Esgotamento mental dos profissionais da linha de frente

Esgotamento mental dos profissionais da linha de frente

Alisson Marques e Luan Diego Marques*

15 de março de 2021 | 07h30

Alisson Marques e Luan Diego Marques. FOTOS: DIVULGAÇÃO

A pandemia do COVID 19 vem apresentando-se avassaladora em diversos campos da saúde humana. No que tange a saúde mental, indubitavelmente, tem sido umas das esferas mais acometidas.

Os profissionais da linha frente, dentre eles, os profissionais de saúde vêm sofrendo diariamente com estresses e mudanças sofridas por esse fenômeno.

Na formação do Profissional de Saúde, salvar vidas é a principal premissa e pilar para todo o desenvolvimento profissional. Mas agora, como lidar quando esse pilar é extremamente agredido por uma pandemia?

O comportamento súbito da pandemia, gerado por um vírus, até então desconhecido, com respostas fisiológicas incertas e com alta forma de disseminação gerou um nível de ansiedade intensa em toda a população. Nos profissionais de saúde esse medo foi piorado pela impossibilidade de fazer o isolamento social, pela pressão social em serem uns dos principais instrumento de alívio dos pacientes, medo de infecção, estruturas deficitárias como Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) , UTI superlotadas, falta de oxigênio e  demais recursos para assistência adequada.

Como será para os profissionais lidar com a frase de Hipócrates: “Curar quando possível, aliviar quase sempre, consolar sempre” (Hipócrates)?

Será que eles sentem que estão munidos dos recursos necessários para esse momento. Ou será que estão indo para uma guerra desarmados?

Muitas vezes o sentimento de frustração e impotência tem tomado a vida desses profissionais. Como exercer a arte da cura em meio a esse cenário.

A experiência de atuar em uma pandemia pode ser semelhante a   vivência de uma guerra prolongada ou crises de refugiados.  Há um período de exposição a um estresse crônico elevado com exacerbações episódicas. A falta de perspectiva de fim desse cenário gera uma dificuldade de resiliência em relação a esse momento. O término dessa pandemia permanece incerto e obscuro.

Após os primeiros períodos de isolamento social, conhecimento do comportamento do vírus e manejo clínico vividos como estresses agudos a esses profissionais, houve uma abertura para outras vivências psíquicas como exaustão, tristeza e raiva. A falta de adequação da população às orientações realizadas pelas comunidades científicas de todo o mundo podem gerar nos profissionais um sentimento de desqualificação da sua profissão e atuação.

A demanda por atendimento em saúde mental nessa população tem aumentado diariamente, comportamentos como ansiedade, insônia, depressão e esgotamento tem sido um dos principais motivos de pedido de ajuda.

Os desdobramentos no campo psíquico ainda serão vistos por muitos anos, podendo inclusive gerar adoecimentos crônicos e incapacitação laboral por parte desses profissionais. É de suma importância que as entidades governamentais e não governamentais estejam buscando medidas de suporte para esses profissionais tão essenciais para a atual conjuntura.

*Alisson Marques e Luan Diego Marques, médicos psiquiatras

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