Eu amei ‘um’ dependente químico, mais que a mim mesma

Eu amei ‘um’ dependente químico, mais que a mim mesma

Fernanda Alves*

31 Agosto 2017 | 04h30

Fernanda Alves. FOTO: DIVULGAÇÃO

A gente pensa que a maturidade nos faz ser uma pessoa ‘melhor’, e de fato faz. No meu caso, foi totalmente fora do que eu imaginava ou sonhava pra minha vida.

Sou alvo de me aproximar de dependentes químicos.

Meu primeiro namorado viciado eu tinha 19 anos. Eu nem sabia ainda de fato o que era essa tal coisa chamada ‘drogas’, fui me familiarizando com o tema, experimentei maconha, mas fiquei ali, só.

Coisa sem graça essa erva, me sentia mole, cheia de fome, dormia fora de hora.

Fumava um cigarrinho de cravo aqui, outro ali, mas apenas para acompanhar com a caipirinha, todo o kit que faz parte de uma adolescente normal, sim, inocente você pai ler isso e achar que um dia seu filho não terá tal curiosidade com álcool, cigarro e maconha, primeiramente.

O pó rolava solto em todas as festas a que eu ía, mas esse tipo de droga eu tinha um receio, era mais forte do que eu tentar chegar até ela, e hoje, com 42 anos de idade, eu não tenho a menor ideia da ‘brisa’ que ela causa, nunca experimentei.

Eu era uma menina doce, mas me transformava em um diabo quando via meu namorado usar aquilo.

Não sabia lidar com a situação, achava coisa das trevas, de gente do mal.

Toda vez que íamos para a praia, lugar onde ele tinha uma casa no litoral norte, eu ia à caça, antes mesmo de tirar as malas do carro. E eu sempre achava, os esconderijos do saquinho de cocaína eram os mais bizarros. Dentro do pneu estepe do carro, embaixo do tapete, atrás do extintor de incêndio, e por aí vai.

Essa foi a primeira experiência que tive com um namorado que gostava da droga.

Ele era mais velho que eu, uma pessoa que produzia, apesar de tudo, trabalhava com os negócios da família.

Mas chegava fim de semana, era terrível.

Até que resolvi parar de pedir para ele não usar, pois ele me enganava e a cara dele se transformava com o uso, exalava um suor forte, não tinha como não saber que havia usado.

Comecei a jogar no vaso sanitário tudo o que eu encontrava. Ele comprava grande quantidade, mas não pra ele, e sim para os amigos que iam na nossa casa de praia, ‘amigos’ nessas horas servem pra isso, fazer companhia.

Um dia brigamos feio, ele se desesperou porque eu havia jogado fora sua cocaína. Me bateu, apontou uma arma na minha cara, eu ria, aquilo não me intimidava, eu sabia que ele não seria capaz, me arrisquei muito, me dei conta e saí correndo pelas ruas de madrugada atrás de ajuda.

Até que no meio do caminho me deparei com um amigo fotógrafo, eu era modelo nessa época.

Me acalmei, voltei pra casa, ele chorando me pediu perdão e jurou nunca mais fazer aquilo. É o que todos dizem, se arrependem, e eu sempre entendia, pois eu o amava.

Mas esse não foi o único namorado que me relacionei dependente químico, passaram mais quatro no decorrer na minha vida.

Destino? Não sei.

Algo por eles eu sei que teria que cumprir nessa vida e cumpro. O amor que sinto vai além de mim mesma, é uma mistura de mãe, com amante, com perigo, com desafio, não sei explicar.

Os cuidados que tenho com os viciados me dão prazer, eu sinto necessidade de ter isso pra mim, mas por eles, porque sei que são abandonados, largados, foi aí que descobri esse meu lado altruísta.

Não, não é falta de amor próprio. É a necessidade de alimentar a minha alma na intenção de ajudar o próximo, apenas.

Hoje sigo com vários projetos em benefício deles. Pesquiso, faço laboratórios.

Entrar no terceiro setor é uma missão. Defender os dependentes, uma conquista, informar a sociedade, um prazer.

*Jornalista/apresentadora, embaixadora ‘S.O.S Dependentes Químicos’

Mais conteúdo sobre:

Artigo