“Estou aqui pra qualquer coisa, conte comigo”, disse Campos Machado a reitor grampeado nas fraudes do Fies

“Estou aqui pra qualquer coisa, conte comigo”, disse Campos Machado a reitor grampeado nas fraudes do Fies

Deputado petebista da Assembleia Legislativa de São Paulo, que não é alvo de investigação, ligou para prestar solidariedade ao empresário José Fernando Pinto da Costa, dono da Universidade Brasil, três dias depois da Operação Asclépio, deflagrada em abril

Luiz Vassallo

12 de setembro de 2019 | 11h00

Campos Machado Foto: Werther Santana / Estadão

‘Só estou ligando para dizer que estou aqui pra qualquer coisa, conte comigo’, disse o deputado estadual Campos Machado (PTB) ao reitor da Universidade do Brasil, José Fernando Pinto da Costa, apontado como ‘líder da organização criminosa e principal beneficiário’ de suposto esquema que envolveu supostas fraudes de R$ 500 milhões no Fies e do ProUni.

O parlamentar, que não é alvo da investigação, fez a chamada três dias depois da deflagração da Operação Asclépio, deflagrada em abril e que prendeu pessoas ligadas a José Fernando, em uma investigação sobre fraudes no vestibular de 2017 para o curso de medicina da Fundação Educacional do Município de Assis (Fema).

Machado explica que ‘José Fernando Costa é membro do Conselho consultivo e político do PTB, um órgão que conta com cerca de 50 integrantes, fundado há 5 anos’. “Nessas condições, como líder do partido, e, por considerar o Dr. Fernando um amigo, segui a minha consciência e hipotequei solidariedade a ele, mesmo desconhecendo qual era o problema efetivo que a universidade passava”.

Documento

Em 2016, o deputado requereu um ‘voto de congratulações’ à Universidade Brasil e ao seu reitor, que também é dono da Uniesp. “Ante o exposto, e pela magnitude do empreendimento, em prol da educação do País, é que formulamos o presente requerimento de congratulações”, diz o longo requerimento, que narra a história de José Fernando.

A Asclépio mandou para a cadeia Adeli de Oliveira, conhecido como ‘Picadinho’, apontado pelos investigadores como um ‘capanga’ de José Fernando.

Meses após a Operação Asclépio, foi a vez de o próprio dono da Universidade Brasil ser preso, desta vez, na Operação Vagatomia, que mira supostas fraudes em bolsas concedidas pela instituição, com verbas federais. José Fernando foi preso no dia 3 de setembro.

Entre os fundamentos da Justiça para prender o empresário está a suposta determinação ‘a subordinados que promovessem a destruição de provas após a prisão de comparsas na Operação Asclépio’.

Segundo a Polícia Federal, José Fernando também ‘procurou levantar informações sobre seus investigadores – procurador da República e delegado da Polícia Civil – a fim de tentar interferir nas investigações; ameaçou alunas que levaram a denúncia ao Ministério Público Federal sobre o excesso de alunos’.

“Éo líder da organização criminosa e principal beneficiário do esquema; já teve problemas no passado envolvendo a prática de crimes da mesma natureza que os ora investigados e com o mesmo modus operandi ora utilizado, mediante a captação de alunos para o programa fraudulento de financiamento de estudos denominado “UNIESP PAGA””, afirma o Ministério Público Federal.

O ‘Uniesp Paga’ motivou, em 2017, ação civil pública da Procuradoria da República em São Paulo contra José Fernando. Os alunos se inscreviam na instituição, e receberiam o Fies. Em troca, teriam de prestar serviços para ONGs e apresentar bom comportamento.

No entanto, de acordo com o MPF, o programa funcionava como uma espécie de pirâmide financeira, o que teria gerado prejuízo aos estudantes.

Já o esquema alvo da Vagatomia, segundo a PF e a Procuradoria, contava com fraudes no ingresso de alunos no curso de Medicina da instituição, na obtenção do Financiamento Estudantil do Governo Federal (Fies) e de bolsas do Programa Universidade para Todos (ProUni) e na venda irregular de vagas de transferência para os cursos de complementação do exame Revalida – para revalidação de diploma.

Ao solicitar judicialmente ordens de prisão e de busca e apreensão, a PF indicou que haveria um ‘balcão de negócio de vagas ocorrendo sem nenhum tipo de receio’.

COM A PALAVRA, CAMPOS MACHADO

Dr. José Fernando Costa é membro do Conselho consultivo e político do PTB, um órgão que conta com cerca de 50 integrantes, fundado há 5 anos.

Nessas condições, como líder do partido, e, por considerar o Dr. Fernando um amigo, segui a minha consciência e hipotequei solidariedade a ele, mesmo desconhecendo qual era o problema efetivo que a universidade passava.

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