ESG: pequeno investidor deve ter cuidado para não levar gato por lebre

ESG: pequeno investidor deve ter cuidado para não levar gato por lebre

Geraldo Affonso Ferreira*

12 de agosto de 2020 | 10h00

Geraldo Affonso Ferreira. FOTO: DIVULGAÇÃO

ESG (ou ASG) é, provavelmente, a segunda sigla mais falada no mundo dos negócios neste ano – depois de Covid-19, claro. Desde o início da pandemia, o desempenho das companhias mais comprometidas com políticas Ambientais, Sociais e de Governança Corporativa (ASG) tem superado o das demais em diversos mercados financeiros, e, ao que tudo indica, essa tendência veio para ficar. Mas se você é um pequeno investidor precisa tomar certos cuidados para não levar gato por lebre neste momento.

Neste artigo, vamos abordar como estes investidores, principalmente as pessoas físicas, que já passam de 2 milhões na Bolsa brasileira, podem se assegurar de que as empresas onde investem estão mesmo no caminho correto nessa onda de ESG.

A pauta de ESG não é nova, mas a percepção sobre o assunto ganhou outra dimensão a partir de janeiro de 2020, quando Larry Fink, CEO da BlackRock, maior gestora do mundo, com US$ 7 trilhões em ativos, anunciou que passaria a adotar critérios de sustentabilidade em suas decisões de investimento.

No mesmo mês, no Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça), as cinco maiores preocupações dos participantes estavam ligadas às questões climáticas, pela primeira vez em 50 edições do encontro.

Então, veio a pandemia que mudou o mundo e reforçou ainda mais a importância do ESG. Nos primeiros quatro meses de 2020, as companhias sustentáveis do S&P 500 apresentaram uma valorização 0,6% superior às demais (Financial Times, julho/2020). E na Ásia, o índice ESG ficou 3,83% acima do indicador geral da região, segundo o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura.

Este desempenho mostra que companhias realmente comprometidas com o tripé da sustentabilidade estavam mais preparadas, por terem feito uma melhor análise e controle de riscos através do ESG, o que resultou em mais resiliência a adversidades.

Tudo isso fez com que o interesse sobre ESG crescesse ainda mais nos últimos meses – a ponto de se tornar também um dos principais motivadores das pressões de investidores internacionais e empresários nacionais sobre o governo brasileiro, para aumentar o combate às queimadas na Amazônia.

Entretanto, um dos principais desafios hoje é definir quais os melhores indicadores, estruturas ou padrões de informações de ESG, para que os investidores possam avaliar o real impacto das iniciativas de sustentabilidade.

Em fevereiro, um estudo da KPMG com 135 gestores de grandes fundos em 13 países apontou que a falta de dados confiáveis de ESG, a ausência de métricas para quantificar os benefícios não financeiros e a dificuldade em prever os rendimentos nesse segmento eram obstáculos para um crescimento maior dessas práticas.

Atualmente, para alcançar uma boa avaliação em ESG, as empresas precisam se adequar a algumas estruturas e padrões, como as do Global Reporting Initiative (GRI), do Sustainability Accounting Standards Board (SASB) e da Task Force on Climate-related Financial Disclosures (TCFD)

Já o principal acordo global de práticas responsáveis, voltado para fundos de investimento, é o PRI (sigla para Principles for Responsible Investment), vinculado à ONU, e que já conta com mais de 3 mil signatários, reunindo mais de US$ 10 trilhões em ativos.

Essa diversidade de padrões e indicadores ainda gera muitas dúvidas entre os investidores. De acordo com o MIT, é muito provável que de 5% a 10% das empresas que estão entre as melhores em ESG numa agência de classificação fiquem entre as 20% inferiores em outra (CIO.com, maio/20).

Diante disso, surgem algumas iniciativas para buscar um padrão ideal de ESG. A Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC), por exemplo, começou a trabalhar na criação de uma estrutura para a divulgação de indicadores de sustentabilidade, com o objetivo de fornecer aos investidores “as informações materiais, comparáveis ​​e consistentes para tomar decisões de investimento”.

A falta de uniformidade de parâmetros de ESG também torna mais difícil saber quem realmente adota práticas sólidas de sustentabilidade ou está apenas fazendo greenwashing.

Tudo isso aumenta a responsabilidade dos pequenos investidores em buscar, junto aos gestores de investimentos e empresas onde são acionistas, uma divulgação apropriada das práticas de ESG.

É importante que os pequenos investidores atuem, com a diligência e o poder que suas ações lhes oferecem, nas empresas em que investem e exijam estrutura, padrões e indicadores confiáveis das práticas de ESG nessas companhias.

Afinal, estas informações podem ajudar a entender riscos e oportunidades, além de fornecer perspectivas sobre o desempenho financeiro de uma empresa no novo cenário que se desenha.

Os gestores de investimentos também devem garantir aos cotistas que seus ativos possuem práticas sólidas de ESG. De nada adianta, por exemplo, ter um bom desempenho no Ambiental e no Social, se há falhas de Governança.

Outra recomendação ao pequeno investidor é verificar se sua gestora de ativos tem um Código de Stewardship ou é signatária de algum. Trata-se de uma declaração de princípios que visa melhorar o engajamento e a transparência na atuação dos investidores institucionais junto às empresas investidas.

Enfim, os pequenos investidores precisam estudar o tema ESG para avaliar o trabalho dos fundos de investimentos e das empresas onde são acionistas. E, ao exercer o seu direito, devem ter disposição e coragem de questionar as práticas de sustentabilidade das empresas junto aos Conselhos de Administração. Afinal, como se diz no mercado corporativo “Tone from the top” (o exemplo vem de cima).

A partir de agora, algumas perguntas serão básicas na relação dos pequenos investidores com gestores de investimentos e empresas investidas:

  • A empresa investida possui Relatório de Sustentabilidade, de qualidade, didático e transparente?
  • A gestora de investimentos de seu fundo possui um Código de Stewardship ou é signatária de algum?
  • Seu gestor de ativos está fazendo a lição de casa e também adota critérios de ESG em seu próprio negócio?
  • Como o seu gestor de ativos está acompanhando as práticas de ESG das empresas onde seu dinheiro está sendo aplicado? As práticas são efetivas e lhe convencem?
  • Seu gestor de ativos e companhias investidas seguem padrões e indicadores reconhecidos internacionalmente, confiáveis para mensuração e comparações de práticas de ESG?
  • As informações ESG que você recebe permitem mensurar e comparar desempenho no setor/indústria em que a empresa investida atua e com outras indústrias e setores?

As respostas a estas questões serão fundamentais para o destino de muitos negócios a partir de agora, pois, como frisa a CEO do SASB, Janine Guillot, estamos na era do “Report or Explain”, em que as empresas terão de relatar muito bem suas práticas sustentáveis ou explicar por que ainda não o estão fazendo.

*Geraldo Affonso Ferreira é conselheiro independente e atuou por mais de 30 anos como executivo no setor de Papel e Celulose

Fontes:

https://valor.globo.com/financas/noticia/2020/07/10/crise-mostra-que-investimento-responsavel-compensa.ghtml

https://valor.globo.com/financas/noticia/2020/05/22/agenda-sustentavel-ganha-forca-no-mundo-pos-crise.ghtml

https://www.ai-cio.com/news/sec-recommends-creating-disclosure-framework-esg-investments/

Instituições de avaliação ESG:

www.globalreporting.org

www.sasb.org

www.fsb-tcfd.org

www.unpri.org

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