Ex-Casa Civil de Helder Barbalho tinha máquina de contar dinheiro em casa e armava fraudes em licitações no governo do Pará, diz PF

Ex-Casa Civil de Helder Barbalho tinha máquina de contar dinheiro em casa e armava fraudes em licitações no governo do Pará, diz PF

Parsifal de Jesus Pontes, é apontado pela Polícia Federal como um dos principais responsáveis por estruturar e operacionalizar, dentro do governo, suposto esquema de fraudes em licitações, 'sob a provável anuência e comando' do chefe Executivo Helder Barbalho

Pepita Ortega, Rayssa Motta e Fausto Macedo

29 de setembro de 2020 | 14h29

Parsifal Pontes. Foto: Thiago Gomes/Ag Pará

Preso na manhã desta terça, 29, na Operação S.O.S, o ex-secretário da Casa Civil do Pará e atual chefe da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, Mineração e Energia da Governadoria do Estado, Parsifal de Jesus Pontes, é apontado pela Polícia Federal como um dos principais responsáveis por estruturar e operacionalizar, dentro do governo, suposto esquema de fraudes em licitações, ‘sob a provável anuência e comando’ do chefe Executivo Helder Barbalho. A corporação aponta que Parsifal pode ter tentado atrapalhar as investigações de outra operação realizada em junho e destaca o resultado de uma ordem de busca cumprida contra o secretario – a apreensão de uma máquina de contar cédulas na casa de Parsifal com ‘montante considerável de dinheiro em espécie’.

A PF também investiga a relação do secretário com Nicolas Andre Tsontaki Mois, o suposto ‘elo entre médicos e empresários de São Paulo com a alta cúpula do Governo do Pará’. Segundo os investigadores, há ‘fortes indícios’ de que Nicolas intermediou a ida de organizações para o Pará, ‘a fim de implementar o esquema criminoso de desvio de recursos públicos através de contratos de gestão na área da Saúde’.

As investigações da S.O.S. contaram com o compartilhamento de dados de uma investigação conduzida pela Polícia Cvil e pelo Ministério Público de São Paulo, que levou à Operação Raio X, também aberta nesta terça, 29.

Na decisão em que determinou a abertura da S.O.S. com o cumprimento de 12 mandados de prisão e 41 de busca e apreensão, o ministro Francisco Falcão, do Superior Tribunal de Justiça registrou: “Os elementos de prova expostos demonstram a forte e antiga relação existente, inclusive financeira e patrimonial, entre Parsifal de Jesus Pontes e Nicolas Andre Tsontakis Morais, indicando que o Secretario seria o responsável pela aproximação da organização criminosa com o governo do Estado do Pará”.

A Polícia Federal destacou o ‘lugar de destaque’ de Parsifal na organização criminosa investigada na S.O.S. apontando que o ex-chefe da Casa Civil, após decisão do governador Helder Barbalho, ‘operacionalizava o esquema dentro da estrutura de governo, articulando-se com outros Secretários e tomando frente em decisões que dizem respeito à contratação, execução, pagamento e conclusão dos projetos, ainda que esse projeto não pertencesse à sua área de atuação’.

Além disso, segundo os investigadores, Parsifal também buscava operacionalizar o esquema criminosa por um ‘laranja’, Nicolas André Tsontakis Morais. O suposto elo entre se referia ao secretario como ‘chefe’ ou ‘sócio’ em mensagens interceptadas pela Polícia Federal. Nicolas também foi alvo de mandado de prisão na S.O.S.

A corporação também destacou que no celular apreendido do Secretaria também foi encontrada foto do cartão de crédito em nome de Nicholas Andre Silva Freire, uma identidade falsa utilizada por Nicolas Morais.

“Considerando o contexto fático, faz-se razoável depreender que Parsifal Pontes utilizava-se do cartão de crédito pertencente a Nicolas para efetuar compras em benefício próprio ou de terceiros, sendo essa uma das formas de visualizarmos o retorno do dinheiro desviado ao núcleo político, bem como a obtenção de vantagem indevida em razão de fraudes perpetradas, reforçando, ainda mais, os vínculos existentes entre a cúpula do governo e os fatos ilícitos apurados”, registrou a PF em representação enviada ao STF.

Também no celular de Parsifal foi identificada uma nota fiscal em nome de Daniela Barbalho, mulher do governador, referente à venda de roupas, no valor de R$ 9.212,40, com registro de pagamento em dinheiro.

Ainda durante busca e apreensão contra o secretário, foi encontrada, em sua residência uma máquina de contar cédulas, além de ‘montante considerável de dinheiro em espécie’. “A posse de tal equipamento é forte indicativo do manuseio de valores em espécie, que constituem meio frequente de pagamento de propina”, registrou Francisco Falcão em sua decisão.

As autoridades policiais também apontaram a existência de uma transação imobiliária suspeita, realizada em dezembro de 2017, consistente a venda de um apartamento de Parsifal para Carlos Augusto da Silva Guimarães, um suposto ‘laranja’ de Nicolas. A operação foi registrada em R$ 140 mil, mas segundo a PF, o mesmo imóvel foi declarado por Carlos Eduardo no Imposto de Renda do ano seguinte com valor de R$ 600 mil.

Em sua decisão, Francisco Falcão aponta ainda que ‘há registro de tratativas de aquisição de imóvel de valor expressivo, tendo o Secretário realizado proposta no valor de R$ 1,5 milhão, com pagamento a vista’. No documento não há mais detalhes sobre a operação.

Tentativa de atrapalhar investigações

A Polícia Federal também apontou suposta tentativa de Parsifal de atrapalhar investigações acerca de irregularidades na aquisições de cestas básicas – objeto da Operção Solécia, deflagrada em junho. Na ocasião, foram cumpridos 26 mandados de busca e apreensão para apurar suposto esquema de desvio de recursos públicos federais do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) e do Fundo Nacional de Saúde (FNS) envolvendo irregularidades em contrato com empresas fornecedoras de produtos alimentícios.

Segundo a corporação, o secretário teria se valido da Polícia Civil do Estado, por meio do contato de seu cunhado, Alberto Henrique Teixeira de Barros, delegado-geral da Polícia Civil. “Nesse sentido, relata a Polícia Federal, a apreensão, na residência de Parsifal Pontes, de documento elaborado pelo núcleo de inteligência da Polícia Civil acerca de Henrique Lutz, que figurou como ‘testa de ferro’ de Nicolas André Tsontakis Morais e Cleudson Garcia Montali no esquema das cestas básicas”, registra a decisão de Falcão.

O ministro também indica que as autoridades policiais e a Procuradoria-Geral da República também informaram sobre a ‘aquisição de equipamento com capacidade de monitorar comunicação de celulares, no valore de R$ 5 milhões, pela Polícia Civil do Estado do Pará que pode estar sedo usado para o monitoramento indevido de pessoas.

COM A PALAVRA, O GOVERNO DO PARÁ

Sobre a operação da Polícia Federal, que ocorre nesta terça-feira (29.09), o Governo do Estado esclarece que apoia, como sempre, qualquer investigação que busque a proteção do erário público.

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