ESG e a indústria do esporte: desafios e oportunidades

ESG e a indústria do esporte: desafios e oportunidades

Tiago Gomes e Carla Guttilla Lacerda*

10 de novembro de 2021 | 08h30

Carla Guttilla Lacerda e Tiago Gomes. FOTOS: DIVULGAÇÃO

O seu time de futebol provavelmente não será a primeira coisa que virá à sua mente quando você pensar em ESG e a gestão de negócios. Mas não se engane, a indústria do esporte, como qualquer outra, é intrinsicamente ligada a todos os aspectos dessa sigla e será diretamente impactada por essas três letras que indicam cada vez mais a preocupação da nossa sociedade com os aspectos ambientais, sociais e de governança de um determinado negócio.

Ninguém ousará discutir que adotar práticas ambientais, sociais e de governança é algo correto e deve ser feito. Mas um leitor mais cético talvez argumentasse que não deixaria de torcer para o seu time de coração caso este deixasse de adotar as medidas necessárias para neutralizar suas emissões de carbono, por exemplo. Talvez, dissesse, também, que não vai deixar de acompanhar seu torneio favorito de tênis caso este não passasse a premiar igualmente os jogadores homens e mulheres.

Para este grupo de leitores deve ser dito que a adoção de práticas ESG não é uma moda passageira, e não é importante apenas para a boa reputação e imagem de um negócio. Ao contrário, a adoção ou não de práticas ESG pode ser o que vai definir se a sua organização esportiva favorita continuará existindo, ou se será esquecida.

Primeiro porque será cada vez maior a pressão pública para que as organizações desportivas adotem boas práticas de ESG. Como se deve imaginar, gestores dessas entidades estão acostumados a ser pressionados pelas arquibancadas e redes sociais em função dos resultados esportivos. Mas estão, também, começando a perceber os elevados custos pessoais e institucionais de não se levar a sério a pauta ESG.

Uma rápida leitura do noticiário esportivo dos últimos dias comprova este argumento. No primeiro caso, o Minas Tênis Clube foi alvo de intensas críticas do público e de seus dois principais patrocinadores, por não ter reagido de maneira adequada a um post feito por um atleta de sua equipe de vôlei masculino, em que ele questiona a orientação sexual de um personagem de uma história de quadrinhos. Após uma postura inicialmente reticente, o clube decidiu desligar o atleta, não sem antes atrair para si uma enxurrada de críticas e mídia negativa.

No segundo caso, a diretoria do Corinthians viu-se forçada, após forte pressão de torcedores e imprensa, a dar explicações públicas para a decisão de mandar os jogos de sua equipe feminina de futebol em um estádio localizado em Barueri, cidade próxima a São Paulo, e não na Arena Neo Química, onde o time masculino de futebol do clube manda as suas partidas.

Mas há ainda um segundo argumento contundente em favor da adoção de práticas ESG pelas organizações desportivas, o financeiro. Diversos estudos acadêmicos recentes vêm demonstrando o que intuitivamente se acreditava: o desempenho esportivo, qualquer que seja a modalidade, está diretamente relacionado ao investimento financeiro realizado. Isto é, ainda que não seja o único fator – a governança tem um peso igualmente relevante –, a quantidade de investimento realizado tem influência direta na colocação do país no quadro de medalhas de uma edição dos Jogos Olímpicos, como também na posição do seu time na tabela do campeonato brasileiro.

Isso traz uma má e uma boa notícia para a indústria do esporte. A má notícia é que o dinheiro se tornará cada vez mais escasso para quem não levar as pautas ESG a sério. A boa é que o esporte tem um enorme potencial de aderência a diversas práticas ESG, o que, por dedução, o torna um forte candidato a canalizar investimentos temáticos alinhados com seus propósitos.

Analisando a questão primeiro sob o ângulo do que deve ser feito para que o esporte se adeque às práticas ESG, deve ser dito que os desafios são complexos, mas de possível equação.

Pensando, primeiro, no aspecto ambiental (o “E”, de ESG), há uma série de temas a serem tratados. Instalações esportivas como estádios, ginásios, centros de treinamento e autódromos, por exemplo, são grandes consumidores de energia elétrica. A manutenção de gramados, por outro lado, é uma fonte de desperdício de recursos hídricos. Há, ainda, a questão dos resíduos que são gerados pelos milhares de espectadores de cada evento.

