Escritório confirma reuniões entre Bendine e delatores

Para Marcelo Odebrecht, encontros às escondidas sugeriam que ex-presidente da Petrobrás estaria pedindo propinas; Já Aldemir Bendine relata conversa em tom de 'ameaça' com Emílio, patriarca do grupo

Luiz Vassallo

08 de dezembro de 2017 | 05h04

Reprodução.

O escritório de advogacia Mattos Filho confirmou ao juiz federal Sérgio Moro três reuniões, em suas dependências, entre o ex-presidente da Petrobrás Aldemir Bendine, André Gustavo Vieira da Silva, apontado como seu operador de propinas, e executivos da Odebrecht. Ele é acusado de receber R$ 3 milhões da empreiteira. O publicitário denunciado por  supostamente ser seu longa-manus tenta delação premiada e confessou ter operacionalizado repasses. De acordo com André e os empresários da Odebrecht, os encontros no escritório teriam se dado para o acerto de supostas propinas.

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O escritório afirma que nenhum de seus funcionários esteve presente nas reuniões e que seu teor é desconhecido. Os advogados relatam datas e participantes.

“Houve 3 reuniões ao todo, realizadas nos escritórios mantidos pelo Mattos Filho, todos na cidade e Estado de São paulo, sendo: (a) 2 (duas) na Alameda Joaquim Eugênio de Lima 447, 8º ou 9º Andar, nos quais se situam as salas de reunião; e um na rua Campo Verde, 61, 3º Andar”.

“Todas as reuniões foram agendadas pelo Sr. Fernando Luiz Ayres da Cunha Santos-Reis, executivo da Odebrecht. Por ocasião dos respectivos agendamentos, o Sr. Fernando informou que os participantes das duas primeiras reuniões seriam os Srs. Marcelo Bahia Odebrecht, Fernando Santos-Reis e Aldemir Bendine; e que a última seria atendida pelos Srs Emílio Alves Odebrecht, Newton Sérgio de Souza (então presidente da Odebrecht S.A), Fernando Luiz Ayres da Cunha Santos-Reis e Aldemir Bendine”, completa.

De acordo com Marcelo Odebrecht, as reuniões em escritórios de advocacia e na casa de André Gustavo representavam ‘sinais’ de que o ex-presidente da Petrobrás estaria pedindo propinas. “Não fazia nenhum sentido Fernando Reis, via André Gustavo, marcar reuniões com o Bendine. Eu conhecia ele. Claramente não estava lá como presidente da Petrobrás. Não queria reuniões oficiais”.

Já Bendine dá outra versão. Ele narra uma reunião ‘oculta’ com Emílio.

“Nesta época, Marcelo Odebrecht já estava preso. O encontro deveria ser realizado ou na Petrobrás ou em algum lugar publico ou neutro. Esse encontro ocorreu no final de setembro no escritório de advocacia Mattos Filho, em São Paulo, onde se tratou de uma reunião tensa com reclamações pesadas por parte do grupo em função de uma série de cancelamentos de negócios.”

À PF, Bendine ‘confessou que naquele momento, mesmo não explicitamente, se sentiu ameaçado pelo tom da conversa’.

Os investigadores questionaram o ex-presidente da Petrobrás ‘se não considerava impróprio fazer reunião em local oculto ao invés de realiza-la na sede da Petrobrás’.

“Os proponentes (do encontro) não quiseram ir na sede da empresa (Petrobrás), dado que o depoente havia implementado uma série de medidas de identificação, controles de pessoas estranhas ao quadro em prédios da Petrobrás”, respondeu Bendine.

Cobra. Aldemir Bendine foi preso no dia 27 de julho, alvo da Operação Cobra, 42ª fase da Operação Lava Jato, e foi denunciado por supostas propinas de R$ 3 milhões da Odebrecht. André Gustavo Vieira da Silva foi apontado como operador do repasse ao ex-presidente da Petrobrás.

De acordo com os delatores da empreiteira, inicialmente, enquanto presidente do Banco do Brasil, o valor de R$ 17 milhões, correspondentes a 1% do valor de uma dívida que teria sido renegociada na Instituição financeira.

André Gustavo Vieira da Silva também corrobora com a versão. Ele diz ter indicado um taxista para buscar os R$ 3 milhões a Bendine junto a interpostos da Odebrecht, mediante a entrega de senhas – procedimento adotado pelo departamento de propinas da construtora. Segundo o publicitário, do total, R$ 950 mil foram repassados a Bendine.