‘Eu achava que ia morrer’, diz Fernanda, espancada pelo ex

‘Eu achava que ia morrer’, diz Fernanda, espancada pelo ex

'Vou estourar a sua cabeça', gritava agressor enquanto golpeava a vítima, na madrugada de domingo, 23, em Barbalha, região do Cariri, interior do Ceará; Leia na entrevista de Fernanda Coelho, de 27 anos, os detalhes de uma rotina de violências

Jayanne Rodrigues

28 de janeiro de 2022 | 16h41

Fernanda Coelho, 27, foi asfixiada, ameaçada de morte, golpeada na cabeça, no rosto e no corpo pelo ex-namorado Junior Barreto, de 26 anos. Ela conseguiu sobreviver, mas como diz em entrevista ao Estadão “eu achava que ia morrer”. A violência aconteceu na madrugada de domingo, 23, em Barbalha, cidade localizada no interior do Ceará, a 400 quilômetros de Fortaleza. A agressão começou no apartamento do acusado, após uma crise de ciúmes dele. Primeiro, ele quebrou o celular de Fernanda, depois a empurrou repetidas vezes e começou a espancar a vítima. “Ele começou a me chutar, me bater. Quando eu tentava me levantar, ele me dava murro e me puxava pelo cabelo”, relata.

O agressor chutou, empurrou e esmurrou a vítima por repetidas vezes. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

“Eu vou estourar sua cabeça”, gritava o acusado. Tudo foi presenciado por um funcionário de Junior, que segundo Fernanda, só tentou impedir a agressão no instante em que o sujeito esfolava ela. “Aí ele tirou ele [Junior] de cima de mim”. Desesperada, ela pediu para ir embora. Como resposta, ouviu: “Ele disse que eu não ia para minha casa, ia primeiro na casa da irmã dele porque eu tinha que dizer para ela que eu era uma puta”. 

Fernanda não recebeu proteção. “Quando a gente chegou lá na irmã dele, levei um murro dele que foi onde cortou minha boca e sangrou”, disse. Somente horas depois o cunhado do acusado deixou ela em casa.

Constrangida e com medo de represálias, Fernanda só conseguiu registrar boletim de ocorrência com o apoio de algumas amigas. Mas antes disso, ela recebeu uma ligação da irmã do agressor. “Ela me pediu para não fazer boletim e para não contar para meus pais para não criar um problema entre as famílias.” Apesar da intimidação, ela não voltou atrás.

Quando estava na delegacia, ainda foi coagida por pessoas próximas a Junior a desistir de fazer a denúncia. “Eles me disseram: ‘Você vai fazer isso mesmo? Tem certeza?’. Após sucessivas ameaças, ela viajou para a cidade natal onde os pais vivem. Foi na terça-feira, 25, que tomou a decisão de compartilhar nas redes sociais os detalhes da agressão para encorajar outras mulheres e pressionar agilidade no caso. “O que me atormenta ainda mais é que eu recebo todo dia, toda hora, mulheres dizendo que estão sendo ameaçadas. E eu entendo porque nenhuma dessas denuncia”, diz angustiada. 

Com hematomas e debilitada, Fernanda descreveu através de vídeos no Instagram pessoal o que viveu no relacionamento abusivo ao longo dos oito meses. “As marcas começaram psicológicas, hoje elas me aterrorizam”, disse ela, “eu fui ameaçada de morte caso fizesse o boletim de ocorrência, até hoje o agressor não foi preso. Não foi solicitada a prisão preventiva dele. Por que? Porque a justiça espera chegar a matar a vítima para fazer alguma coisa. E não adianta mais.” 

O acusado Junior Barreto prestou depoimento somente nesta sexta-feira, 28, após cinco dias do boletim de ocorrência registrado pela vítima. “Ele já deveria ter sido preso em razão da conveniência da instrução criminal”, afirma a advogada da vítima, Bruna Alencar. A denúncia também será oferecida ao Ministério Público. “É um processo criminal por lesão. A gente vai lutar pela condenação”, ressalta a advogada. 

O acusado Júnior Barreto, prestou depoimento e segue em liberdade. FOTO: DIVULGAÇÃO/ INSTAGRAM

Mesmo com medida protetiva, Fernanda se sente insegura. “Eu tô com medo. Mas o meu medo maior é ele tentar fazer alguma coisa com a minha família”, desabafa. O caso está sendo investigado pelo delegado titular da Delegacia Municipal de Barbalha, Juliano Marcula. 

COM A PALAVRA, POLÍCIA CIVIL DO CEARÁ

“A Polícia Civil do Estado do Ceará (PC-CE) informa que a Delegacia Municipal de Barbalha instaurou um inquérito policial para investigar um crime de lesão corporal dolosa no âmbito de violência doméstica e familiar ocorrido contra uma mulher de 26 anos, no último domingo (23), no município de Barbalha – Área Integrada de Segurança 19 (AIS 19) do Estado. Diligências e oitivas estão em andamento visando a elucidação dos fatos. A vítima solicitou medidas protetivas de urgência. Mais detalhes serão repassados em momento oportuno para não comprometer os trabalhos policiais.”

COM A PALAVRA, DEFESA DO ACUSADO JUNIOR BARRETO

Até o momento da publicação deste texto, a reportagem não conseguiu contato com o advogado do agressor. O espaço está aberto para manifestação. 

 

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