Ex-chefe do Ministério Público do Rio pagou R$ 200 mil em dinheiro vivo por casa em Búzios

Ex-chefe do Ministério Público do Rio pagou R$ 200 mil em dinheiro vivo por casa em Búzios

Procurador Cláudio Lopes, preso nesta quinta, 8, declarou que valor era fruto de ‘atividade que exercia, desde 1991, no magistério, mais especificamente na área de cursos preparatórios para concursos’

Julia Affonso

12 Novembro 2018 | 05h00

O ex-procurador-geral de Justiça do Rio Cláudio Lopes declarou, em depoimento, que pagou uma parcela de uma casa em Búzios, litoral do Rio, com R$ 200 mil em dinheiro vivo. Cláudio Lopes foi preso na quinta-feira, 8 em sua casa, no Recreio dos Bandeirantes, acusado de participar do esquema de propinas liderado pelo ex-governador Sérgio Cabral (MDB).

O depoimento foi prestado em 28 de setembro. O ex-procurador-geral de Justiça contou que os R$ 200 mil eram fruto de uma ‘atividade que exercia, desde 1991, no magistério, mais especificamente na área de cursos preparatórios para concursos’.

A casa, segundo o Ministério Público do Rio, custou R$ 500 mil em janeiro 2011. Como procurador-geral, Lopes chefiou a instituição no Estado do Rio entre 2009 e 2012.

A vendedora do imóvel em Búzios também prestou depoimento. Ela contou que ‘estranhou o fato de o comprador desejar pagar parte da casa em dinheiro’.

“A depoente se dirigiu ao banco e teve contato com o comprador da casa; que se recorda que Claudio comprou o imóvel de Búzios, pagando parte em dinheiro e parte em cheque; que o dinheiro foi depositado imediatamente na conta corrente da declarante, assim como a parte que foi paga em cheque”, narrou.

Pouco mais de um ano após a compra da casa, Cláudio Lopes ‘justificou’ a aquisição em correspondência enviada a seus pares em 24 de setembro de 2012. Na ocasião, o então procurador-geral de Justiça citou a Cooperativa de Economia e Crédito Mútuo dos Integrantes do Ministério Público e da Defensoria Pública no Estado do Rio de Janeiro (Coomperj).

“Adquiri esse ano uma pequena casa em Búzios, financiada pela Coomperj, com desconto em folha de pagamento e fruto da verba recebida pela PAE, que fui o primeiro Procurador-Geral a instituir e que pago em condições e valores sem paralelo no Brasil”, declarou.

Na avaliação do atual procurador-geral de Justiça em exercício Ricardo Ribeiro Martins, a mudança nas versões de 2012 e de 2018 ‘revela inconsistência’ das explicações de Claudio Lopes.

“E pior: apresentou a inverossímil afirmação que, em pleno século XXI, na cidade do Rio de Janeiro, considerada uma das mais violentas do mundo, manteve R$ 200 mil em espécie dentro sua residência, durante mais de cinco anos, uma vez que afirmou que deixou de dar aula em quantidade significativa em 2005”, apontou Ricardo Ribeiro Martins.

Em outubro, Cláudio Lopes foi denunciado pelo próprio órgão por formação de quadrilha, corrupção e quebra de sigilo funcional. No mesmo processo, que tramita em segredo de Justiça, também foram denunciados o ex-governador Cabral, o ex-secretário estadual de governo Wilson Carlos e Sérgio de Castro Oliveira, suposto operador financeiro de Cabral.

O ex-procurador-geral é acusado pelo ex-secretário estadual de Saúde, Sérgio Côrtes, e pelo ex-subsecretário executivo da mesma pasta, Cesar Romero, de ter vazado para ambos a realização de uma operação de busca e apreensão que seria realizada na casa de Romero, a pedido do Ministério Público, em novembro de 2010.

A busca foi feita, mas não foram encontrados documentos comprometedores porque no dia anterior Romero destruiu o material que poderia incriminá-lo, usando até um triturador de papel, segundo contou à Justiça.

Segundo um ex-operador do ex-governador do Rio, Carlos Miranda, o ex-procurador também recebeu mesada a mando de Cabral, enquanto este governava o Estado do Rio e Lopes chefiava o Ministério Público. Para não fiscalizar adequadamente o governo, o então procurador-geral teria recebido R$ 150 mil por mês ao longo de toda sua gestão. Nesse período, a investigação de denúncias graves deixou de avançar e acabou interrompida.

Cláudio Lopes ingressou no Ministério Público do Estado do Rio em 1987. Passou pelas comarcas de Campos dos Goytacazes e São João da Barra, e em janeiro de 1995 assumiu a Promotoria de Justiça junto à 36ª Vara Criminal do Rio, onde permaneceu até julho de 2001. Em seguida foi promovido a procurador de Justiça. No final de 2008 venceu a eleição para procurador-geral de Justiça no biênio 2009-2011, tendo obtido 321 votos, apenas quatro a mais que o segundo colocado, Eduardo Gussem.

Disputou novamente a eleição para o biênio seguinte e foi reconduzido ao cargo com 483 dos 850 votos possíveis. Vencer a eleição não é garantia de ocupar o cargo, já que a nomeação cabe ao governador do Estado, que pode escolher qualquer nome entre os três primeiros colocados na eleição. Então governador, nas duas ocasiões Cabral respeitou a tradição e nomeou o mais votado.

COM A PALAVRA, A DEFESA DO PROCURADOR

A reportagem está tentando localizar a defesa de Claudio Lopes. O espaço está aberto para manifestação.

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