Escutem as mulheres

Escutem as mulheres

Aline Mendes e Patrícia Florêncio*

16 de julho de 2020 | 08h15

Aline Mendes e Patrícia Florêncio. Foto: Divulgação

Duas notícias jogaram luz ao debate de gênero nos últimos dias.

A chanceler alemã, Angela Merkel, e a ministra da Família e das Mulheres, Franziska Giffey, lançaram na semana passada o “Forte para o Futuro”, o plano nacional para promover a igualdade de gênero que estabelece metas para todos os departamentos do governo. Isso mesmo, TODOS! Para Giffey, o tema não pode ser mais vista apenas como uma questão para o Ministério das Mulheres, mas uma realidade para todos os ministérios. 

No dia seguinte, a Organização das Nações Unidas publicou um relatório sobre os impactos da covid-19 na América Latina e no Caribe. O documento revela que a crise afetará mais severamente as mulheres. Os motivos são vários, os números falam por si e a realidade nos escancara esse fato. 

Alguns dados: as mulheres têm maior probabilidade de trabalhar em ocupações informais do que os homens. Quando se fala do enfrentamento à covid-19, elas estão mais expostas, uma vez que representam 72,8% da força de trabalho de assistência médica. Também são mais de 60% da mão de obra nos setores de hotelaria e serviços de alimentação. Além disso, o confinamento colocou pressões adicionais sobre as mulheres, como o aumento de feminicídio e da violência sexual e de gênero. 

A maior presença feminina em cargos de gestão foi apontada como um dos desafios da mais recente Sessão da Comissão da ONU sobre a Situação das Mulheres, realizada em março, em Nova York. 

Com um novo cenário imposto pela covid-19, a ONU Mulheres já alertava em abril sobre a necessidade de se aplicar uma lente de gênero nas ações de enfrentamento à pandemia, a começar pela presença de mulheres nos gabinetes de crise. Os países governados por mulheres, incluindo a Alemanha de Merkel, tiveram resultados melhores no enfrentamento do novo coronavírus. Conseguiram conter as mortes, manter os serviços de saúde sem colapso e levar suas nações mais rapidamente rumo à retomada econômica. 

Porque ainda as mulheres estão sub-representadas em cargos de liderança? Já passou da hora de serem protagonistas na tomada de decisões. Além de se tratar de igualdade de oportunidades entre homens e mulheres, tem relação com a representatividade de uma maioria que ainda é minoria. Por isso, o apelo: lideranças políticas e gestores públicos, apliquem a perspectiva de gênero para reduzir as desigualdades e implementar políticas públicas mais eficientes. 

Assegurem assentos às mulheres. 

Deem voz às mulheres. 

Escutem as mulheres. 

Temos muito a contribuir. 

*Aline Mendes é jornalista e assessora parlamentar de comunicação. Patrícia Florêncio é gestora pública e mestre em e-gov e inovação. Ambas são cofundadoras da Rede Mulheres Públicas.

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