‘Estamos em outro planeta’, disse executivo da Odebrecht ante pedido de propina de R$ 90 mi

‘Estamos em outro planeta’, disse executivo da Odebrecht ante pedido de propina de R$ 90 mi

Delator relata à Lava Jato que Aldo Guedes se identificava como 'único representante' do então governador de Pernambuco Eduardo Campos e exigiu 2% sobre valor do contrato de R$ 4,5 bilhões nas obras da Refinaria Abreu e Lima da Petrobrás

Luiz Vassallo, Julia Affonso e Ricardo Brandt

18 de abril de 2017 | 14h42

Foto: Dida Sampaio/Estadão

Foto: Dida Sampaio/Estadão

O executivo Márcio Faria, da Odebrecht, revelou, em delação premiada, ter sido procurado, em 2010, por Aldo Guedes, que se dizia ‘o único representante’ do ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos para tratar de propinas de R$ 90 milhões de reais, referentes a 2% do contrato da construtora com a Petrobrás para construção da Refinaria Abreu e Lima, em Ipojuca (PE). Do termo, ainda teriam sido pagas propinas para diretores da Petrobrás ao gerente do empreendimento e ao falecido deputado José Janene (PP).

PLANILHA

Eduardo Campos morreu em agosto de 2014 em um acidente de avião em Santos quando estava em campanha à Presidência da República.

Por meio de prática de cartel com outras empreiteiras, a OAS e a Odebrecht venceram a licitação para dois contratos relacionados à refinaria, em Pernambuco. Se somados, ambos chegavam a R$ 4,5 bilhões. O executivo Márcio Faria diz ter participado de uma reunião para combinar os valores com empreiteiras concorrentes, convocada pelo então presidente da UTC Engenharia Ricardo Pessoa.

Pouco antes do encontro, o empresário alega ter se encontrado com Agenor Medeiros, da OAS, em uma padaria, onde combinaram que pediriam ‘prioridade’ para a obra. “Nessa reunião definimos que Odebrecht/OAS ficariam com UDA (unidades de destilação atmosférica) e HDT (unidades de hifrotratamento de nafta e geração de hidrogênio) em consórcio e que os outros dois pacotes, tubovias e coque, deveriam ser acertados entre eles (Camargo Corrêa e Queiroz Galvão)”, relatou o delator.

Em 2010, Márcio Faria diz ter sido procurado por Aldo Guedes, que se dizia o ‘único representante’ do governador Eduardo Campos. O interlocutor teria pedido, em reunião, propinas no valor de 2% do contrato obtido pelo consórcio formado por OAS e Odebrecht.

“Eu falei, olha, eu acho que estamos em outro planeta. Calma, o que que é isso? qual é a contrapartida?”, teria afirmado o executivo da Odebrecht. Segundo ele, o valor da propina acabou fixado em R$ 7,5 milhões por empresa do consórcio. O interlocutor de Eduardo Campos teria reclamado e dito que levaria a questão ao presidente da OAS Léo Pinheiro. “Ele chiou, reclamou, eu falei, olha, é o que temos”.

Inicialmente, a propina seria paga pela Odebrecht por meio de contas na China atribuídas a Aldo Guedes.
“Depois, soube por Hilberto Silva que foram feitas duas ou três tentativas de transferências para contas bancárias em Hong Kong indicadas por Aldo Guedes, mas que foram devolvidas pelo banco”, lembrou.

EXTRATOS

Os repasses teriam sido viabilizados por meio de uma agência de turismo em Recife, chamada Mônaco. “A forma de pagamento apresentada, transferência para o exterior, evidencia que não se tratava de apoio à campanha política, mas sim de propina”, explicou.

Em troca da propina a Eduardo Campos, Aldo Guedes teria prometido ‘ajuda incondicional do Governo no decorrer das obras, principalmente para tratar das relações sindicais, que era o fator mais crítico na condução do empreendimento’.

Além dos repasses feitos para o então interlocutor governador do Pernambuco, propinas de R$ 30 milhões teriam sido pagas para a área de abastecimento da Petrobrás, que tinha o diretor Paulo Roberto Costa como representante. O agente público dividiria o total com o então deputado federal José Janene. O então parlamentar pelo PP teria se ‘indignado’ com os valores oferecidos pela construtora. “Respondi que era pegar ou largar e Paulo Roberto Costa colocou panos quentes dizendo que era para ficarmos calmos e que não faltariam oportunidades para recuperar este valor”.

Segundo Márcio Faria, o contrato da Abreu e Lima ainda rendeu propinas de R$ 30 milhões ao então diretor de Serviços, Renado Duque e R$ 15 milhões a ‘Glauco Colepicolo, Gerente Geral de implantação do empreendimento’. “Autorizei os pagamentos, em alinhamento com o sócio da OAS e em contrapartida seriam aprovados eventuais aditivos sem burocracia, o que acabou por não ocorrer, ainda que tenham sido realizados os pagamentos”, afirmou.

COM A PALAVRA, A DEFESA DE EDUARDO CAMPOS E DE ALDO GUEDES

O advogado de defesa da família de Eduardo Campos e de Aldo Guedes afirmou que requereu cópias e vídeos dos depoimentos dos delatores e só vai se pronunciar após ter acesso ao material.

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