ESG avança a passos lentos no Brasil

ESG avança a passos lentos no Brasil

Daniel Maranhão*

11 de novembro de 2021 | 08h00

Daniel Maranhão. FOTO: DIVULGAÇÃO

Há uma tendência mundial de se considerar os aspectos ESG (social, ambiental e governança) na tomada de decisão em grandes empresas, não apenas por se tratar de temas importantes para uma região, um estado ou país, mas principalmente porque os investidores e ou consumidores começam a olhar esses aspectos como uma condição para investir ou consumir de determinada empresa.

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Essa preocupação com questões à margem do principal negócio da organização já é fortemente difundida em companhias europeias e vem ganhando terreno nos Estados Unidos, mas, no Brasil, o movimento ainda engatinha.

A recente pesquisa realizada pela Grant Thornton, em parceria com a XP Inc. e a Fundação Dom Cabral, com empresas de capital aberto, apurou que 75% dos participantes consideram ESG como prioridade, mas apenas 14% levam em conta esses aspectos na tomada de decisões. Isso mostra o longo caminho ainda a ser percorrido para que ESG seja tratada de forma estratégica, ligada diretamente aos negócios da empresa. A boa notícia é que 86% dos entrevistados concordam que a organização poderá sofrer impacto negativo no futuro, caso não adote uma gestão que leve em consideração essas questões.

No momento, segundo a pesquisa, o que motiva as empresas a investirem em ESG é a preservação da reputação (24%) e a exigências de acionistas e conselheiros (18%), enquanto fatores ligados a menores riscos e maiores retornos são percebidos apenas por 13% e 11% dos entrevistados, respectivamente. No entanto, 43% das empresas dizem já ir além das questões de compliance, num avanço proativo quanto às questões socioambientais.

Ao contrário do que já ocorre em outros países, os empresários brasileiros ainda não veem o acesso ao mercado de capitais e a redução de custos de capital – temas em plena discussão no mercado – como benefícios diretos de ESG. Para eles, a valorização da marca e o aumento da reputação são os principais ganhos, seguidos da redução de riscos e atração de talentos.

Está claro que, na grande maioria das organizações brasileiras, o que motiva a inclusão da sustentabilidade na agenda de decisão executiva ainda é a pressão pelo compliance e questões ligadas ao risco de reputação e à valorização da marca. Mesmo com o aumento na conscientização das organizações, impulsionado pela pandemia de covid-19, essa agenda ainda é reativa e precisa avançar rapidamente.

Um fato importante é que, dos diversos setores pesquisados, 100% das empresas de finanças consideram os aspectos ESG entre seus temas prioritários. Isto mostra a relevância do tema para o mercado financeiro, no qual a máxima “risco ESG é risco financeiro” já está consolidada. Traz também um alerta para as demais empresas, que não incluem o tema em suas decisões estratégicas, pois investidores de fundos de investimentos internacionais (25%) e nacionais (23%) são os que mais demonstram interesse nessa agenda.

A partir desses resultados, a questão que fica é: existe fórmula para acelerar o processo de implantação de ESG? Não, cada empresa deve considerar esses aspectos a partir de seu próprio negócio. O principal foco para uma companhia do setor agrícola é muito diferente de outra do setor automotivo ou de finanças, por exemplo. Em todos os casos, o importante é estabelecer metas socioambientais e envolver a organização com essa agenda, a começar pela direção da empresa, passando pelos gestores e colaboradores.

É recomendável, ainda, criar uma área específica para tratar das questões ESG, de forma a acompanhar a tendência mundial, frisando mais uma vez que o envolvimento da alta gestão da companhia é essencial nesse processo. Outro ponto crucial é a adoção de uma política corporativa que contempla de maneira ampla os aspectos socioambientais refletidos no planejamento e gestão, que servirá, inclusive, para identificar e priorizar os riscos e oportunidades ESG.

Não se pode esquecer também dos indicadores, pois, apesar do evidente aumento nas demandas por divulgação dos dados ESG, a aplicação eficiente das métricas e parametrizações desses aspectos ainda não está devidamente estabelecida. E, sem métricas, a empresa não consegue medir seus impactos sociais e ambientais, nem definir metas futuras para o avanço de sua agenda.

Finalmente, para incentivar as práticas ESG e reforçar o comprometimento com as metas estabelecidas, a empresa pode vincular o alcance das metas com a remuneração dos executivos. Tal iniciativa aparece de forma ainda tímida nas empresas, mas pode se transformar em uma ferramenta importante na aceleração desse processo.

Seja qual for o caminho, é fundamental encarar os aspectos ESG com seriedade e agilidade, para não correr o risco de perder espaço no mercado por falta de ação.

*Daniel Maranhão é CEO da Grant Thornton Brasil

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