Esqueça os ditados

Esqueça os ditados

Cassio Grinberg*

31 de julho de 2019 | 06h00

Cassio Grinberg. FOTO: DIVULGAÇÃO

Lembra daquele dia em que alguém lhe convenceu, do alto da corda-bamba de um ditado, que sua ideia não era boa? Somos, muitas vezes, orientados por pensamentos prontos: frases que vestem a poeira do tempo e que nos seguram com freios gastos, mas que não nos atrevemos a questionar.

O crescimento veste outras roupas, customizáveis a quem pensa por conta própria: inteligência é o que a gente faz justamente quando não tem ideia do que fazer: cada macaco no seu galho? Hoje a gente co-cria até mesmo com concorrentes. Faça o que eu digo, não faça o que eu faço? Apenas se estancamos nas extremidades do teórico que não pratica, ou do prático que não sabe ensinar. O ótimo é inimigo do bom? Não quando pretendemos operar em alta performance.

Em briga de marido e mulher não se mete a colher, mas você vai ficar quieto esperando que um irmão se dê mal? Casa de ferreiro, espeto de pau — mas deixaremos que qualquer um menos nós mesmos se beneficie de uma habilidade que é principalmente nossa? O fruto não cai longe da árvore, mas condenaremos nossa chance de crescer ao iceberg da ortodoxia genética, que tem mais de desculpa do que de explicação?

Não pensar parece mais fácil, mas trata-se de armadilha que não precisamos armar: especialmente quando isso envolve treinar nossas equipes ou educar nossos filhos. Ser original é não pedir licença, é experimentar sem combinar com os russos. É mexer sim em time que está ganhando, assumir riscos, não sucumbir à maçã da aprovação: um dia nos daremos conta de que as curtidas do resto do mundo podem nos dizer apenas que estamos andando sobre a esteira rolante do conhecimento comum, e não sendo singulares a ponto de nos curtirmos, nós mesmos, de verdade.

E por que corremos em busca do sentimento pronto, quando o verdadeiro esporte consiste em fazer como David Bowie, que criava sempre novas curvas para, em seguida, transitar fora delas? Água mole em pedra dura tanto bate que, se o importante fosse competir, os inovadores não criavam oceanos tão longe dos concorrentes, tão pleno de ondas, tão azuis.

*Cassio Grinberg, sócio da Grinberg Consulting

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