Além disso, eventos esportivos envolvem a circulação de milhares de pessoas, presumivelmente utilizando-se de veículos movidos a combustível fóssil. Competições esportivas regulares envolvem, em um país de dimensões continentais como o Brasil, incontáveis voos para o deslocamento dos envolvidos. O que é ainda mais grave no caso dos grandes eventos esportivos globais como Jogos Olímpicos e Copa do Mundo, por exemplo, que promovem a circulação de centenas de milhares de pessoas ao redor do mundo. É preciso reduzir e neutralizar essas emissões de carbono.

Também deve haver um olhar atento para a questão ambiental em temas como o fornecimento de material esportivo, e a geração de resíduos com merchandising e itens colecionáveis, historicamente ricos em derivados de petróleo.

Seguindo para a análise da vertente social (o S, de ESG), temas como diversidade, igualdade de gênero (inclusive no que diz respeito a oportunidades e remuneração) e bem-estar físico e psíquico dos atletas há tempos são debatidos, mas sobre os quais ainda há muito o que fazer. O prisma social também exige preocupação com a gestão da cadeia de suprimentos dessas entidades, ao levantar preocupações como o respeito a regras trabalhistas, direitos humanos e normas de proteção e segurança dos trabalhadores envolvidos nessa cadeia produtiva.

Por fim, quando se pensa na questão da governança (o G, de ESG) há temas em que, embora se perceba uma gradual evolução – muito em função de louváveis iniciativas como o Pacto pelo Esporte e a recente edição da Lei da Sociedade Anônima do Futebol –, há ainda pontos que precisam ser mais bem trabalhados. Essas entidades precisam se preocupar com a estruturação de órgãos de administração, ética, transparência, assim como com o relacionamento com órgãos governamentais e a prestação de contas. Outro tema que merece atenção é a criação de canais de denúncia e apuração apropriados para lidar com casos de corrupção e assédio, por exemplo.

Mas a conexão do esporte com a ESG não envolve apenas desafios complexos. O esporte pode se valer da conexão a diversas das pautas ESG como meio para canalizar investimentos temáticos que estejam alinhados com o seu propósito.

A educação e a saúde, por exemplo, caminham lado a lado com o esporte no desenvolvimento social. São diversos os estudos que demonstram a correlação entre melhor desempenho escolar e a prática esportiva, assim como relacionam a prática de esporte à melhoria dos índices de saúde de uma população.

Além disso, o esporte é pródigo em histórias de transformação social. Há inúmeros projetos sociais no Brasil que se utilizam do ensino do esporte como forma de educar crianças e transformar vidas. Pode-se falar, também do papel do esporte na inclusão. O excelente trabalho desenvolvido pelo Comitê Paralímpico Brasileiro no esporte paraolímpico de alto desempenho evidencia que o esporte pode e deve ser inclusivo, mas também que a prática esportiva pode ser uma ferramenta decisiva na inclusão da criança e do adolescente deficientes.

Outro exemplo: no Brasil, a terceira maior causa não natural de mortalidade infantil é o afogamento, que todos os anos tira a vida de cerca de 450 crianças com menos de 5 anos. Estudos comprovam que esses números podem ser drasticamente reduzidos com campanhas massivas de ensino de natação para bebês e crianças. Projetos dedicados a esse fim têm imenso potencial social, e podem, de quebra, ajudar o país a descobrir a próxima Poliana Okimoto ou o próximo Gustavo Borges.

O que é curioso é que não nos faltam exemplos de bons projetos esportivos de grande impacto social que se queixam da falta de recursos financeiros. Por outro lado, também não são raros os gestores de fundos ESG que se queixam da falta de bons projetos com impacto social para investimento. Para se apropriar desses benefícios, o esporte precisa se conectar ao mercado. Falar a mesma língua, buscar instrumentos que certifiquem o seu impacto social e suas boas práticas de gestão e governança. Isso permitirá que investidores institucionais, com fundos específicos para investimentos em questões ESG, possam acessar a indústria e, assim, financiá-la.

Como se percebe, a adesão da indústria do esporte às pautas ESG é necessária e, sob muitos aspectos, um trabalho árduo que irá castigar aqueles que não levarem o tema a sério. Por outro lado, para aqueles que souberem utilizar a inegável conexão do esporte com essas pautas, pode ser um importante meio de acessar fontes de recursos antes impensadas para essa indústria.

*Tiago Gomes é graduado em Direito e mestre em Direito Comercial pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo; Carla Guttilla Lacerda é graduada em Direito pela Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP, e cursa a Pós-Graduação em Direito Societário pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo – FGV-SP. Ambos são advogados de Ambiel, Manssur, Belfiore, Gomes, Hanna Advogados

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.