ESG e a mudança na orientação econômica global

ESG e a mudança na orientação econômica global

Felipe Gutterres*

26 de março de 2021 | 04h00

Felipe Gutterres. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

A mudança climática é a crise do nosso tempo e está acontecendo mais rápido do que temíamos, segundo o relatório Shaping our Future Together, das Nações Unidas, cujo Secretário Geral, Antonio Gutterres faz um chamado impactante: a emergência climática é uma corrida que estamos perdendo, mas que podemos ganhar.

O documento ressalta cinco grandes pontos: as temperaturas globais estão subindo, a potencial insegurança na oferta de alimentos e água, novos extremos, os possíveis catalizadores para novos conflitos e as possibilidades de caminhos para o futuro.

Os últimos quatro anos foram os mais quentes da história e estamos perto do que os cientistas chamam de risco inaceitável. Com glaciares e coberturas de gelo derretendo nos polos e regiões montanhosas, o nível dos oceanos está aumentando e cidades localizadas perto da costa, como Nova Iorque, Shangai e Osaka, podem estar embaixo d’água ainda na nossa geração.

O aquecimento global causa degradação do solo, erosão e reduz a fertilidade de todo ecossistema, e as mudanças climáticas restringem a disponibilidade e a qualidade da água para agricultura e consumo humano. Ao mesmo tempo, os desastres ambientais, cada vez mais frequentes, explicam os novos extremos: são secas, incêndios, inundações, furacões, tempestades – tudo relacionado ao clima e que custa USD 520 bilhões por ano à economia mundial, segundo a ONU. Finalmente, os efeitos da mudança climática aumentam a competição por recursos como terra, comida e água e, consequentemente, criam tensões sociais que já ameaçam a paz mundial.

Há claros limites ao crescimento com o conhecemos e precisamos buscar soluções tecnológicas mais eficientes que possam reduzir as emissões de CO2, descarbonizar a economia de forma sustentável, perene, coordenada e cooperativa. Não há como a sustentabilidade humana deixar de ser pauta das discussões da nossa própria sobrevivência como espécie a não ser constatando que perdemos de maneira coletiva a nossa própria humanidade.

A eleição de Joe Biden nos Estados Unidos representa uma grande inflexão no combate à mudança climática. No primeiro discurso depois da posse de Biden, John Kerry, Secretário de Estado americano, anunciou que a maior potência mundial estava de volta à mesa e lamentou o afastamento da agenda promovido pelo governo Trump. Os EUA voltarão ao Acordo de Paris, estão tomando medidas para desestimular produção e uso de combustíveis fósseis, já definiram meta de emissões zero até 2050 e vão investir USD 2 trilhões nos próximos quatro anos em novas tecnologias verdes e descarbonização da economia. O movimento é seguido com forte intensidade pela Comunidade Europeia, Japão, Coreia do Sul e outros países.

Já o Brasil é hoje um dos principais emissores devido às queimadas, e se encontra no olho do furacão com um posicionamento que se afastou das discussões ambientais. Caso não reverta a rota atual, o Brasil pode entrar em inédita situação de isolamento internacional, prejudicial para setores muito relevantes da economia, mas ao mesmo tempo não há como resolver a equação climática mundial sem o Brasil. É uma oportunidade enorme de protagonismo internacional que o país não pode desperdiçar. Por isso, já se vê uma aceleração maior na transformação das corporações e mercado financeiro no Brasil para identificar agendas sustentáveis e atender a essa pauta.

Até setembro do ano passado, cerca de 20 fundos sustentáveis já haviam atraído cerca de um R$ 1 bilhão de reais – o dobro se comparado aos 18 meses anteriores, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Emissões de títulos brasileiros com perfil ESG atingiram em janeiro último o volume de 2020. É inevitável que as empresas atentem para isso pelas demandas de todos os stakeholders.

Entre os participantes de pesquisa do Global Network of Directors Institutes (GNDI) – grupo que congrega institutos de governança ao redor do mundo, inclusive o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) – , 85% acreditam que, no longo prazo, teremos maior foco em questões de ESG, de sustentabilidade e de geração de valor para partes interessadas. Outras tendências são maior necessidade de reposicionamento dos negócios (82%) e aumento da competição de talentos.

Já a Global ESG survey do BNP Paribas, aponta que o S do ESG é o item mais difícil de ser avaliado pelos investidores – apesar de grande parte dos riscos dos negócios e reputação se encaixarem nessa perspectiva, como direitos humanos, questões trabalhistas, saúde e segurança, ambiente de trabalho, segurança e qualidade do produto, segurança de dados, cadeia de suprimentos e tecnologia. No Brasil não é diferente. Ainda engatinhamos nesse debate, mas existem posicionamentos importantes de companhias e líderes empresariais na dimensão social. É um excelente começo, mas a agenda precisa ser acelerada.

No artigo “Time to Rethink the S in ESG”, na Harvard Law School Forum on Corporate Governance, Jonathan Neilan, Peter Reilly e Glenn Fitzpatrick, dizem que o S tem aumentado tanto o seu escopo que deveria ter o significado ampliado para Stakeholders em vez de Social. Afirmam também que o S é o barômetro da cultura corporativa e, por isso, a transformação passa por uma revisita ao propósito das corporações.

Quanto à governança, ou o G do ESG, andamos de modo significativo no Brasil. Isto se deu por mecanismos introduzidos no mercado de capitais, como níveis diferenciados de listagem na bolsa de valores; a fundação do IBGC em 1995; e a própria Operação Lava Jato, com seu legado indelével para as práticas de governança empresariais.

Estudo do IFC (International Finance Corporation), braço privado do Banco Mundial, aponta para oportunidades de USD 1.3 trilhões no Brasil entre 2016 e 2030 em projetos ligados ao clima, divididos nas áreas de infraestrutura urbana, energia renovável e eficiência energética industrial. Em infraestrutura urbana, projeções mostram construções verdes, saneamento e transporte como maiores catalisadores. Em energia renovável, projetos solares, energia eólica, biomassa e pequenas hidroelétricas são os espaços ressaltados. Quanto à descarbonização da economia, o IFC aponta que a busca por soluções de eficiência energética na indústria tem o potencial de alavancar uma série de outros negócios e valor.

O Brasil não está parado na agenda, tampouco está acelerado, mas fica claro que ESG não é apenas uma sigla, uma parte de relatórios de performance das companhias ou tema de seminários interessantes, mas oportunidades de negócio, chances de protagonismo internacional, envolvendo bilhões de dólares. E se isso não for suficiente para o convencimento coletivo, é uma questão de sobrevivência.

*Felipe Gutterres, economista, ex-CEO da Sistac SA e ex-CFO da Wilson Sons, estudioso de ESG como oportunidade de negócios

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