ESG e SDG num dia da Diana

ESG e SDG num dia da Diana

*Yun Ki Lee, Kristian Lee, Ricardo Freitas e Santamaria N. Silveira

02 de julho de 2021 | 17h03

Como todos que vão trabalhar ou estudar, bem cedo, Diana desperta para a jornada do dia. Banha-se rapidamente para contribuir na contenção das contas de luz e água [E], bem como para escapar do ralhar justificado da mãe e do pai [S]. Esforça-se, mas ainda não consegue desligar o chuveiro para se ensaboar, mas crê que compensa com o fechar da torneira na hora de escovar os dentes [E].

Yun Ki Lee, Kristian Lee, Ricardo Freitas e Santamaria N. Silveira. Foto: Divulgação.

Café da manhã tomado, sem se estufar ou deixar sobrar, em tempos de pandemia, antes de sair, põe a máscara para sua proteção e de outros, um incômodo com o qual já se habituou. Dá o exemplo ao seu irmão caçula. Considera até usar a máscara mesmo no pós-pandemia quando se sentir gripada, em respeito à saúde dos outros e em prol do coletivo [S], tal como tem visto em sua série favorita “She Was Pretty”, da Netflix.

Com tênis calçados e sapatos na mochila, lança-se à rua. Para estação de trem ou metrô, opta por caminhar, já que o dia a dia carregado de trabalho e estudo a inviabiliza de maiores exercícios físicos [ESG]. Em dias chuvosos, de frio ou simplesmente quando não está nada disposta, toma ônibus, cujo ponto fica a poucos metros de casa. Já próximo da estação, lembra-se de ter apagado a luz do banheiro, mas não a do quarto [E]: de novo, pensa, vou levar chamada da mãe, conforma-se. Diana está ciente de que tem a melhorar nas suas práticas de contribuir para a economia da casa contra desperdícios desse tipo [G].

Na agitada estação, age com cuidado e civilidade na catraca de entrada e no embarque, especialmente, com idosos, crianças e pessoas com deficiência [S]. Se possível, dirige-se aos vagões das pontas e vê com bons olhos a vinheta que passas nas telas do trem para comemorar o Dia do Orgulho LGBTQIA+, mas se incomoda que tenha de ser assim, já que respeito deveria se dar para qualquer pessoa e em qualquer lugar. Ainda que veja que mulheres e homens não sejam iguais, Diana está convicta e luta pelo que deve ser igual, o tratamento humanista. Ao seu irmãozinho, ensina que ele tem de agir com dignidade com todas as pessoas, sem distinção de cor, sexo, fé, posses, religião, origem, deficiências, etc.[S]. Pessoas são pessoas, e ponto final. Se consegue um assento, esparrama-se para acessar mídias sociais, apps de mensagens, notícias e games, pois o trajeto não é nada curto. Não sendo um daqueles dias, fica atenta para ceder seu assento a alguém com necessidade que não conseguiu um dos prioritários. Notar que cada vez mais esse ato solidário é praticado por um número crescente de pessoas a ponto de se tornar um padrão, deixa Diana cheia de esperança porque poderia ser sua avó, avô ou irmãozinho, aquele alguém com necessidade.

Civilidade também no desembarque e na catraca, que não é só para salvaguardar outros, mas também a si mesma, sua integridade física e psíquica. Mais uma caminhada e chega ao seu trabalho. É um escritório de advocacia estabelecido em um prédio de uso compartilhado, que foi todo remodelado no modo smart building[i], em que se aplica o reuso (de água da chuva para jardins e vasos sanitários, por exemplo), reciclagem, energia renovável e sistema de controle integrado para uso racional dos recursos [E].

