Estamos levando a educação financeira para o abismo

Estamos levando a educação financeira para o abismo

Thiago Nigro*

20 de maio de 2021 | 04h00

Thiago Nigro. FOTO: DIVULGAÇÃO

Em 2010, a bolsa de valores lançou o que seria uma das suas campanhas publicitárias mais icônicas até hoje. Na época, a bolsa (que ainda se chamava BM&FBovespa) tinha uma meta pra lá de ousada: atingir 5 milhões de pessoas físicas até 2015. O sonho, portanto, era conseguir num período de 5 anos um total de 4,4 milhões de investidores. Para atingir essa meta, a bolsa tinha duas percepções muito claras: era preciso ter um garoto-propaganda influente, e, além disso, como o próprio presidente da bolsa disse, “a educação é palavra-chave”. Para garoto-propaganda, foi escolhido foi ninguém menos que o Pelé, o rei do futebol. Já para educação, o projeto era de longo prazo.

Poupando os leitores de mais detalhes: em 2015, a bolsa fechou o ano com 234 mil investidores – bem longe dos almejados 5 milhões –, mostrando que o desafio de dar educação e incentivar a população a investir não era tão simples quanto parecia ser. O curioso, porém, é que tudo mudou a partir justamente de 2015: entre 2015 e 2020, a bolsa de valores deu um salto de 234 mil investidores para 2.48 milhões, um crescimento nunca antes visto na história. E não para por aí: se olharmos para o início de abril de 2021, a bolsa já superou a marca de 3.5 milhões de pessoas físicas. Se continuarmos nesse ritmo, provavelmente 2022 será o ano em que faremos o gol que o Pelé não fez – mas esse será válido apenas no mundo dos investimentos.

E o que explica essa mudança expressiva de paradigma? Na minha opinião, duas coisas, a necessidade cada vez maior de um mercado financeiro mais acessível, e o surgimento da educação financeira na internet, principalmente por meio do Youtube. Com a popularização do Youtube e com o início dos “influenciadores financeiros”, foi possível com que o conteúdo sobre finanças e investimentos – que até então era quase que exclusivo das maiores faculdades do país – se abriu para toda e qualquer pessoa com acesso a internet e minimamente interessada em aprender. Esse movimento quebrou paradigmas – e sou a prova disso. Como educador financeiro, criei o meu canal no youtube ainda em 2016 e hoje falo com mais de 20 milhões de pessoas, todos os meses, por meio das minhas redes sociais. Me comunico com pessoas de todo o país, e até mesmo de fora dele.

O problema é que, recentemente, eu percebi uma coisa que está ficando cada vez mais óbvia, estamos no caminho errado. A educação financeira – e o mercado financeiro como um todo – cresceu e virou mais acessível. É verdade. Todavia, todo esse crescimento trouxe dois problemas muito graves, toda e qualquer pessoa pode ensinar sobre finanças e investimentos na internet – mesmo as pessoas que mal têm experiência no mercado, e toda e qualquer pessoa pode vender um curso sobre finanças e investimentos na internet -basta ter uma promessa forte (não necessariamente verdadeira).

Hoje, apesar de muito conteúdo de qualidade estar disponível na internet, há muito conteúdo duvidoso disponível também. Distinguir entre eles pode até ser fácil para uma pessoa experiente, mas pra uma pessoa que é nova no mercado financeiro (caso de mais da metade das pessoas atualmente) essa distinção não é tão fácil de ser feita. Pior ainda: o conteúdo duvidoso tende a ser mais atraente, já que oferece promessas como enriquecimento rápido e seguro. Casos como o do day trader que cometeu suicídio ao perder R$200 mil mostram que as consequências disso podem ser nefastas.

E há outra ótica problemática nessa história: além dos conteúdos gratuitos, existem os conteúdos pagos. E assim como é no caso das faculdades, geralmente os cursos de qualidade geralmente não são acessíveis. Sou parte desse problema. Apesar de disponibilizar conteúdo gratuito na internet, o meu curso tem um ticket altíssimo – o que acaba excluindo grande parte das pessoas que me seguem nas redes sociais. Por isso, o grande problema atual que precisamos resolver não é somente tornar o mercado financeiro mais popular, mas principalmente fazer com que ele se torne popular de forma saudável. Do que adianta 5 milhões de pessoas na bolsa, se pouquíssimas souberem de fato como o mercado funciona?

O fato do conhecimento de qualidade não ser tão acessível quanto deveria ser – tanto pelo lado de que os melhores professores (as pessoas que realmente ganham dinheiro no mercado e tem legitimidade pra ensinar) não conseguirem se comunicar com o grande público, quanto pelo lado que o conteúdo de qualidade vem sempre junto com um boleto de valor alto –  pode fazer com que nós tenhamos que encarar um problema gravíssimo no futuro: o fato de muitas pessoas estarem presentes na bolsa, mas a maioria achar que bolsa é um jogo não muito diferente do jogo do bicho.

O conhecimento é o maior ativo de um ser humano e a educação financeira tem que se tornar cada vez mais acessível. A educação deve caminhar no sentido de ser uma experiência com excelência – e para isso, precisamos mudar de direção. Como disse, não sou isento: fiz e faço parte do problema que precisamos enfrentar. O que posso dizer é que, sabendo disso, eu já estou caminhando para me tornar cada vez mais uma parte da nossa solução. E acho que todo mundo pode e deve fazer o mesmo. Seja agindo, seja cobrando de quem age.

*Thiago Nigro é criador do canal Primo Rico e autor do livro Do Mil ao Milhão Sem Cortar o Cafezinho

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