‘Este PT gosta de viver perigosamente’, disse publicitário em carta a Dirceu

‘Este PT gosta de viver perigosamente’, disse publicitário em carta a Dirceu

Em crise com governo, Agnelo Pacheco reclamou, em carta aprendida com irmão de ex-ministro, da falta de contratos de sua agência no governo Dilma Rousseff e da suposta parceria entre petistas e 'adversários'

Ricardo Brandt, Julia Affonso, Ricardo Galhardo e Fausto Macedo

08 de novembro de 2016 | 11h40

José Dirceu. Foto: Rodolfo Buhrer/Reuters

José Dirceu, preso e condenado pela Lava Jato / Foto: Rodolfo Buhrer/Reuters

“Zé, o Gui deve ter relatado a você e o Luiz Eduardo, a situação difícil da minha agência. Neste Governo Dilma perdemos Turismo e não ganhamos nada. No Ministério da Saúde, nós, que há três anos éramos a agência que mais faturava, somos hoje nos tempos do Padilha a que menos fatura.”

O trecho acima é de uma mensagem enviada pelo publicitário Agnelo Pacheco, dono de uma das maiores agências de publicidade do Brasil com contas no governo federal, enviada para o ex-ministro José Dirceu – condenado no Mensalão e na Operação Lava Jato, em Curitiba, onde está preso desde 3 de agosto de 2015.

Uma cópia da mensagem estava guardada com Luiz Eduardo Oliveira e Silva, irmão e sócio de Dirceu na JD Assessoria e Consultoria, de titularidade do ex-chefe da Casa Civil no governo Luiz Inácio Lula da Silva.

detalhe

Dirceu e o irmão foram condenados em 18 de maio pelo juiz federal Sérgio Moro. O ex-ministro pegou pena de 23 anos e 3 meses de cadeia – reduzida depois para 21 anos. O recebimento de propinas, por ele, no esquema de corrupção na Petrobrás quando já estava condenado no mensalão, em 2012, foi considerado pelo magistrado como um dos fatos mais perturbadores até aqui da gigantesca Operação Lava Jato e seu rombo de mais de R$ 40 bilhões aos cofres públicos.

Nas duas páginas da carta, o assunto tratado é uma possível parceria para que a Agnelo Pacheco participasse da campanha eleitoral de Alexandre Padilha, que era ministro da Saúde e deixou o cargo para concorrer ao governo de São Paulo, em 2014. Nela, há menção à parceria com o publicitário João Santana, o marqueteiro do PT, que também já foi preso pela Lava Jato.

A mensagem foi recolhida pela Polícia Federal como documento de interesse da Lava Jato nas buscas feitas no endereço do irmão de Dirceu em Ribeirão Preto (SP), quando foi deflagrada a Operação Pixuleco – 17.ª fase da mega investigação de cartel e corrupção na Petrobrás.

Nela, o publicitário demonstra proximidade com Dirceu. “Sei que tudo está bem com você porque estive com sua filha, hoje, que passou na agência”, escreve ele, na abertura do texto, sem identificação de origem ou assinaturas.

detalhe 2

“Meu amigo, lamento incomodar. Lamento mesmo. Mas só temos um apoio: você.”

Agnelo relata ter procurado o ex-secretario-geral da Presidência Gilberto Carvalho. “Há um ano tentei pedir ajuda ao Gilberto Carvalho. O Gui entregou a ele uma carta.. E nem resposta recebi….”

O publicitário é investigado na 11.ª fase da Operação Acrônimo, deflagrada no dia 27 de outubro, que apura pagamento de propinas em campanhas educativas do Ministério da Saúde, Ministério das Cidades e Ministério do Turismo nos anos de 2011 e 2012. Seu filho Agnelo de Carvalho Pacheco foi um dos conduzidos coercitivamente para prestar depoimento. O caso tem como alvos centrais o empresário Benedito Oliveira, o Bené, delator apontado como “operador financeiros” do governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel (PT), em esquema de corrupção e fraude eleitoral.

Confirmação. Ouvido pela PF, Luiz Eduardo – que foi preso com Dirceu e solto dez dias depois – afirmou que o documento encontrado, sem identificação do autor ou origem, era do publicitário Agnelo Pacheco.

No documento impresso há a data de 2013 registrada. O que se segue são reclamações da falta de contratos e a presença de empresas do setor que seriam ligadas a adversários políticos.

depoimento luiz eduardo 6 de agossto

“A Propeg que é a agência da Secom do (governador de São Paulo Geraldo) Alckmin e também da Secom da PR (isto só ocorre no Brasil) é a agência adotada como a preferida do Ministro Padilha. Como é que pode?”

Propeg é outra das agências que detém contas de publicidade do governo federal e administrações do PSDB. Ela é contratada da Secretaria de Comunicação (Secom) do governo do Estado paulista, comandado há mais de 20 anos pelo PSDB.

