Espelho, espelho meu…

Espelho, espelho meu…

Rodrigo Monteiro*

21 de julho de 2020 | 13h46

Rodrigo Monteiro. Foto: Divulgação

As discrepâncias sociais em nosso país somente não são maiores do que a estupidez de quem acredita ser melhor do que seus semelhantes, especialmente em relação aos mais humildes. No Brasil vivenciamos uma inegável situação em que analfabetos que sabem “desenhar” os respectivos nomes são classificados com alfabetizados. Não só por isso, aqueles que logram êxito em galgar sucesso e alcançam um padrão cultural, social, financeiro ou político em muito superior à média nacional deveriam servir de vetor de comportamento para a sociedade.

É inexplicável que pessoas que se destacam nas searas social, econômica, política, dentre outras, ainda insistem em manter um raciocínio irracional de superioridade, tal qual se via na ideia da supremacia ariana na Alemanha do pós-Primeira Guerra Mundial. Não é a cor da pele, o CEP residencial, o número de dígitos do contracheque ou o “doutor” na frente do nome que deveria ditar o valor de um ser humano.

O filósofo Mário Sérgio Cortella sempre faz questão de repetir que “o conhecimento serve para encantar as pessoas, e não para humilhá-las”. O conhecimento deve ser utilizado para propagar positividades. Quem, por exemplo, detém a capacidade de falar vários idiomas, deve usar sua fluidez de forma positiva e não com o fito de menosprezo alheio.

O conhecimento, para os seres humanos “normais”, não vem sem esforço. Em regra, alcançar o ápice exige sacrifícios e, por isso, é muito importante lembrar não apenas da linha de chegada, mas sim de toda a trajetória. E é a construção dessa trajetória que deveria moldar o caráter daqueles que conseguem cortar a faixa final e se transformar em um verdadeiro estandarte, que guarda o dever fundamental de ditar as regras comportamentais. Assim, o respeito que os “poderosos” devem nutrir pelas pessoas mais simples deveria ser, metaforicamente, equivalente ao número de grãos da areia existente nas praias de Santos (SP).

Aqueles que conhecem as normas e as regras de comportamento deveriam ser os primeiros a respeitar as limitações que são impostas pelo Estado em prol da satisfação do bem comum. Caso entenda que determinado comando emanado do Governo não é adequado à defesa da sociedade, deverá adotar os canais democráticos adequados e buscar a respectiva impugnação, algo que é muito diverso daquilo que o Código Penal, em seu artigo 345, tipifica como “exercício arbitrário das próprias razões”.

O “você sabe com quem está falando”, infelizmente, ainda representa muito de nossa essência enquanto sociedade brasileira. Diversamente de ser formada por cidadãos capazes de reconhecer seu lugar no cenário coletivo, nossa sociedade se mostra povoada por indivíduos que apenas buscam a satisfação das próprias necessidades e, não raro, com o manejo do aparato estatal e do conhecido “jeitinho brasileiro”.

A sociedade brasileira se mostra em um pujante processo de transição, entretanto, ainda não abandonamos valores conservadores que muito mais prestigiam o “TER” do que o “SER”. Dessa forma, a patente, o título acadêmico ou o cargo público passam a conferir mais relevância do que a essência e os valores morais dos respectivos titulares.

Abraham Lincoln dizia que “se quiser por à prova o caráter de um homem, dê-lhe poder”. Essa afirmação atemporal se amolda perfeitamente à realidade de um país sufocado por desigualdades de matizes diversas. Não se apresenta como absurda a afirmação de que “o poder corrói a alma, dilacera o coração e paralisa o cérebro e, dessa forma, sem alma, coração e cérebro, viramos animais irracionais”.

O poder que é utilizado indevidamente de forma autoritária e monocrática com o intuito único de humilhar, ameaçar e confrontar, simplesmente ocasiona uma erosão em todo o sistema. Assim, a sociedade enxerga esses desvios como padrões comportamentais e, equivocadamente, constrói uma negativa relação associativa generalizada.

Vivemos uma pandemia sem precedentes que demanda ações estatais aptas a prevenir a propagação dessa doença que já infectou mais de 2.000.000 de pessoas e vitimou mais de 80.000 brasileiros. Tão grave quanto esse problema de saúde pública é o vírus do autoritarismo, da arrogância, da prepotência, da soberba e da falsa percepção de acreditar que ao encarar seu “espelho mágico” sempre encontrará como resposta: “sim, és o mais inteligente”, ou “sim, és o mais belo”!

*Rodrigo Monteiro, doutorando e mestre em Direito; promotor de Justiça (MP-ES)

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