Ética versus Política

Ética versus Política

José Renato Nalini*

16 de fevereiro de 2022 | 12h15

José Renato Nalini. FOTO: DANIELA RAMIRO/ESTADÃO

É muito antiga a afirmação de que não existe ética na política. Se há um setor de onde a ética – ciência do comportamento moral do homem em sociedade – fugiu, esse espaço é o da política partidária.

Em célebre conferência, Max Weber indaga: “Como se coloca o problema das verdadeiras relações entre a ética e a política? Será certo, como já se afirmou, que não há qualquer relação entre essas duas esferas? Ou seria mais acertado afirmar, pelo contrário, que a mesma ética é válida para a ação política e para qualquer outro gênero de ação?”.

Talvez a experiência possa encaminhar a resposta para a primeira versão. Muito raro detectar-se qualquer resquício de ética na vida política partidária brasileira. Mas existiria uma ética suscetível de se impor, quanto ao seu conteúdo, com obrigações idênticas e aplicáveis às relações sexuais, comerciais, profissionais, privadas e públicas?

À primeira vista, isso seria impossível, ao menos em relação ao exercício da atividade política. Pois a política se ampara num instrumento singular: a força, sempre acompanhada pela violência. Os manipuladores de poder são profissionais ou diletantes. Valem-se, em regra, de uma deturpação da ética. Adjetivam o seu comportamento com qualificativos que disfarçam os reais interesses em jogo. Na verdade, o jogo da política é desprovido de regras, muito menos de regras éticas. É um “vale-tudo” em que a conquista e a conservação do poder legitimam o inaudito, o absurdo e o intolerável.

Max Weber invoca a ética do “Sermão da Montanha”. Ética absoluta do Evangelho, onde não cabe a leveza. É uma ética do “tudo ou nada”. Tal aquela do “ofereça a outra face”. Para ser levada a sério, é preciso ser um santo. Alguém já detectou um santo fazendo política de partidos?

A ética absoluta reclama a verdade. O político tem o hábito de tergiversar e de obscurecer a verdade. Por isso é que Weber formula a sua concepção de ética, depois disseminada por todo o planeta. “Toda a atividade orientada segundo a ética pode ser subordinada a duas máximas inteiramente diversas e irredutivelmente opostas. Pode orientar-se segundo a ética da responsabilidade ou segundo a ética da convicção”.

Esclarece que isso não quer dizer que a ética da responsabilidade dispense a convicção, nem que a ética da convicção despreze a responsabilidade. Na ética da convicção, o raciocínio é o do cristão: ele cumpre seu dever e, quanto aos resultados da ação, confia em Deus. Já o cultor da ética da responsabilidade pensa: “Devemos responder pelas previsíveis consequências de nossos atos”.

Quem atua pela ética da convicção, diante de resultados desagradáveis, atribuirá a responsabilidade ao mundo, à tolice dos homens ou à vontade de Deus. Quem age pela ética da responsabilidade, sabendo que não pode pressupor a bondade natural e a perfeição do homem, concluirá que as consequências são imputáveis à sua própria ação.

As coisas não são simples assim. Na política, é frequente a necessidade de se recorrer a meios desonestos, ou pelo menos perigosos, a prever a possibilidade de consequências desagradáveis. E não há manual que esclareça qual o momento e em que medida um fim moralmente bom justifica meios e consequências moralmente perigosas.

Essa pergunta não se faz a quem elegeu a ética da convicção. Esta é frontalmente contrária a qualquer escolha moralmente discutível. Porque o partidário da ética da convicção não pode suportar a irracionalidade ética do mundo. Weber lembra dos primeiros cristãos, que “sabiam perfeitamente que o mundo estava dominado por demônios e que o indivíduo que se comprometesse com a política, isto é, com os instrumentos do poder e da violência estava concluindo um pacto com potências diabólicas”.

Entretanto, foi a convicção que justificou as Guerras Santas, as Cruzadas, a Inquisição. O uso da violência é legítimo, quando a finalidade é moralmente superior, a versão abusada de “os fins justificam os meios”.

Quem entra na política e faz o pacto com Lúcifer, tem de ao menos ter consciência dos paradoxos éticos e da responsabilidade quanto àquilo em que ele próprio poderá transformar-se sob pressão desses paradoxos.

Assim como em nossos dias, os tempos de Max Weber eram ameaçadores: “não nos espera a floração do estio, mas, antes, uma noite polar, glacial, sombria e rude!”.

Qual é, dentre as duas éticas, aquela que responde às nossas atuais e futuras necessidades?

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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