Adversários. No teor do documento, é possível identificar sua insatisfação com a participação de empresas do setor que, segundo ele, seriam próximas do PSDB.

“A Artplan dos Medina, ligada ao Senador Dornelles, tio do Aécio Neves virou em 2013 a maior agência do Governo Federal: atendem Caixa, Embratur, Ministério do Turismo, Ministério das Cidades e Correios.”

O contrato de propaganda da Artplan com a Caixa é parte do pacote que tinha como contratada a Borghi Lowe (atual Mulen Lowe). O publicitário Ricardo Hoffmann, executivo em Brasília da Borghi foi preso pela Lava Jato acusado de ligação com o ex-vice-presidente da Câmara dos Deputados André Vargas (ex-PT, hoje sem partido/PR). Ele fez acordo de delação premiada.

“Uma agência claramente adversária tem um número de contas que ninguém tem no Governo Dilma”, reclama o publicitário ao ‘amigo Zé’.

Dornelles era senador pelo PP do Rio e foi presidente do partido de 2007 a 2013.

detalhe 3

Garreta. O publicitário sugere que o ex-secretário de Comunicação do governo Marta Suplicy (PT), em São Paulo, (2000-2003) Valdemir Flavio Pereira Garreta teria parceria com as agências que seriam “adversários”.

Garreta é próximo do presidente do PT, Rui Falcão. Faz campanhas petistas desde que deixou os cargos públicos e abriu empresas de publicidade. Fez as campanhas de Marcio Pochmann à prefeitura de Campinas e a de Sebastião Almeida à reeleição em Guarulhos, em 2012.

“E como se não bastasse, a Artplan que nunca teve escritório em São Paulo, se aliou ao Garreta, sob as bençãos de José Américo, e ganhou a Câmara dos Vereadores de São Paulo.”

Américo é o atual secretário e Comunicação do PT, foi secretário municipal de Relações Institucionais, era presidente da Casa em 2013 quando a Artplan foi contratada.

Agnelo diz que a agência supostamente ligada ao PSDB venceria uma licitação na Prefeitura de Guarulhos. “Verba de 25 milhões.”

Partidarização. “A Agnelo e a agência do Dudu são as únicas que são fieis ao PT. Mas será que vale a Pena?”, questiona ele em trecho da mensagem.

O publicitário sugere que Garreta, dono da Marka, que presta serviços em campanhas, contas de governo e concessionárias, poderia ser beneficiado em contratos da prefeitura paulista.

“Quando sair a licitação da Prefeitura (estão há quase um ano com as agências que fizeram as campanhas de Serra contra Haddad As tucanas Lua Branca e Nova SB ) certamente Garreta terá uma parte da conta através da mesma Artplan.”

“Muitas vezes me pergunto: será que o ex Presidente Lula sabe o que acontece na publicidade do Governo do PT ? O Rui Falcão não vale porque tem ligação Muito forte com o Garreta, desde os tempos da Marta.”

Desde 2004, a Agnelo Pacheco dividia a milionária conta do Ministério da Saúde com Duda Mendonça, a Propeg e a Master.

Em 2000, foi a agência que trabalhou na campanha eleitoral de Marta para a prefeitura paulista.

“Este PT gosta de viver perigosamente.”, diz Pacheco.

LEIA A ÍNTEGRA DA CARTA ENCONTRADA COM JOSÉ DIRCEU

CARTA AGNELO DIRCEU 2

CARTA AGNELO DIRCEU 1

COM A PALAVRA, O PUBLICITÁRIO AGNELO PACHECO

O publicitário Agnelo Pacheco informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que não fez nenhum pedido para ele, na carta enviada para o ex-ministro José Dirceu. Segundo ele, a carta é um desabafo em que demonstra sua desilusão com o PT.

COM A PALAVRA, RUI FALCÃO
O presidente nacional do PT, Rui Falcão, não comentou o e-mail de Agnelo Pacheco.

COM A PALAVRA, JOSÉ AMÉRICO
O ex-presidente da Câmara de São Paulo e atual secretário municipal de Relações Institucionais, José Américo, disse que a Artplan foi contratada depois de vencer uma concorrência da qual participaram outras nove agências.

“A agência Artplan foi vencedora da concorrência para o serviço de publicidade da Câmara Municipal de São Paulo, durante minha gestão como presidente, ao obter a melhor colocação no quesito técnica e preço, sem qualquer denúncia ou questionamento jurídico entre os participantes do certame ou de órgãos de fiscalização, como o Tribunal de Contas do Município. A licitação, concluída no final de 2013, teve a participação de dez agências de publicidade com expertise no mercado nacional, audiências públicas e todos os requisitos de transparência do processo licitatório”, disse o secretário, por meio de nota.

Tudo o que sabemos sobre:

operação Lava JatoOperação Acrônimo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.