‘Eu preciso que você me pague’, disse Cunha a delator, segundo Procuradoria

‘Eu preciso que você me pague’, disse Cunha a delator, segundo Procuradoria

Na longa denúncia de 85 páginas contra o presidente da Câmara, Ministério Público Federal transcreve trechos do diálogo que, segundo Júlio Camargo, ocorreu em setembro de 2011 em um escritório no Leblon

Redação

21 de agosto de 2015 | 14h36

Por Valmar Hupsel Filho

Eduardo Cunha (esq) e Fernando Baiano. Fotos: Estadão e Geraldo Bubniak

Eduardo Cunha (esq) e Fernando Baiano. Fotos: Estadão e Geraldo Bubniak

Na denúncia que apresentou nesta quinta-feira, 20, contra o presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, relatou em detalhes a pressão a que o peemedebista teria imposto ao delator da Operação Lava Jato Júlio Camargo para pagar U$ 10 milhões em propinas – US$ 5 milhões para o próprio parlamentar e US$ 5 milhões para seu aliado, o lobista do PMDB na Petrobrás, Fernando Falcão Soares, o Fernando Baiano.

“Eu preciso que você me pague”, ameaçou Cunha, segundo o delator. O presidente da Câmara nega.

Na peça encaminhada ao Supremo Tribunal Federal, o chefe do Ministério Público Federal afirma que, entre os anos de 2006 e 2009, o presidente da Câmara recebeu parte de um total de U$ 40 milhões em contrato de multinacionais para construção de dois navios-sonda da Petrobrás.

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Os pagamentos eram feitos pelas empresas via Júlio Camargo, que repassava a Fernando Baiano o dinheiro que tinha Cunha como destinatário final.

 

De acordo com o procurador-geral, em julho de 2010 a propina foi suspensa. Nessa ocasião, Júlio Camargo passou a ser pressionado por Baiano para efetuar o pagamento atrasado de U$ 15 milhões. A pressão sofrida foi relatada em julho pelo lobista em depoimento à Procuradoria-Geral da República. Camargo relatou que Baiano, ao cobrar o dinheiro, falou que era ‘assunto de interesse’ do deputado Eduardo Cunha.

Segundo a Procuradoria, o deputado,o delator e o lobista do PMDB se encontraram em setembro de 2011 em um prédio comercial no Rio. Na reunião, segundo a denúncia, Eduardo Cunha cobrou diretamente a Camargo.

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“Júlio, em primeiro lugar eu queria dizer que não é um problema pessoal em relação a você. Acontece que o Fernando não me paga porque diz que você não o paga. Como Fernando não tem capacidade de me pagar, eu preciso que você me pague”, disse Cunha, segundo relato de Júlio Camargo à Justiça.

O delator disse que ainda tentou explicar o motivo da suspensão dos pagamentos, mas Cunha foi irredutível. “Eu não sei de história e não quero saber”, teria dito. “Eu ainda tenho 5 milhões de dólares para receber em relação a este pacote”.

Segundo o Ministério Público Federal, ficou acertado na reunião que o lobista iria transferir U$ 5 milhões a Cunha e o mesmo valor a Baiano. O dinheiro passaria por contas no exterior e repatriado por operações de empresas do doleiro Alberto Youssef.

Depois, Júlio Camargo perguntou ao deputado sobre o andamento dos requerimentos protocolados pela então deputada Solange Almeida (PMDB-RJ) – aliada de Eduardo Cunha – para fustigar o lobista e as empresas que ele representava. O Ministério Público Federal atribui a Cunha a autoria intelectual dos requerimentos. Cunha teria dito que não haveria mais com o que se preocupar. Os requerimentos foram arquivados.

Os pagamentos foram feitos entre os meses de outubro de 2011 e 2012. Camargo relatou ainda que a pressão cessou após o pagamento da última parcela da propina. O lobista relatou que encontrou o parlamentar em um momento posterior e que “não só foi cumprimentado por ele de maneira efusiva como se colocou à disposição para qualquer outro assunto”.

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