Diana é designer gráfico. Ultimamente, foi incumbida de auxiliar na melhoria da comunicação em peças jurídicas e apresentações pela técnica do Legal Design e Visual Law[ii]. Não, não se trata de substituir a escrita por desenhos, meramente. Ao contrário, é dar ainda mais vida ao que se escreve, valendo-se de recursos gráficos e audiovisuais para que a compreensão seja facilitada pela sinestesia, junção de sentidos, ou seja, para que a mensagem transmitida seja interpretada de forma eficaz, fidedigna e rápida, através de um meio empático, cujo conteúdo leve o recipiente a conjugar além de um dos sentidos humanos. Como designer, Diana não peticiona, mas auxilia no transformar das partes longas da escrita em outras formas mais ativas de comunicação, como na porção narrativa de uma peça jurídica, que aprendeu a chamá-las de fatos [S].

No almoço, seja no buffet ou no kilo, põe no prato só o que vai mesmo comer para evitar sobras, tal como em sua casa, sem essa “dane-se, que estou pagando”. No retorno ao trabalho, depara com fezes de cães na rua e pensa no porquê de seus donos não terem recolhido. Viu em suas mídias sociais posts exemplares de influencers que passeiam com seus cachorros com papel e saquinho para limpar as fezes. Diana faz o mesmo. Quando sai com seu cãozinho, Olaf, ela sempre carrega jornal velho e saquinhos de mercados para recolher as fezes [ESG].

O dia vai chegando ao final, mas Diana ainda precisa se reunir com a equipe de RH para aprovar o layout de cards de celebração de Diversidade & Inclusão nas mídias sociais [S]. Para a sala de reunião, sobe os 2 andares de escada, como bem se acostumou a assim fazer em deslocamentos dentro do prédio [E;G].

Diana ainda não está muito familiarizada com essa sopinha de letras ESG e SDG/ODS. Claro, já ouviu falar e até vem lendo algo a respeito, mas lhe parece uma coisa muito distante, que soa à coisa de grandes corporações e órgãos públicos.

Até pode ser, Diana, mas fato é que você, diuturnamente, pratica muitos dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (Sustainable Development Goals), propostos pela ONU[iii]. E, assim, você faz com que o Environmental, Social and Governance caminhe robustamente em cada ato seu de prestígio dos pilares ESG de governança, planeta, pessoas e prosperidade. Se há pontos a melhorar? Sim. E vícios a largar? Também. Mas o que importa é que você, Diana, é a protagonista do ESG e SDG/ODS, mesmo sem saber tanto desses emaranhados letreiros.

Sobre Diana, permita apresentá-la: é Edmond Dantes … meu pai e minha mãe … meu irmão … meu amigo … você … e eu … todos nós[iv].

Por todas e todos, e por tudo que Diana encarna, não cabe um desvio de “ESG washing”, pois custa caro não praticar os SDG/ODS, não há como perdurar se não for pelo ESG e porque é rentável ser e seguir ambos. To be continued.

 

*Yun Ki Lee– Sócio-fundador da Lee, Brock, Camargo Advogados, Mestre em Direito Econômico pela PUC-SP e Professor de Pós-Graduação em Direito.

*Kristian Lee – B.Sc. in Economics and Business Administration e Computer Science Student, ambos pela Goethe Universität Frankfurt Am Main, e Working Student em Portfolio Management na Lloyd Fonds AG.

*Ricardo Freitas  – Sócio da Lee, Brock, Camargo Advogados, Mestre em Direito, Justiça e Desenvolvimento e Professor de Pós-Graduação em Direito.

*Santamaria N. Silveira – Jornalista, head de conteúdo da Lee, Brock, Camargo Advogados e Doutora em Comunicação Social pela USP.

Notas
[i] Acerca de smart building e suas características, dentre outros, conferir: https://buildingefficiencyinitiative.org/articles/what-smart-building.

[ii] Sobre Legal Design e Visual Law, dentre outros, conferir: https://lawbydesign.co/legal-design/.

[iii] Conferir os 17 SDG (em português, ODS – Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) no portal da ONU dedicada à sustentabilidade em: https://sdgs.un.org/goals ou https://www.un.org/sustainabledevelopment/sustainable-development-goals/.

[iv] Do filme V de Vingança (V for Vendetta, 2005), de James McTeigue, a partir dos minutos restantes 09:09.

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