Estamos no escuro e sem lanterna 

Fernando Goldsztein*

25 de julho de 2020 | 06h30

Fernando Goldsztein. FOTO: DIVULGAÇÃO

Nestes seis meses de pandemia, o Brasil assumiu o segundo lugar em número absoluto de mortes no mundo. Em número de mortes por milhão de habitantes, estamos na décima quinta posição entre 213 países. Se considerarmos ainda que estamos longe de controlar a pandemia, infelizmente avançaremos neste ranking macabro.

É claro que, por sermos um país de dimensões continentais, os números variam muito de uma região para outra. Porém, contra fatos não há argumentos. É inegável que, como país, estamos indo mal no combate ao vírus. Os motivos são vários. Falta de protagonismo do governo federal, descoordenação entre municípios contíguos, má gestão dos recursos públicos pelos estados e municípios, regiões com pouca infraestrutura hospitalar, apagão de insumos no mundo, corrupção, falta de consciência da população para respeitar as regras de isolamento, etc.

A consequência já sabemos. Além do grande número de mortes, teremos uma das maiores (se não a maior) recessão da história. Uma enorme crise econômica está ceifando milhares de empresas e milhões empregos. Porém, este abre e fecha das atividades econômicas poderia ser minimizado se estivéssemos usando uma arma importante  para combater este vírus traiçoeiro. Refiro-me aos testes, mais especificamente ao teste molecular chamado RT-PCR. Rastrear, testar e isolar as pessoas que tiveram contato com os infectados é o básico que não está sendo feito. Pior do que isso, nem mesmo todos os sintomáticos são testados. É preciso ter sintomas bem específicos para ser testado.

Há poucos dias, um conhecido precisou ir três vezes a uma Unidade de Pronto Atendimento na região metropolitana de Porto Alegre para fazer o teste. Conseguiu depois de muita insistência. O resultado, que demorou longos quatro dias, veio positivo. Os familiares não foram testados. Informaram que poderiam fazer o teste somente se alguém estivesse com sintomas. Ora veja, quantas pessoas podem ter sido infectadas por este paciente que teve que ir três vezes ao posto médico para ser testado? Quantos familiares podem, eventualmente, estar infectados sem sintomas (os pré-sintomáticos) e espalhando o vírus por aí? Por que até agora o Brasil testa tão pouco? 

Segundo o site ourworldindata.org, apenas alguns países, entre eles o Brasil, não fazem o rastreamento das pessoas que tiveram contato com os infectados. De novo, isso é básico para contenção do vírus. Ocupamos a vergonhosa centésima terceira posição em número de testes por milhão de habitantes (wordometers.org). Isso que não estamos falando ainda em testagem em massa de assintomáticos. Esta seria a única forma de entender a velocidade de propagação e a dispersão geográfica do vírus em tempo real, o que é a base para tomada de decisões. Além, é claro, de detectar doentes ainda sem sintomas, isolá-los, tratá-los precocemente (antes de necessitarem hospitalização) e rastrear seus contatos.

A verdade é que estamos no escuro e sem lanterna. Acompanhamos a pandemia através do número de pacientes internados em UTI e dos óbitos, ou seja, muito atrasados. É claro que é essencial o distanciamento social, as  regras de higiene, o uso de máscaras, os profissionais da saúde protegidos e capacitados, ter mais leitos de UTI, entre outros. Porém, sem a testagem, estamos sendo muito ineficientes.

Sim, já é tarde, perdemos um tempo precioso e pagaremos um preço elevado com a parada brutal da economia. Mas, como diz o ditado, “antes tarde do que nunca”. Não podemos mais aceitar este descaso das autoridades. O vírus é um inimigo poderoso. Precisamos usar todas as armas disponíveis para ganhar esta guerra.

*Fernando Goldsztein, empresário

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