Eu tento colorir um universo obscuro

Eu tento colorir um universo obscuro

Fernanda Alves*

30 de outubro de 2017 | 12h23

Fernanda Alves. FOTO: Arquivo Pessoal

Não pensa que é fácil. Dói demais ver tanta gente perdida, sem rumo, doente, e ainda julgada!!
Meu trabalho requer muito equilíbrio, não que eu seja a mais equilibrada, tenho meus problemas diários como todo mundo, vivo meu dia a dia, sou mãe, educo, tenho minha profissão e minha casa.

Mas cabe, sim, parte do meu tempo a eles, tão abandonados. Os dependentes químicos são muito carentes, sensíveis, vivem sozinhos.

As histórias dos usuários e ex-usuários de crack são chocantes. Sempre.

Quem cai nas teias dessa droga derivada da cocaína tem, em curto espaço de tempo, a saúde devastada, as relações sociais destruídas e a vida destroçada.

São depoimentos rudes, sem meias palavras, que humanizam estatísticas cada vez mais alarmantes.

Para os olhos de muitos a felicidade é apenas dinheiro! Mas não para eles. O que eles precisam é somente de colo, amor, ternura.

Estudo do psiquiatra Ronaldo Laranjeira, da Universidade Federal de São Paulo, revela que 30% dos dependentes de crack morrem antes de completar cinco anos de uso.

“É um índice maior que o da leucemia e de outras doenças graves”, alerta Laranjeira.

As causas do óbito vão além dos malefícios da droga no corpo — para conseguir saciar o vício, o usuário perde a noção do perigo e envolve-se constantemente em situações de alto risco. “Mais da metade dessas mortes foi decorrente de confrontos com traficantes ou policiais.”

Confesso que trabalhar em benefício dos dependentes de crack, álcool, cocaína, maconha, requer muito equilíbrio. E Fé.

Faço terapia, uso medicação como antidepressivos, mas minha força vai além disso tudo.

Tenho um Deus que me acompanha. Se eu relatar o que sinto, vai parecer que quero converter alguém a alguma religião, e nem é isso, pois nem religião eu acho que tenho.

Eu tenho Fé.
Já fui espírita, evangélica, católica, mas depois que comecei a ir fundo nesse meu propósito em benefício desses doentes, comecei a meditar e escutar todos os tipos de orações.

Deus fala comigo absurdamente em todas as minhas orações.

Escuto de tudo. Pastora gritando, vozes doces para uma pequena oração. Dá aquele calor, que só quem tem Fé sabe o que sinto.

Meu pranto cobre minha face, lágrimas rolam, meus olhos e minha boca ficam trêmulos.

Sei que isso tudo é pra me preparar para enfrentar esse universo obscuro.

Chego a uma clínica de recuperação. Os pacientes me olham, sorriem, eu enxergo as coisas meio embaçadas.

A paz que eu sinto nessas horas, mesmo diante das trevas, me faz bem.

Aquela meditação de todo santo dia. É uma espécie de permuta, ‘eu te ajudo e você me ajuda’ a ter cada dia mais Fé, porque sem vocês eu não buscaria tanto a Deus como eu busco, e eu preciso demais Dele para seguir em frente, em absolutamente tudo na minha vida.

Sempre tem um paciente que está mais isolado, lendo um livro. Alguns têm a bíblia na mão.

Daquele mais isolado, num canto, eu me aproximo. Tímido, me parece amedrontado, eu vou chegando devagarinho, me apresento. Ele não olha nos meus olhos, talvez sinta-se envergonhado, acuado, não quer papo, a vida o deixou assim, ou melhor, as drogas.

Eu insisto, pego em suas mãos, levanto seu queixo, olho dentro dos seus olhos. Ele dá um sorriso, exibe dentes já arruinados pela cocaína, ou pelo crack, mas é um sorriso puro, de agradecimento, até que ele mesmo tem a iniciativa de me abraçar.

É um abraço apertado, materno, divino e ficamos ali. Apenas em silêncio.

Não, eu não sou Deus, mas quero mostrar a esses doentes que existe uma luz no fim do túnel, que existem sim pessoas do bem, que se preocupam, que tentam ajudá-los ao invés de julgá-los.
Que os tratam como gente.

É essa força que eu tento levar a eles.

A ternura faz com que sua recuperação obtenha sucesso, e é isso que todos os familiares de dependentes químicos devem fazer pelos seus entes. Eles podem levar anos para superar o vício e estão sujeitos a recaídas frequentes, mesmo depois de muito tempo sem usar a droga.
Ainda não há tratamentos nem remédios que impeçam que o usuário volte a fumar as pedras, ou cheirar cocaína.

A vigilância deve ser constante, sem tréguas, até o fim da vida, de acordo com os grupos de mútua ajuda, como os Narcóticos Anônimos.

*Fernanda Alves, Jornalista/Apresentadora, Embaixadora ‘S.O.S Dependentes Químicos’ (www.sosdependentesquimicos.org)

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