ESG no governo e na gestão pública

Gustavo Junqueira*

19 de julho de 2021 | 03h00

A agenda ESG, sigla usada para se referir às melhores práticas ambientais, sociais e de governança, tem ganhado grande relevância nas discussões do setor privado, principalmente na pauta de investimentos. Nesse sentido, se transformou até mesmo em importante critério decisório para os players do mercado.  A emergência climática, combinada com a pandemia do novo coronavírus, acelerou preocupações com estes critérios que, antes, eram secundários para os investidores, mas que, gradualmente, passaram a balizar a tomada de decisão sobre onde investir. Consequentemente, multiplicam-se as empresas que têm assumido compromissos com a descarbonização, com a diversidade dentro do seu quadro de funcionários e com as melhores práticas internas. Por um lado, temos a grande movimentação do setor privado. Por outro, o governo, sobretudo no Brasil, tem estado, até aqui, ausente das discussões. É preciso mudar isso.

A crise sanitária deixou evidente que estamos vivendo uma nova era não só em relação a toda a dinâmica social, mas também para os critérios que orientam os investimentos. Na reunião do Fórum Econômico Mundial de 2021 pudemos ver que adentramos a era do capitalismo de stakeholders. Os investidores agora se preocupam com todas as partes interessadas afetadas por seus negócios. Não basta mais que as empresas gerem riqueza apenas para si próprias. É necessário também que elas agreguem valor para seus funcionários, para a comunidade na qual estão inseridas e para o mundo. Como resultado, investimentos que levem em conta critérios ESG tornam suas marcas maios valiosas e admiradas, ao mesmo tempo em que beneficiam a sociedade e o planeta.

Os governos não podem mais ficar à margem dessas discussões. O setor público, por sua própria natureza, trabalha todos os dias com temas ESG por meio das ações de seus ministérios e de suas secretarias. O que se espera dos governos é a criação das condições e regulações necessárias para incentivar investimentos e a adoção de boas práticas pelas empresas. Não só: os governos também logo serão cobrados para incorporar os princípios ESG na própria forma de gerir o Estado. Para isso, precisamos estar nas mesas de discussão ou ficaremos destinados a apenas seguir as diretrizes que outros países e regiões estabeleçam. Muito em breve o mundo estabelecerá quais serão esses parâmetros. Nessa semana foi a vez da União Europeia ditando um ritmo global sobre descarbonização. Em pouco tempo veremos um outro grande passo com a adesão maciça dos Estados a um dos grandes programas da COP26, o Race to Zero.

São Paulo e o Brasil precisam não só se integrar a estas discussões, como sobretudo engajar o setor privado para que tenhamos clareza sobre os custos e sobre quais ferramentas deveremos adotar para nos moldarmos à economia do futuro. Nossa missão hoje é de integrar o setor privado e todos os líderes e especialistas na agenda ESG para que sejamos parte dessa ampla negociação global.

A InvestSP, com seu papel de agência cujo objetivo é a atração de investimentos e melhoria da competitividade do estado de São Paulo, agora se volta para a pauta ESG. Assim, pretende garantir os melhores investimentos e melhores práticas no Estado de São Paulo.

O grande desafio da agência será lançar nos próximos meses um plano de implementação, monitoramento e report ESG para o Estado de São Paulo como um grande indutor desta agenda. Com base em extenso benchmark internacional, já em andamento, estabeleceremos metas estratégicas que orientarão não apenas o setor privado, mas o próprio governo. É fundamental que o governo estabeleça um norte para guiar as condições necessárias para incentivar investimentos e a adoção de boas práticas não apenas pelo setor privado, mas incorporando, em sua totalidade, a agenda ESG no dia a dia da administração pública.

Essas medidas contribuiriam não apenas para incentivar o setor privado a fazer o mesmo, multiplicando o impacto da agenda ESG, mas também para atrair investimentos, nacionais e estrangeiros, que reforcem positivamente essa agenda, tornando-nos mais competitivos em escala global. Vale lembrar que, em 2020, pela primeira vez na história, os investimentos em energias renováveis (eólica, solar, biomassa e outras) superou o volume de investimentos realizados no setor de energias fósseis, como óleo e gás (US$ 87,2 bi contra US$ 45,2, segundo o fDi Report 2021).

Certamente, em São Paulo não partimos do zero, pois o estado já tem uma série de importantes iniciativas aderentes à pauta ESG. Desde o início desta gestão, o governo do estado veio construindo um governo mais preocupado em, junto ao setor privado, implementar iniciativas na agenda ambiental, social e de governança. Não são poucos os exemplos: implementamos iniciativas que levaram o estado ao desmatamento zero; lançamos o programa Agro Legal, que regularizará ambientalmente 350 mil propriedades rurais do estado e com isso restaurar mais de 800 mil hectares de vegetação nativa; trouxemos um sistema de transparência para a gestão pública através do SP Sem Papel; criamos o maior programa social da história de São Paulo através do Bolsa do Povo. E muito mais.

Como se diz, o ESG é uma jornada coletiva em favor de um mundo melhor. O futuro é nessa direção. Para manterem-se competitivos e serem capazes de atrair investimentos que ajudem a construir esse novo mundo, é fundamental que os governos não fiquem de fora do debate acerca do ESG. Assim, aos poucos, conjugando os esforços do setor público e do setor privado, trabalhamos para construir um futuro mais sustentável, diverso e justo.

*Gustavo Junqueira, presidente da InvestSP e ex-secretário de Agricultura

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