Ex-fiscal da Dersa afirma à PF que ‘pessoas do Sul’ mandaram ‘camisa autografada’

Ex-fiscal da Dersa afirma à PF que ‘pessoas do Sul’ mandaram ‘camisa autografada’

Em depoimento na Operação Pedra no Caminho, Edison Mineiro, que caiu no grampo dos federais, diz que ‘não recebeu e não conhece ninguém’ que tenha recebido propina das obras do Rodoanel Norte, mas investigadores suspeitam que ele se utiliza de 'um código ou mensagem cifrada para transmitir informação a seu interlocutor'

Julia Affonso

15 Agosto 2018 | 06h30

Foto: Reprodução

O engenheiro Edison Mineiro Ferreira dos Santos, ex-fiscal da Dersa nas obras do trecho Norte do Rodoanel, insistiu em depoimento à Polícia Federal que tratou de uma camisa autografada em telefonema grampeado pela Operação Pedra no Caminho. Em relatório, a PF classificou a conversa entre o engenheiro e o ex-diretor da Dersa Pedro da Silva – preso desde 21 de junho – como um diálogo ‘suspeito’ com ‘nítida’ falta de contexto e ‘entonação de voz não usual’.

O telefonema foi interceptado em 31 de agosto de 2017 no âmbito da investigação que apura desvios e fraudes nas obras do Rodoanel Norte. Na conversa, Edison afirma que o ‘suposto portador da ‘camisa autografada pretendia resolver o assunto imediatamente, pois partiriam no dia seguinte’.

Na avaliação da PF, a conversa ‘representa situação pouco usual’. Segundo os investigadores, os interlocutores trataram ‘de um assunto aleatório, fora de qualquer conjuntura, consistente na entrega de uma camisa autografada por pessoas que vieram a esta cidade de São Paulo, oriundos da região Sul do País’.

Para os investigadores, há ‘suficientes indícios de que a entrega não seria de fato de uma ‘camisa autografada’, mas de algum outro objeto ou valor, possivelmente de conteúdo ou origem ilícita’.

O grampo foi alvo de questionamento da PF a Edison Mineiro. O engenheiro declarou que não se recordava se a camisa era do Internacional ou do Grêmio.

“Que era de fato uma camisa autografada, mas não sabe por quem; que chegou a ver a camisa, mas não se recorda da cor; que a esposa de Pedro da Silva é gaúcha e Pedro da Silva disse que ela ficou muito contente com o presente; que não se recorda, neste momento, do nome da esposa de Pedro; que ela já foi empregada da Dersa”, disse.

“Nesse sentido, embora muito breve, a fala do investigado Edison é bastante suspeita, pois aparentemente se utiliza de um código ou mensagem cifrada para transmitir uma informação a seu interlocutor”, registrou a PF em relatório.

Segundo Edison Mineiro, ‘os indivíduos ‘vindos lá do Sul’ eram pessoas da diretoria da empresa Toniolo, que se trata de uma empresa gaúcha’. A Toniolo foi uma empresa subcontratada pela empreiteira OAS para serviços nas obras do Rodoanel.

“Pedro gostava de camisas oficiais de times de futebol autografadas; que inclusive, já havia pedido que o declarante arrumasse camisas do Corinthians e do São Paulo autografadas, uma vez que o filho do declarante já jogou na base do Corinthians e do São Paulo; que não recebeu e não conhece ninguém que tenha recebido vantagem indevida (propina) para praticar, retardar ou deixar de praticar ato de ofício no âmbito das obras do Rodoanel – Trecho Norte”, afirmou.

COM A PALAVRA, O ADVOGADO ALAMIRO VELLUDO SALVADOR NETTO, QUE DEFENDE PEDRO DA SILVA

A prisão preventiva decretada em desfavor de Pedro da Silva é injusta, pois não se encontram preenchidos os requisitos necessários para sua aplicação. Não tenho dúvida que sua inocência ficará demonstrada ao final da instrução processual. Já aportaram aos autos provas sobre a licitude dos aditamentos realizados nos contratos do Trecho Norte do Rodoanel. Da mesma forma, ficará devidamente demonstrada a origem e regularidade de seu patrimônio no procedimento instaurado para esta finalidade, oriundos de atividades particulares e legais do acusado. Alamiro Velludo Salvador Netto, advogado.

COM A PALAVRA, A TONIOLO

“A posição da empresa é de, antes de tudo, privilegiar a integridade da Justiça, o devido processo legal e a dignidade do indivíduo. Os questionamentos que ora nos fazem são objeto de Inquérito Policial em curso e sigiloso. Os fatos e atos ali perscrutados envolvem interesse público (da Justiça) e direitos de terceiros (indivíduos) que não apenas devem ser preservados, mas garantidos à incolumidade de declarações que potencialmente lhe alterem o curso. Então, seja pela crença na Justiça, seja pela segurança da investigação, a empresa reserva o direito de – se eventualmente for chamada – falar em foro próprio, modo a evitar qualquer possibilidade de (pré)juízo aos fatos investigados.”

COM A PALAVRA, A DERSA

“A DERSA – Desenvolvimento Rodoviário S/A e o Governo do Estado de São Paulo são os grandes interessados acerca do andamento das investigações. Todas as obras realizadas pela Companhia foram licitadas obedecendo-se à legislação em vigor. Além disso, a obra foi iniciada somente com o projeto básico. Portanto, após a elaboração do projeto executivo, quando as medições são ajustadas, é possível que haja acertos.”

“A DERSA ressalta que se houve conduta ilícita com prejuízo aos cofres públicos, o Estado irá cobrar as devidas responsabilidades, como já agiu em outras ocasiões. A Companhia reforça seu compromisso com a transparência e se mantém, como sempre o faz, à disposição dos órgãos de controle para colaborar com o avanço das investigações.”

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