Ética: existe isso?

Ética: existe isso?

José Renato Nalini*

18 de julho de 2020 | 14h48

José Renato Nalini. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Acredite-se, por hipótese, que o ser humano tem por vocação a perfectibilidade. Sua frágil e efêmera aventura terrena tem um único sentido: a cada dia, tornar-se melhor. Para isso, ele deve se respeitar. O amor próprio é algo ínsito à humanidade. Fernando Savater, em sua “Ética como amor próprio”, salienta que “o anseio de excelência e perfeição, ponto culminante da arte de viver ética, é o produto mais apurado do amor-próprio adequadamente considerado. Quem não deseja ser nem excelente nem perfeito, quem crê que não merece tanto ou não se atreve a propor-se tanto, é que evidentemente, não ama o suficiente a si mesmo: ou tem uma ideia da excelência e da perfeição puramente alheia, pervertida, escravizadora, incompatível com as urgências inadiáveis do seu eu”.

Amor próprio é uma coisa. Narcisismo à enésima potência é bem diferente. Contudo, essa patologia está em nossa rotina e em lugares onde não deveria estar. Um fenômeno que deixa estupefatos os derradeiros espíritos sensíveis da espécie, é o despudor com que se transita num pântano moral, a tangenciar a ilicitude, em praticamente todas as esferas de atividade contemporânea. Espantoso que nos antigos nichos éticos, fortalezas inexpugnáveis dos mais cultuados valores, a preocupação ética tenha sido eliminada do horizonte dos conchavos. A desenfreada busca por atender interesses próprios, mesquinhos e imediatistas, é o que tange a atuação. Longe daquela nobre pretensão a obter uma falaciosa imortalidade, a ser conquistada mediante a prática de boas ações, que façam permanecer a memória de seu autor, até bastante depois de sua partida, o foco é diverso. Pretende-se um retorno manifesto, palpável e sequer se disfarça a sede com que se persegue o alvo.

Tem-se a impressão de que não se cogita mais da preservação da imagem. O afã de atingir seus desideratos a edifica à luz de práticas inacreditáveis e que fariam ruborizar a imagem de pedra que simboliza Diké, a deusa da Justiça. Os que amam, antes de qualquer coisa, a si mesmos e aos seus, já foram censurados por Aristóteles, quando assinalou: “Parece que o homem vil faz tudo por amor a si mesmo, e tanto mais quanto pior é – e assim é recriminado por não fazer nada a não ser o que lhe concerne – , ao passo que o homem bom pauta sua ação pelo que é nobre, e tanto mais quanto melhor é, e por causa de seu amigo, deixando de lado seu próprio bem”.

Participar de honrarias, riquezas e prazeres em maior medida do que lhe cabe é o manifesto apetite que impulsiona o comum das mentes limitadas. O amante de si mesmo segue suas paixões malévolas e não se preocupa com o próximo. Entretanto, uma vida sem pensar no outro é uma vida inútil. Na verdade, uma vida solitária, pobre, desagradável, brutal e curta, como definiu Thomas Hobbes.

O mínimo de observância ética impõe adotar postura consequente em relação aos deveres para com os semelhantes. Principalmente quando se consegue um posto relevante, com responsabilidade acrescida. A quem mais é dado, mais será exigido. Lei natural, antes de provir de comandos morais.

Rousseau já abordara, no Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, a diferença entre duas paixões: o amor a si mesmo e o amor-próprio. Recrimina o sentimento relativo, fictício e nascido na sociedade, que leva cada indivíduo a dar ais importância a si mesmo do que a qualquer outro, que inspira aos homens todos os males que estes se fazem mutuamente.

Esse instinto de rapina está em todas as épocas e persiste no século 21, a despeito das conquistas científicas e tecnológicas da Quarta Revolução Industrial. Os gênios maléficos se identificam e se ajudam. Há uma lei sociológica, a dos pássaros de igual plumagem que se agregam e conseguem, num conciliábulo, atingir com maior facilidade os seus objetivos.

Essa característica da espécie que se autodenomina racional e que se diz criada à imagem e semelhança de Deus, esteve permanentemente na História. Assim não fora e Alexis de Tocqueville não teria escrito: “Cada pessoa, mergulhada em si mesma, comporta-se como se fora estranha ao destino de todas as demais. Seus filhos e seus amigos constituem para ela a totalidade da espécie humana. Em suas transações com seus concidadãos, pode misturar-se a eles, sem no entanto vê-los; toca-os, mas não os sente; existe apenas em si mesma e para si mesma. E, se nessas condições, um certo sentido de família ainda permanecer em sua mente,
já não lhe resta sentido de sociedade”.

Não é sem razão que a contemporaneidade é comparada à decadência do Império Romano. É como Richard Sennett inicia seu livro “O declínio do homem público” – nenhuma coincidência com o Brasil atual – “Assim como a podridão moral enfraqueceu o poder de Roma para governar o Ocidente, diz-se que enfraqueceu o poder do Ocidente para governar o globo”.

Desequilibrou-se a vida pública em comparação com a vida privada e, no Brasil de nossos dias, isso implicou no sepultamento da ética, que já vinha há muito em estágio terminal.

*José Renato Nalini é Mestre e Doutor em Direito Constitucional pela USP, docente da Pós-graduação da UNINOVE e autor de “Ética Geral e Profissional”, 14ª ed., RT-Thomson Reuters.

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