Esquizocovidfrenia

Esquizocovidfrenia

Mário René Einstein-Schweriner*

06 de fevereiro de 2021 | 08h00

Mário René Einstein-Schweriner. FOTO: DIVULGAÇÃO

O Brasil vive um cenário peculiar: convive não com uma, porém com duas epidemias simultâneas: a pandemia viral de Covid-19, que acabou por provocar uma segunda epidemia – mental – que denominei esquizocovidfrenia. Esquizocovidfrenia é um transtorno psíquico assemelhado à esquizofrenia, mas com peculiaridades que a tornam única: vírus, máscaras, cloroquina, quarentena, aglomerações, vacinas, óbitos. A exemplo da esquizofrenia, também provoca a perda de contato com a realidade, tornando impossível distinguir o real da imaginação ou alucinação, como ouvir vozes ou até ver pessoas ou objetos que não existem de fato.

A esquizocovidfrenia afeta tanto a população como um todo quanto até mesmo seus dirigentes. O pensamento dissociado da realidade é uma das suas principais manifestações nos líderes políticos, cujas ideias costumam ser confusas, desorganizadas ou desconexas, tornando o discurso difícil de entender.

Alucinação e delírio são os principais sintomas da esquizocovidfrenia. São pensamentos e sentimentos em que o sujeito tem certeza de algo, mesmo sem nenhuma evidência que o comprove, e que são totalmente divorciados do mundo real. A teimosia em persistir na recomendação da cloroquina, sem eficácia comprovada por cientistas, assim como acreditar que a Coronavac – a tal da vacina chinesa – possui chips embutidos ou pode afetar o DNA são claros sinais do que doravante denominarei covidelírio.

Também a população padece de covidelírio, pois sofre de uma distorção aguda da realidade que a faz ouvir vozes que lhe sussurram para deixar a cautela de lado junto às máscaras e se unir à multidão.

É fato que muitos que contraem Covid são assintomáticos ou, na pior das hipóteses, manifestam sintomas assemelhados a uma gripe. Por outro lado, os mais de 200 mil óbitos demonstram que a Covid pode mesmo ser fatal. Mesmo com tais dígitos que demonstram o desastre no mundo real, centenas de milhares de vítimas do covidelírio desenvolveram o raciocínio delirante que os insere no universo imaginário da gripezinha. Resultado: negacionismo. Mas também existe uma contrapartida para o negacionismo, na forma de outro covidelírio, de matiz bem diferente.

Vou contar um fato histórico pitoresco. Vários soldados japoneses remanescentes da Segunda Guerra Mundial foram manchete até os anos 1970 devido à sua rendição final décadas após o fim da guerra, em 1945. Porque tinham permanecido emboscados na selva por todos aqueles anos, recusando-se a se render até serem encontrados e retirados de seu “isolamento social”.

Pois não é com surpresa menor que notamos a existência do isolamento social rigoroso de um pequeno, mas bravo grupo de pessoas que permanece aquartelado em seus domicílios desde o início da pandemia, sem deixar seus domicílios para nada. Também é um sintoma de covidelírio, e a voz que lhes é sussurrada aponta que “sair de casa é mortal”.

Como corolário pressinto que sem que a ambiguidade da esquizocovidfrenia seja finalmente rompida rumo a uma única e sólida direção, continuará valendo o aforismo de Walter Mondale, ex-vice-presidente americano no governo Jimmy Carter: “Se você tiver certeza de entender tudo que está acontecendo, é porque você está perdidamente confuso.”

*Mário René Einstein-Schweriner é formado em Administração de Empresas pela FGV, psicólogo e mestre em Psicologia pela USP, e doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista. Criador e coordenador do Curso de Graduação em Ciências Sociais e do Consumo da ESPM até dezembro de 2019. Autor de livros sobre consumo e desejo e sua conexão com a espiritualidade. Atualmente pesquisa e escreve sobre o Transumanismo

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