Estratégia e inovação em meio a tantas transformações

Estratégia e inovação em meio a tantas transformações

Paulo Silvestre de Oliveira Júnior*

09 de outubro de 2020 | 12h12

Paulo Silvestre de Oliveira Júnior. FOTO: DIVULGAÇÃO

Escritórios de advocacia do mundo todo estão sendo desafiados a evoluir e se transformar diante de rupturas que colocam em risco sua sobrevivência. Muitos dos conceitos e premissas sobre os quais foram constituídos e conduzidos já não se enquadram à realidade. O ano de 2020 certamente ficará marcado não só pela pandemia e suas consequências, mas também pelo potencial empregado pelas organizações para adaptar seus negócios a uma nova realidade em pouquíssimo tempo.

Os resultados foram surpreendentes: muitos afirmam ter percebido uma melhora significativa na interação entre os departamentos e clientes, além da continuidade na prestação dos serviços jurídicos com a mesma excelência – em alguns casos, ficaram ainda mais eficientes. Com isso, muitos paradigmas foram quebrados, ficou evidente que o home office é plenamente possível e que a gestão por resultados garante não apenas entregas dentro prazo, mas, da mesma forma, estabelece uma relação de confiança. 

Talvez levasse anos para evoluir o mesmo que evoluíram em meses. Uma pesquisa global, realizada com executivos de diversos setores, apontou que 46% tiveram uma aceleração da transformação do seu negócio de 5 a 14 anos. A palavra “resiliência” define 2020, tanto pela capacidade dos negócios e das pessoas de se adaptarem diante da pandemia quanto por toda a transformação, aprendizado e colaboração para, juntos, transpor essa fase.

Sobre inovar

Desenvolver estratégias para inovar ou inovar estrategicamente nunca foi tão importante. Hoje os profissionais já não veem mais sentido em executar tarefas que poderiam ser realizadas por ferramentas tecnológicas de maneira mais eficaz. Isso certamente será agravado, quando a próxima geração de advogados iniciar a carreira, já que seus profissionais terão nascido e crescido cercados de muita tecnologia. Embora tenham muito em comum com as gerações anteriores, os jovens advogados têm algumas prioridades diferentes.

Sobretudo, para que os serviços possam ser executados de acordo com os anseios dos clientes, é fundamental o desenvolvimento de um planejamento estratégico, orientado à inovação, em que seu valor esteja alinhado com as expectativas dos clientes. Os últimos meses nos mostraram o quanto os escritórios inovaram em vários aspectos, seja pelo fato de promover uma rotina de trabalho descentralizada, seja pela adoção de ferramentas tecnológicas no seu cotidiano, por exemplo: soluções de workflow que automatizam rotinas e trazem maior eficiência, padronização e segurança para a operação.

Em alguns casos, a tecnologia faz com que o uso de papel ou e-mails seja dispensado. As ferramentas de colaboração e videoconferência trouxeram uma nova dinâmica de trabalho, não só para a advocacia, como também para o Judiciário, que tem realizado audiências por vídeo.

O fato é que toda essa transformação proporcionou novas e excelentes experiências. Com certeza, a demanda de inovação vai aumentar ainda mais e, com isso, as organizações precisarão desenvolver estratégias para garantir a consistência de suas ações a longo prazo. Por isso, é necessário compreender e desenvolver três aspectos importantes:

  • Mercado.
  • Competências. 
  • Cultura.

Em um mercado concorrido, no qual as novas tecnologias habilitam novos modelos de negócios, é importante agir de maneira estratégica. Desenvolver a sensibilidade de compreender a volatilidade do mercado, para antecipar suas necessidades e prestar um serviço cada vez mais alinhado com as expectativas dos clientes, é extremamente importante. Isso porque os primeiros sinais de mudança de comportamento do mercado raramente acontecem entre os clientes. Mas, sim, entre aqueles que ainda não são e que, possivelmente, poderão levar clientes para a concorrência.

Competências e habilidades apoiarão o desenvolvimento da organização e vão fazer com que cumpra a sua missão. O cenário atual exige novas competências além daquelas essenciais, como conhecimento técnico de sua área de atuação. Estar aberto ao novo, trabalhar de maneira colaborativa, desenvolver uma visão holística e multidisciplinar são mais do que essenciais.

O sucesso da inovação depende de uma cultura aberta à mudança e do quão alinhadas as pessoas estão com a missão da empresa em que trabalham. É importante questionar o status quo e, se necessário, redefinir a estratégia, a missão, a cultura e os processos do escritório à nova realidade. A companhia precisa estar alerta ao desenvolvimento da capacidade de se adaptar rapidamente.

Em um mercado carente de inovação, que já vinha sofrendo pressões para se transformar, há muito menos tempo para mudanças, em virtude da covid-19. É fundamental ter a capacidade de explorar as oportunidades que surgem quando o mercado, as tecnologias e as competências essenciais mudam.

A inovação vai muito além da aplicação da tecnologia. Inovar é mudança de comportamento, estratégia e modelo de negócios. É olhar mais adiante do óbvio e, acima de tudo, gerar resultados. Inovação é sobre pessoas! Em tempo de rupturas, ter a disposição para mudar, sempre que necessário, se tornou uma questão de sobrevivência.

Essa mudança, na maioria das vezes, acontece de fora para dentro, em outros mercados, alguns dos quais desconhecemos. Por isso, é importante estar alerta e pronto para a transformação, que, por sua vez, demanda estratégia. Embora muitos saibam a sua definição, nem todos sabem do que exatamente a estratégia trata. Estratégia é o processo que transforma aspirações em capacidades, levando em consideração o tempo, o contexto e a escala, sempre observando seus princípios e valores.

Se toda essa transformação já era urgente antes da covid-19, agora foi potencializada em cem, mil vezes, em um cenário onde todos cooperam e competem entre si, em todos os mercados. Já não é possível manter o modus operandi no qual as organizações foram constituídas. Estratégia e inovação devem estar sempre conectadas, para garantir o direcionamento e a consistência das ações com um único propósito: gerar valor.

O movimento de transformação está apenas começando, e a única maneira de reagir a ele é com novos modelos de estratégia. Envolver e conectar-se com o cliente é fundamental.

*Paulo Silvestre de Oliveira Júnior é consultor de Inovação e Desenvolvimento no escritório Machado Meyer Advogados

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