EUA têm oito acusações por conspiração e contrabando de pessoas contra líder da maior rede de tráfico de migrantes do mundo

EUA têm oito acusações por conspiração e contrabando de pessoas contra líder da maior rede de tráfico de migrantes do mundo

Departamento de Justiça americano acumula ações contra o bangalês Saifullah al Mamun, preso em São Paulo na última quinta, 31, pela Polícia Federal, acusado de chefiar uma rota clandestina de migração que passava por dez países, além do Brasil, e tinha como destino os Estados Unidos

Pepita Ortega

04 de novembro de 2019 | 11h48

Saifullah al Mamun, bangalês. Foto: PF/Divulgação

As autoridades americanas têm oito acusações por conspiração e contrabando de migrantes contra Saifullah al Mamun, que comandava do Brasil um esquema intercontinental de tráfico de pessoas. A informação foi divulgada pelo Departamento de Justiça dos EUA.

Saifullah foi preso em São Paulo na última quinta-feira, 31, pela Polícia Federal, na Operação Estação Brás, comandada pelo delegado Milton Fornazzari Júnior, da Delegacia de Defesa Institucional da PF em São Paulo.

Somente no Brasil, entre 2014 e 2019, a organização liderada por Saifullah teria movimentado ao menos US$ 10 milhões, indicou a PF.

Segundo o Departamento de Justiça americano, as acusações contra o bangalês foram apresentadas junto a uma Corte do Sul do Texas.

Outros seis presos da Operação Estação Brás são citados em nota divulgada pelo Departamento de Justiça dos EUA – Saiful Islam, Tamoor Khalid, Nazrul Islam, Mohammad Ifran Chaudhary, Mohammad Nizam Uddin e Md Bulbul Hossain.

Segundo a PF, o grupo chefiava uma rota clandestina migração para os Estados Unidos que passava por dez países, além do Brasil – Peru, Equador, Colômbia, Panamá, Costa Rica, Honduras, Nicarágua, El Salvador, Guatemala e México.

Para levar pessoas do Sul da Ásia – em especial Afeganistão, Bangladesh, Índia, Nepal e Paquistão – até os EUA, a quadrilha cobrava R$ 47 mil.

As autoridades americanas indicam ainda que Saifullah Al-Mumun e outros integrantes do grupo acertavam pagamentos no México, América Central, América do Sul e Bangladesh.

A PF aponta que, para lavar o dinheiro, o grupo usou diferentes estratégias, entre elas o uso de ‘laranjas’, saques e movimentações em espécie, transferências, movimentações de valores fracionados e operações de dólar-cabo.

A PF registrou ainda que Saifullah Al Manun tinha ‘poder atual e efetivo de corromper agentes públicos brasileiros, tentando trazê-los para dentro de sua associação criminosa’.

Entre os elementos encontrados, estão a possível cooptação de um policial civil e o uso de sua viatura para ‘tráfico de seres humanos’. Ele também teria cooptado agentes de embaixadas de diversos países no Brasil.

Segundo a Polícia Federal, o líder da maior rede de contrabando de migrantes do mundo providenciava solicitações de refúgio ou fornecia documentos de viagem falsos, como passaportes, vistos e cartas de tripulantes marítimos.

Operação Estação Brás, da PF, combate esquema de contrabando de migrantes. Foto: PF/Divulgação

Os migrantes saiam de seus países com destino ao Aeroporto Internacional de São Paulo (Guarulhos/Cumbica) e, então, eram recebidos pela quadrilha de Saifullah.

Segundo, a PF, ao longo do tempo em que permaneciam em São Paulo, os migrantes ficavam no bairro do Brás, na região central de São Paulo, e sofriam maus-tratos, como cárcere privado, agressões físicas e psicológicas.

Depois, os estrangeiros seguiam para Rio Branco (AC), de onde atravessavam a fronteira com o Peru e seguiam de ônibus ou até de barco para a fronteira do México com os EUA.

Polícia Federal deflagrou as operações Estação Brás e Bengal Tiger. Foto: PF/Divulgação

A Polícia Federal destacou as diferentes situações enfrentadas pelos migrantes ao longo do trajeto: “Na região da fronteira da Colômbia com o Panamá, os migrantes atravessam a Selva de Darién, por cerca de cinco a dez dias a pé, enfrentando diversos perigos, como onças, animais peçonhentos e narcotraficantes.”

Já na fronteira do México com os Estados Unidos, os migrantes corriam o risco de ser sequestrados pelos cartéis mexicanos. Dentre aqueles que chegam ao destino final, os Estados Unidos, muitos podem ser presos por imigração ilegal.

Advogado ajudava com status de refugiado

O advogado Henrique Gonçalves Liotti era responsável por pedir o status de efugiado para alguns dos imigrantes, informou a PF.

Em um caso monitorado pelos agentes federais, ele declarou o endereço dos interessados como Rua Barão do Ladário, nº 859, Brás.

Rua Barão do Ladário, 859, onde ficava o restaurante de um dos parceiros de Sallufah. Foto: Google Maps/Reprodução

O endereço, no entanto, era do India Bangla Restaurante Ltda. e Asian Viagens e Turismo Ltda, empresas de Saiful Islam, associado de Saifullah al Mamun no contrabando de migrantes, destacou a PF.

O advogado ainda teria atuado em favor de Nazrul Islam, outro integrante do grupo, em oitiva no âmbito da Operação Philotheus, na qual a PF já investigava a prática de contrabando de migrantes.

Nazrul e Liotti foram grampeados enquanto tratavam da recepção de alguns dos migrantes em Rio Branco.

COM A PALAVRA, A DEFESA

A reportagem busca contato com a defesa de Saifullah al Mamun e do advogado Henrique Gonçalves Liotti. O espaço está aberto para manifestação.

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