de propinas para evitar divulgação de escândalos de corrupção no governo.

Pressão. Sá que Venina foi ameaçada por causa das denúncias. “Venina sofreu ameaça nesse período. Ameaça com arma. Havia uma pressão muito forte interna de ligações. Na primeira conversa dela com o Paulo (Paulo Roberto Costa, então diretor de Abastecimento da estatal), ele disse que ela teria de colocar isso debaixo do tapete. Ela disse que não faria isso.”

Segundo ele, o levantamento feito por Venina revelou um problema de “descumprimento orçamentário da área de Comunicação num valor astronômico”. “Constatou-se que havia uma discrepância muito grande entre o orçamento para Comunicação e os gastos efetivados. Havia solicitação de pagamento, mas não tinha contrato.”

Depois dessa reunião com Venina, em 2007, ficou decidido que ela iria levar esses fatos ao conhecimento do diretor Paulo Roberto Costa para ver qual procedimento deveria ser adotado. Castro Sá disse que a ex-gerente executiva foi orientada a levar a questão a Gabrielli. A lógica, segundo o ex-gerente jurídico, era que fosse criada uma sindicância na Diretoria de Abastecimento, onde trabalhava Geovane de Moraes. No entanto, foi “formada uma comissão de sindicância na presidência”.

Questionado pelos procuradores quem seria o presidente dessa comissão, Castro Sá apontou o nome de “Rosemberg Pinto”. “Ele seria um sindicalista da Bahia, que trabalhava como assessor do Gabrielli.”

A comissão de apuração da presidência concluiu que deveria ser instalada uma outra sindicância na Diretoria de Abastecimento. Castro Sá afirma que Venina constituiu a sindicância e que, com base em dois documentos internos, determinou a demissão de Moraes.

Os documentos confirmavam que o ex-gerente de Comunicação poderia ser demitido por justa causa mesmo afastado por doença. “Um dia ela descobre que o Geovane não foi demitido.”

COM A PALAVRA, JOSÉ SÉRGIO GABRIELLI

Geovane de Morais nega que eu tenha pedido para fazer qualquer pagamento à Muranno, empresa que prestava serviços dentro da Diretoria de Abastecimento, sem qualquer relação com a Presidência. Ele também nega qualquer relacionamento politico com minha pessoa e afirma que não tive qualquer influencia na sua transferência da Bahia para o Rio. Nega ter pedido para Youssef fazer qualquer pagamento, como o noticiado pela imprensa.

Eu afirmo que nunca tive qualquer relacionamento com a Muranno, que soube de qualquer pagamento espúrio a ela ou que tenha pedido qualquer tipo de pagamento para ela.

Quanto a demissão de Geovane, fruto de investigações por comissão autorizada por mim, ela se realizou por constatação de irregularidades na emissão de ZPQs, procedimento interno da Petrobras para pagamentos de pequena monta. Não se concretizou no momento da decisão por efeito do mesmo se encontrar sob licença médica do INSS e, pela legislação trabalhista, não poder ser efetivamente demitido nesta condição. Assim que esta condição se modificou a demissão foi efetivada.

Geovane, perguntado pelo delegado, especula sobre outras motivações para a não efetivação de sua demissão, afirmando não poder provar a especulação.

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