‘Eu sou um Roberto Jefferson!’

‘Eu sou um Roberto Jefferson!’

Preso na fase 8 da Operação Calvário, o empresário de comunicação e radialista Fabiano Gomes está sob suspeita de envolvimento nos esquemas de desvios na Paraíba, e de usar informações das investigações para extorquir outros investigados; em áudio, ex-procurador-geral do Estado revela que ele se comparava ao delator do Mensalão para pressionar

Luiz Vassallo e Pedro Prata

11 de março de 2020 | 08h00

Fabiano Gomes e Roberto Jefferson. Fotos: Reprodução e WILTON JUNIOR/AGÊNCIA ESTADO

A Operação Calvário – investigações do Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco) e da Polícia Federal – revelou o suposto envolvimento do radialista e empresário de comunicação Fabiano Gomes da Silva em esquema de desvios milionários de dinheiro público da Paraíba.

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Ele aparece como sócio de sete empresas, entre elas, a Artfinal Propaganda, que teria recebido R$ 9,1 milhões do Estado. Em áudio anexado aos autos da Calvário, o ex-procurador-geral do Estado Gilberto Carneiro, também investigado, revelou que Fabiano se comparava ao delator do Mensalão Roberto Jefferson para fazer jogo de pressão.

“Não, vocês estão brincando comigo… vocês estão brincando comigo! Eu sou um Roberto Jefferson… Eu sou um Roberto Jefferson!” Ai, assim… eu… eu… eu… fiquei cauteloso, tal…”, teria dito o radialista a Carneiro, segundo seu relato ao lobista Daniel Gomes, ligado a empresas de saúde que gravou a conversa com o ex-procurador-geral.

Roberto Jefferson, ex-deputado federal pelo PTB (RJ), ganhou fama em 2005 quando delatou o Mensalão, primeiro escândalo da era Lula, que levou para a prisão quadros notórios do PT, velhos aliados do ex-presidente.

A Operação Calvário mira desfalques de recursos públicos em diversas áreas do governo da Paraíba, principalmente a Educação e a Saúde, durante a gestão Ricardo Coutinho (PSB), apontado como suposto líder em esquemas que desviaram R$ 134,2 milhões do Tesouro estadual.

A fase 8 da Calvário, deflagrada nesta terça, 10, mira lavagem de dinheiro da Saúde envolvendo o irmão do ex-governador, Coriolano Coutinho.

A Artfinal Propaganda, de Fabiano, também pertence a Denise Krummenauer, que já foi presa e denunciada na Calvário por ser sócia de uma empresa de brinquedos ao lado de Raquel Vieira Coutinho, irmã de Ricardo. Os investigadores suspeitam que a Artfinal também seria da família Coutinho.

“Inclusive o material apreendido na residência daquela, durante a última fase ostensiva da operação, indica a ingerência da família “COUTINHO” em relação à mencionada pessoa jurídica, robustecendo as suspeitas da existência de vínculos entre os mencionados investigados e o requerido FABIANO GOMES”, anota o desembargador Ricardo Vital, o relator da Calvário no Tribunal de Justiça da Paraíba.

Com Ricardo Coutinho, os investigadores já teriam encontrado manuscritos que apontariam para supostos repasses a Fabiano: “30.000 – FG (Fabiano Gomes)”; “2,5 mi p/ Luc. (Luceninha) -> últimos 500 p/ FG (Fabiano Gomes)”; “Tu negocia milhão com Fabiano Gomes e vem me dar couro de rato. Na véspera-19:10 -> 3hs – Nonato no Escritório de Roberto Santiago”, os quais teriam relação com os desdobramentos da “Operação Xeque-Mate”.

No material entregue pelo delator Daniel Gomes, lobista ligado a empresas de saúde, há um áudio de uma conversa entre o empresário e o ex-procurador-geral do Estado da Paraíba, Gilberto Carneiro, em que é citada uma suposta ameaça de Fabiano.

