‘Eu pedia recursos para a empresa acreditando que ela iria tratar da melhor maneira possível’

Ex-ministro de Lula, delatado pela Odebrecht, afirmou ao juiz Sérgio Moro que orientava tesoureiro a levar os recibos e que 'nunca operou contribuições' de caixa 2

Julia Affonso e Fausto Macedo

20 de abril de 2017 | 17h29

Lula, Antonio Palocci e João Santana. FOTOS: ANDRE DUSEK/ESTADÃO, RODRIGO FELIX LEAL/FUTURA PRESS e RODOLFO BUHRER/REUTERS

Lula, Palocci e João Santana. FOTOS: ANDRE DUSEK/ESTADÃO, RODRIGO FELIX LEAL/FUTURA PRESS e RODOLFO BUHRER/REUTERS

O ex-ministro Antonio Palocci afirmou ao juiz federal Sérgio Moro, dos processos da Operação Lava Jato, que pedia recursos para as empresas “acreditando que elas iriam tratar da melhor maneira possível” e que nunca foi operador financeiro do PT.

“O senhor tratou de contribuição não contabilizadas (para as campanha presidenciais do PT)?”, questionou Moro, que ouviu pela primeira vez Palocci, como réu da Lava Jato.

“Não, eu nunca tratei doutor, eu nunca operei contribuições, até porque não era minha função, se fosse, eu teria feito”, respondeu Palocci, acusado, nesse processo, de ter acertado propina de US$ 10 milhões da Odebrecht para o marqueteiro do PT João Santana – também réu e mais novo delator do escândalo Petrobrás.

“Sempre dizia para o empresário: ‘olha atenda o tesoureiro da campanha, atenda… veja se você pode ajudá-lo'”, completou o ex-ministro.

“Evidentemente eu pedia recursos para as empresas acreditando que ela iria tratar da melhor maneiro possível. Eu falava inclusive, ‘olha, vou falar para o tesoureiro levar os recibos, os bônus para você contribuir’, sempre falei nesses termos.”

O delator Marcelo Odebrecht – preso desde junho de 2015, pela Lava Jato, em Curitiba – e seu pai, Emílio Odebrecht, confessaram em acordo da delação que Palocci foi o principal interlocutor dos acertos de pagamentos ao PT e suas campanhas presidenciais, de 2006 a 2011. Eles confessaram que a planilha da conta “Italiano” apreendida pela força-tarefa, nas buscas da empresa, era o registro contábil paralelo dos R$ 200 milhões pagos ao partido.

Função. “O senhor chegou a tratar de contribuições eleitorais com o grupo Odebrecht?”, perguntou Moro;

“Cheguei.”

“Para as campanhas presidenciais?.”

“Sim”, respondeu o ex-ministro.

“Outras campanhas?”, insistiu o magistrado.

“Não, só a presidencial.”

Marcelo Odebrecht disse em sua delação que discutia valores com Palocci de caixa 2. O ex-ministro negou ao juiz. “Não valores específicos não.”

“Acredito que a última vez que tratei esse assunto (finanças eleitorais) com o senhor Marcelo, ou com o grupo, foi na passagem de 2009 para  2010. Estava começando os preparativos para campanha da presidente Dilma. Eu estive com ele, por outro motivo, e ele foi ativo, assim, na questão, disse: ‘olha pode dizer para a presidente que vamos ter uma participação importante na campanha dela’. Me deu uma dimensão…, eu tenho medo de errar aqui, mas ele me deu uma dimensão. ‘Diga isso a ela’.”

Palocci explicou que a Odebrecht tinha uma preocupação em relação a ex-presidente Dilma, “porque ela tinha tido umas brigas um pouco ácidas com a Odebrecht, em períodos anteriores”.

“Então, ele fez questão: ‘por favor, diga a ela’.”

Na primeira audiência como réu da Lava Jato, Palocci foi questionado por seu algoz, Moro, especificamente sobre a “planilha posição programa especial Italiano”.

“Segundo diz o senhor Marcelo Odebrecht, era uma referência ao senhor, a pagamentos ao Partido dos Trabalhadores, que o senhor administrava. Nada disse aqui corresponde à realidade?.”

“Não, não vou dizer que nada corresponde à realidade”, respondeu Palocci, que seria o “Italiano”.

“Vou dizer que eu jamais orientei pagamentos ou organizei pagamentos ou operei caixa 2 junto ao Marcelo. Jamais isso aconteceu. E digo mais, digo mais. Do que eu sabia, porque não lidava com isso, do que eu sabia dos recursos de campanha e de dívidas de campanha com marqueteiros, me parece que esses valores são bem diferentes do que eu tinha de informações.”

Marqueteiro. O ex-ministro também foi questionado por Moro se ele teria conversado sobre assuntos financeiros da campanha com o marqueteiro João Santana e sua mulher e sócia, Mônica Moura.

“A parte financeira, ele comentou uma vez ou outra comigo, mas não era assunto da minha pauta. Ele reclamava bastante, não está pagando, estou com fornecedor, preciso receber.”

Palocci disse que acionava o tesoureiro da campanha José Di Filipi para resolver o problema.

 

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