ESG: documentário ‘Seaspiracy’ pode servir de alerta para empresas

ESG: documentário ‘Seaspiracy’ pode servir de alerta para empresas

Nathalie Gil*

21 de abril de 2021 | 04h30

Nathalie Gil. FOTO: DIVULGAÇÃO

O documentário Seaspiracy, na Netflix desde março deste ano, foi uma comoção para uma parcela da população, que finalmente abre os olhos em relação à situação dos mares no mundo.

Para alguns, estas informações talvez tenham vindo com um susto, mas estes fatos infelizmente fazem parte do nosso cotidiano há décadas e ilustram bem o porquê de estarmos em guerra com o oceano.

Escravidão em alto mar, destruição de leitos com redes de arrasto, pesca predatória e morte de 40% dos animais marinhos retirados do mar pela pesca acessória: o mercado de animais em cativeiro e a aquicultura apresentam no documentário como uma falsa solução sustentável para o oceano. Certamente, Seaspiracy veio para compilar, em um formato bem compacto e impactante, algumas das principais mazelas e impactos negativos que a raça humana vem depositando nos mares e que ONGs vêm testemunhando há décadas.

O executivo brasileiro que assiste a este documentário deve pensar: mas e eu com isso? Estes problemas certamente são destinados a países como China, Taiwan e Espanha, que são os gigantes da pesca industrial no mundo? Talvez algumas pessoas devam pensar que o Brasil ainda é restrito neste aspecto.

Isto não poderia estar mais longe da verdade. Exemplos e mais exemplos de práticas insustentáveis de pesca, e também de descuido por nossa parte pela costa brasileira é algo que acontece neste exato momento.

Os gestores de sustentabilidade e, mais recentemente, o alto escalão de executivos brasileiros, têm cada vez mais aderido à chamada “Onda Verde”, tentando posicionar suas multinacionais como empresas amigas do meio ambiente. Entretanto, para realmente fazer algum tipo de diferença em relação a esses problemas, é necessário muito mais do que algumas doações esporádicas.

Como mostra o documentário, é necessário o entendimento profundo do problema, por mais que isso seja desagrádavel, e, mais importante, um posicionamento real para sua solução. Por exemplo, 98% dos peixes da Amazônia estão com plástico em seu organismo, peixes que consumimos com alta concentração de metais pesados, como mercúrio e chumbo, além de dioxinas advindos de nossas atividades poluentes de mineração e agricultura, tanto nos rios quanto nos mares. O consumo destes peixes, e da água em si, nos causa problemas de saúde severos e podem até mesmo nos levar à morte.

Em um cenário em que a sustentabilidade estivesse realmente na pauta das grandes empresas, o fato acima seria constantemente abordado pelos conselhos, certo? Entretanto, o que vemos é um efeito manada de empresas fazendo mais do mesmo e fechando os olhos para problemas reais.

Vemos o brasileiro aumentar de maneira rápida seu consumo per capita de peixes: um crescimento de 6 kg para 10 kg de peixes por ano em apenas 10 anos, segundo o IBGE.

Testemunhamos o crescimento do consumo de peixes de fora: 60% do peixe que consumimos vêm do exterior. O salmão no Brasil, por exemplo, lidera: um peixe que representa por volta de 30% das importações para o país. Em grande parte vinda da aquicultura do Chile, esta é uma prática totalmente insustentável, que cria peixes carregados de antibióticos, que ficam em tanques superpopulosos, comumente morrem asfixiados, que consomem de 3 a 9 vezes ou mais o seu peso de peixes selvagens em sua alimentação contaminam todo o ecossistema marinho onde as fazendas de criação se localizam, disseminando doenças, toxidades e espalhando este animal não-endêmico na região para afetar o equilíbrio do local.

Sabemos que pessoas comprando peixe na feira, no supermercado, restaurante e peixaria o fazem sem saber sua procedência. Há muito pouca ou quase nenhuma informação de local de origem e modo de pesca. Muitos até são enganados pela venda de peixes com nomes errados. Em estudo realizado pelo MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), há estados que vendem até 40% dos peixes com nome errado para seus compradores. Além disso, tubarões em risco de extinção e peixes ilegais como a piracatinga sendo vendidos com nomes ‘eufemizados’ para o consumidor final, como cação e douradinha, respectivamente.

Estamos diante de um contexto onde as autoridades não priorizam o tema e os líderes de empresas precisam tomar a dianteira da situação.

Todos estes exemplos são rodeados por um mesmo princípio: a visão antropocêntrica que temos sobre o planeta. A visão que o oceano está aí para nos servir. O tratamento do oceano e a vida marinha como fonte infinita de recursos. A percepção que os animais marinhos são feitos como nossa fonte de alimento.

Com a situação do oceano hoje, não existe pesca sustentável. O oceano é um só e as práticas insustentáveis que acontecem no mundo inteiro também afetam o nosso bem-estar e o nosso futuro. Assim como nossa capacidade de destruição é imensa, também pode ser nossa capacidade de regeneração. Temos que decidir agora se nossas escolhas, sejam elas individuais, como organizações ou como humanidade, alimentarão este caminho sem volta ou se terão como foco a restauração desta que é uma de nossas maiores esperanças para a sobrevivência humana na Terra.

*Nathalie Gil é diretora de desenvolvimento da Sea Shepherd no Brasil

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