“GILBERTO: aí esse aqui, tava… tava… é… querendo fazer campanha de VENEZIANO, sabe?
DANIEL: Hum… hum…
GILBERTO: que é um dos nossos senadores.
DANIEL: Hum… hum…
GILBERTO: aí WALDSON… é… eu tinha… questão óbvia (ininteligível) de marketing… é o único né, e tal. Aí vetou né, porque disse que já tava…
DANIEL: Claro!
GILBERTO: …com o marketing todo completado… se esse aqui quisesse contratar ele… esse aqui…
DANIEL: Ok, faz… faz… individual.
GILBERTO: Seria pra… pra… pra mulher…
DANIEL: Entendi!
GILBERTO: que a mulher dele é candidata!
DANIEL: É federal! É federal né, a mulher?
GILBERTO: É! aí esse aqui foi dizer a esse que esse tinha vetado… esse…
DANIEL: Putz…
GILBERTO: aí esse aqui surtou, sabe? Surtou ai… aí fez um monte de ameaça e tal… tal… tudo mais… ai… aí gerou um problema sério e tal… aí eu fui falar com esse… pra puder…
DANIEL: Claro!
GILBERTO: Ele tava (ininteligível)… aí eu cheguei lá… o que é que tá acontecendo? Ele disse: “não é por que m fuderam… fuderam, me escantearam, eu tô fudido, tô passando fome, não sei o quê, eu tava certo… eu ia fazer com o senador e aí…” Eu disse, rapaz, não existe isso não, isso é desculpa do senador, com todo respeito. Não pode ser feito pela majoritária, por que tu sabe muito bem que os recursos são vinculados pra… pra o marketing geral… a gente não… a gente não aceita, a gente não admite campanha separada, tem que ser casada. Por uma questão óbvia…
DANIEL: Claro!
GILBERTO: Então assim, ele pode muito bem te contratar pra tu fazer o da mulher, agora eu vou conversar com ela, então você não fique conversando essas coisas… aí amigo… agora você já disse que vai procurar a polícia, vai… vai… vai fazer uma denúncia que você tá… fazer uma restrição… ocorrência que você tá ameaçando ele… aí ele pegou e disse: “É, porque eu sei muita coisa”. (ininteligível) o quê? “Sei, eu sei muita coisa!” (ininteligível). Eu não sei…
DANIEL: Hum… hum…
GILBERTO: aí eu disse, rapaz…
HNI: (ininteligível) …é?
DANIEL: Todo mundo já olhou e de cima… cabo a rabo porra…
GILBERTO: Pois é… isso ai, se preocupa não, isso aí… “Não, vocês estão brincando comigo… vocês estão brincando comigo! Eu sou um Roberto Jefferson… Eu sou um Roberto Jefferson!” Ai, assim… eu… eu… eu… fiquei cauteloso, tal…
DANIEL: É!
GILBERTO: aí depois ele se acalmou, tal… enfim… e eu conversei com esse aqui…
DANIEL: Contornou, conseguiu contornar!
GILBERTO: Esse aqui… esse aqui disse: “Não… não… tá… tá sob controle, tá não sei… mas aí eu fiquei curioso, aí eu quero te perguntar se alguma vez vocês tiveram alguma bronca?
DANIEL: Nunca, nunca nem tive…
GILBERTO: Não, né?
DANIEL: Nada… nada… zero… zero!
GILBERTO: Zero… zero…
DANIEL: Vou até perguntar pro LENILTON, eventualmente, se alguma coisa na comunicação, mas também não me lembro de nada dele, pelo contrário.
GILBERTO: Ham… ham…
DANIEL: Não, a gente nunca teve política de pagar pra esses jornalistas, essas merdas… a gente nunca fez!
GILBERTO: Não, né? Era só… como eu te falei…
DANIEL: Que foi por acaso, foi até o LENILTON dizendo que foi contra, eu até confesso que em alguns momentos pensava até…
GILBERTO: Sei… sei!
DANIEL: … que às vezes é mais fácil pra gente resolver o problema, mas não, pelo contrário. Com a gente nunca teve não…
GILBERTO: É….

Um empresário investigado na Calvário, Denylson Machado, também apontou supostas extorsões de Fabiano com uso das investigações.

“Ele vinha com a promessa de é… de me blindar, a palavra que ele usou… que me blindaria sobre questões jurídicas e questões judiciais que eu possivelmente poderia estar envolvido… eu disse para ele que não me interessava porque eu não tinha nenhum problema, não tinha necessidade de ser blindado”, afirmou, em depoimento à PF.

Segundo a decisão que deflagrou a 8ª fase da Calvário, os ‘extratos das conversas entre Denylson Machado e Fabiano Gomes, associados à perícia realizada pela Polícia Federal e aos áudios colacionados, corroboram a narrativa esculpida por Denylson Machado’.

“Configuram fortes indicativos da prática de extorsão (tipo penal previsto no art. 158 do Código Repressor) pelo investigado Fabiano Gomes, o qual se dizendo detentor de “informações privilegiadas” e de material investigativo relevante, teria constrangido Denylson Machado, mediante grave ameaça (porquanto as palavras lançadas restaram capazes de incutir temor no sujeito passivo), a pretexto de obter para si vantagem indevida, consubstanciada, na espécie, na celebração de contrato entre os seus canais de comunicação e a empresa administrada por Denylson Machado, em valor aparentemente exorbitante”, anotou o desembargador.

Segundo o desembargador, a ‘respeito da suposta vantagem indevida, Denylson Machado teria dito a Fabiano Gomes:

“Meu nobre nunca lhe humilhei, apenas não podia fazer um contrato no valor que você queria que fizesse e seria lhe humilhar eu fechar um compromisso com você e não honra”. FABIANO GOMES, por sua vez, teria reclamado: “O único portal do estado que não tem contrato com vocês é o meu””, narra a decisão, com base em mensagens apreendidas.

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