‘Eu disse que seria batom na sua cueca’, diz delator para Witzel em depoimento

‘Eu disse que seria batom na sua cueca’, diz delator para Witzel em depoimento

Edmar Santos foi interrogado pelo governador afastado, que passa por impeachment

Caio Sartori/RIO

07 de abril de 2021 | 16h18

*Atualizada às 17h12 de 09/04 com a manifestação da defesa de Mário Peixoto

O ex-secretário de Saúde do Rio, Edmar Santos, disse nesta quarta-feira, 7, que avisou ao governador afastado Wilson Witzel dos riscos que ele corria ao requalificar a organização social Unir Saúde, peça-chave do processo de impeachment. O mandatário e os participantes do Tribunal Misto interrogam no início desta tarde o delator Edmar, que está no plenário como testemunha.

“O senhor me pediu para requalificar a Unir, e eu disse ao senhor que seria equivocado, que seria batom na sua cueca”, disse ele.

A Unir havia sido desqualificada para firmar contratos com o governo depois de análises técnicas do Estado. Segundo Edmar, Witzel lhe avisou que a requalificaria “de canetada”. O empresário Mário Peixoto, envolvido nos esquemas de corrupção, seria o sócio oculto da Unir, de acordo com as investigações.

O governador afastado do Rio Wilson Witzel durante sessão do Tribunal Especial Misto, que avalia o seu impeachment. Foto: Wilton Júnior / Estadão

Personagem central para as denúncias contra Witzel, Edmar chegou a ser preso, mas firmou acordo de delação em que acusou o governador de participar dos esquemas. O mandatário responde por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa no âmbito criminal, além do impeachment.

O processo de impeachment estava paralisado desde o final do ano passado por imbróglio judicial e foi retomado hoje. Edmar conseguiu no STJ a autorização para que o depoimento como testemunha fosse sigiloso. Não foi permitido filmar, gravar ou anotar por meios eletrônicos o interrogatório. Além disso, o ex-secretário entrou no tribunal protegido por um pano de cor avermelhada, cercado por seguranças.

Witzel queria imitar Doria com hospitais de campanha, aponta delator

Edmar também falou sobre a outra organização social citada na denúncia, a Iabas, contratada para administrar os hospitais de campanha do Estado durante a pandemia. Segundo o ex-secretário, a opção por construir novas unidades – em vez de priorizar leitos em hospitais já existentes – foi uma decisão política do governador.

“A ideia de hospital de campanha foi sua e da primeira-dama, surgiu num almoço, porque o (João) Doria estava fazendo em São Paulo e o senhor também queria politicamente ter um”, alegou.

COM A PALAVRA, A DEFESA DE MÁRIO PEIXOTO

A tese do MPF para supor o envolvimento de Mário Peixoto neste episódio se baseia na ilação de que ele seria o dono da Unir Saúde, o que é frontalmente desmentido com os fatos apurados na Operação Filhote de Cuco, do Gaecc do MPRJ.

Nesta operação,  as OSs Unir e IDR foram investigadas por quatro anos e a investigação concluiu quem eram os sócios ocultos e ostensivos dessas empresas, quem eram os operadores , as empresas envolvidas e beneficiadas e como ocorriam os desvios.

Apurou o envolvimento de 18 pessoas e 25 empresas, concluiu com a prisão preventiva de cinco pessoas e não houve qualquer denúncia do envolvimento de Mário Peixoto.

Mário Peixoto,  no âmbito da Operação Favorito, teve seus sigilos quebrados por 13 anos e foi alvo de escutas autorizadas por oito meses e nada se comprovou do suposto vínculo com a Unir.

Em relação à delação de Edmar Santos carecem de credibilidade, pois está repleta de contradições.

Jamais ele poderia afirmar que Mário Peixoto pediu para requalificar a Unir, pois na data do referido encontro citado por ele, a Unir não estava desqualificada.

Diz que não sabe quase nada de Mário Peixoto,  mas afirma que era muito forte e influente e que tinha muitos negócios, mas não cita nenhum.

Ao contrário deste cenário, Edmar afirma que foi Nelson Bornier quem pediu, pressionou e ameaçou com dossiê, caso não requalificasse a Unir e que obrigou o grupo criminoso a mudar de endereço.

Cabe ressaltar que não existe qualquer relação de Mário Peixoto com Nelson Bornier.

Fica bem claro que não existia interesse de Mário Peixoto pela requalificação da Unir, pois em nada seria beneficiado. As pessoas que tinham interesse estão citadas na Operação Filhote de Cuco.

Mário Peixoto não responde a nenhum processo por desvios na Saúde no Rio de Janeiro, na gestão Witzel. A ação penal 977, que corre no STJ,  que trata de desvios da Saúde no governo Witzel, não inclui Mário Peixoto.
Os próprios delatores Edmar Santos e Édson Torres, assumidamente envolvidos nas fraudes de desvios na Saúde, já afirmaram em depoimentos que Mário Peixoto nada tem a ver com esses desvios.

A ação que Mário Peixoto responde no STJ trata de pagamentos de honorários a Helena Witzel e a acusação da ação que responde da Operação Favorito, na 7 vara federal, é de lavagem de dinheiro relativa aos anos de 2012, 2013 e 2014. O próprio MPF,  portanto, não o acusa de fraudes a licitações ou superfaturamento. 

Mário Peixoto não tem absolutamente nada a ver com os desvios na Saúde no governo do Estado do Rio de Janeiro. O próprio MPF, a PGR e o MPERJ ( Operação Filhote de Cuco) já identificaram todos os envolvidos em tais desvios e os mesmos não acusam Mário Peixoto desses crimes.

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