Eu vi um passarinho verde

Eu vi um passarinho verde

Fernanda Zacharewicz*

07 de março de 2021 | 03h30

Fernanda Zacharewicz. FOTO: DIVULGAÇÃO

Logo no segundo dia do ano saí para o mercado e me deparei com uma bolinha verde no meio da rua. Desviei o carro, nenhum movimento. Se fosse um pássaro, deveria ter voado, pensei.

Uns metros adiante, resolvi parar. Era um pássaro e estava vivo. Enrolando-o na barra do vestido, coloquei-o em um canteiro próximo. Voltei do mercado, lá estava ele, onde eu o havia deixado, novamente feito bolinha. Se ele permanecesse lá, os gatos da rua o pegariam. Deve ter se machucado de alguma forma…

Do sótão da casa, retiramos a gaiola de hamster há muito não usada. Nela aconchegamos o pequeno, com água, fruta e a promessa de soltá-lo assim que melhorasse. Meia hora depois, minha filha mais velha sugeriu que o levássemos ao veterinário. Parei. Nesse instante preciso eu soube.

Está morrendo, balbuciei. No relâmpago das imagens que correm rápido em nossa memória, lembrei dos animais que resgatei quando criança, dos passarinhos abrigados nas caixas de sapatos, dos cães de rua escondidos na garagem do prédio – em uma época em que não havia câmeras de segurança.

Estava eu diante da morte, uma vez mais. Eu sabia que estávamos em pandemia, que milhares de homens e mulheres morriam diariamente. Sabia também que não eram paninhos, frutinhas, cloroquina, negacionismo que fariam as mortes diminuírem.

Eu chorei. Chorei ante a minha impossibilidade. Chorei pelo pássaro verde, pelas centenas de milhares de mortes advindas da miséria, do não acesso à educação e aos cuidados de saúde. Chorei e aconcheguei o pássaro – era isso que eu poderia fazer naquele momento. Chorei porque percebi que vive em mim a criança que acredita que as relações podem ser diferentes, que acolhe e acompanha e que sabe da própria impossibilidade – esse é o saber.

O saber da impossibilidade não é paralisante. É o que impulsiona a fazer o possível. No meu caso, a continuar a escutar, publicar e escrever com a pressa infundida pela urgência do desejo. Cazuza cantava que “as ilusões estão todas perdidas”. E completa: “eu vou pagar a conta do analista/pra nunca mais ter que saber quem eu sou” – e o que percebo é justamente o revés disso: sim, as ilusões estão perdidas, inclusive as que eu tinha sobre mim mesma, as ilusões que marcam os pequenos limites que a mediocridade de uma existência deficitária impõe e as que alimentam os projetos impossíveis de se realizar. Essas ilusões caem, paga-se o analista justamente para saber quem se é, saber de suas possibilidades, de seus alcances e de seus desejos. Saber a medida e com isso adquirir o traquejo necessário para realizá-los. No dia dois de janeiro, a medida que coube a mim foi acolher o pássaro em seu momento final.

Enterramos o pássaro no canteiro de flores. As chuvas de verão e o calor devem ter acelerado o processo de decomposição de sua carcaça, que, pouco a pouco, alimentará o pólen que as abelhas virão visitar. É pouco, eu sei. Mas naquele segundo dia do ano era a medida do que eu podia fazer.

Dois meses depois, a escrita destas linhas são mais um passo nessa experiência que ainda retumba em mim. Saber da própria impossibilidade é abrir-se para que, a cada vez, novas possibilidades possam ser percebidas e postas em ação. Paga-se a conta do analista para, se dermos sorte, termos um pouco de traquejo. No fim das contas, eu vi um passarinho verde.

*Fernanda Zacharewicz é psicanalista, doutora em Psicologia Social pela PUC/SP e editora na Aller Editora

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