Estamos preparados para uma reabertura?

Estamos preparados para uma reabertura?

Rony Jabour*

04 de agosto de 2020 | 10h00

Rony Jabour. FOTO: DIVULGAÇÃO

Enquanto nos Estados Unidos existem estados que começam a aprovar o primeiro padrão temporário de emergência do país, como a Virginia, outros estados estão se aproximando da fase final de abertura, como New Hampshire. Porém, nos estados onde a abertura já foi feita, a calamidade bate às portas novamente, como podemos ver no Arizona, Texas e na Florida, que já ultrapassa 10 mil casos por dia, depois da reabertura.

O Arizona foi um dos últimos estados a fechar, e com pressa de reanimar sua economia, foi um dos primeiros a reabrir.  Agora, passa por uma devastação ainda maior, tanto que muitos estados que estavam indo na mesma linha do Arizona, resolveram dar um passo atrás ou pausaram o processo de reabertura.

Porque ficou ainda pior? Porque com o fechamento, as empresas haviam dispensado seus funcionários e parado seus investimentos. Quando o governador anuncia a reabertura, as empresas investem em desinfecção, mão de obra qualificada/cara para a retomada e em marketing para a reabertura. Agora, temos as lojas cheias de clientes desempregados ou que estão retornando aos empregos, que estão nos shoppings somente para passear, pois o dinheiro de meses parado ainda não retornou. Além disso, vemos pessoas contaminadas, que às vezes nem sabem que estão, disseminando o vírus, e mais pessoas sendo contaminadas. Depois de todo este trabalho da indústria em reabrir, todos terão que ser dispensados novamente, as lojas fechadas, os hospitais ainda mais lotados, o numero de casos e mortes em alta, e o governo tendo que voltar atrás em suas decisões.

Quando as coisas se normalizarem, as indústrias do Arizona terão que gastar de novo a mesma fortuna que já gastaram na reabertura, causando um dano ainda maior.

Florida abriu os bares no dia 5 de junho. Depois de ver o desastre que foi a abertura, assim como aconteceu no Texas, fechou os estabelecimentos novamente cerca de 20 dias depois.

Mesmo para os EUA, um país de primeiro mundo, onde, supostamente, há uma melhor infraestrutura, o processo de reabertura está sendo difícil, quando observamos os dados desses estados mencionados. Isso nos leva a crer que não será diferente em alguns lugares no Brasil, onde mesmo diante do fechamento, acompanhamos diariamente notícias de pessoas que não respeitam as regras de isolamento social, vivem sem pensar no coletivo, não estão preocupadas com o vírus, e agem como se estivesse tudo normal.

Quando se começa a falar em reabertura, algo que deveria ser gradativo, há uma ansiedade generalizada, todos já vão para as ruas, lotam os bares, e ignoram os apelos para ficarem em casa e só sair em caso de extrema necessidade.

Em um novo contraponto com os EUA, onde o povo é, em sua grande maioria, mais reservado, cauteloso, já praticam o distanciamento social por natureza, a reabertura foi considerada uma tragédia, fica difícil imaginar os efeitos de uma reabertura mau estruturada entre latinos/sul-americanos, que são pessoas calorosas, que gostam de apertar a mão, abraçar e beijar.

Como especialista da área de saúde e segurança do trabalho, eu anseio muito pela reabertura, desde que adotados os protocolos necessários para esse novo momento. Ao mesmo tempo, temo muito enquanto não tivermos uma vacina no mercado, pois não estamos preparados – nem o Brasil e nem os Estados Unidos – para uma reabertura total. Basta ver que ainda há pessoas que não estão se protegendo e se aglomerando sem a menor necessidade. A maioria que tenta se proteger, está usando a mesma mascara por dias sem a devida higienização, sendo que o recomendado é que ela seja trocada a cada 2 ou 3 horas. 

Dos mais de 14.5 milhões de casos confirmados no mundo, pelo menos 2.1 milhões ocorreram no Brasil. Se por um lado tivemos mais de 1.3 milhões de pessoas recuperadas, por outro lado, tivemos mais de 79.500 mortes, isso dentro de um estado de isolamento.

Será que estamos mesmo preparados para uma reabertura? Florida achava que estava, Texas pensou que estava, Arizona tinha certeza que estava, caso contrario, não reabririam. Depois da experiência com a reabertura, não sei se eles ainda têm a mesma convicção, pois os resultados estão sendo terríveis, principalmente para os profissionais da saúde, que tem doado a vida pelos infectados.

Ainda não sabemos quais são os próximos passos – nem quando irão ocorrer – mas quaisquer que sejam eles terão que ser de máscara, mantendo 2 metros de distância das pessoas, e seguindo criteriosamente todas as normas de segurança estabelecidas pelas autoridades. O momento é de segurar a ansiedade pela retomada, seguir os protocolos de segurança e se adaptar ao novo normal da conjuntura pós-pandemia, seja no Brasil, nos Estados Unidos ou em qualquer outro lugar do mundo.

*Rony Jabour, especialista em Saúde e Segurança do Trabalho. Fundador e diretor educacional da United Safety Net

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