Escrever para sobreviver

Escrever para sobreviver

José Renato Nalini*

04 de abril de 2022 | 06h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIELA RAMIRO/ESTADÃO

Esta expressão: “escrever para sobreviver” suscita algumas indagações. Será que estamos pensando em quem vive de escrever, sobrevive da escrita? Por exemplo, os jornalistas encarregados de preencher aquele espaço diariamente convertido em jornal? Ou os autores de livros didáticos, obrigados a transmitir aos alunos informações consideradas úteis e inclusas nos currículos oficiais?

Não. Estou falando em quem escreve como respira. Aquele que é mais rápido na digitação do que na oralidade. Aquela cabeça plena de ideias que vão se modificando à medida em que se tornam palavras, depois frases, parágrafos, páginas e mais páginas. Adquirem vida própria, fogem ao controle de quem as emite. Deixam de pertencer a quem as imaginou e seguem seu próprio caminho.

Esta nossa era não é propriamente a mais indicada para permitir sonhos dourados. Não bastasse a indigência moral que destrói o único ambiente disponível, uma peste vai matando inclemente sem critério. Embora o ufanismo procure rotular a pandemia de endemia, as mortes vão se sucedendo e, seguramente, chegarão ao milhão de seres ceifados por uma doença que tem vacina eficiente.

A praga afligiu ainda mais, principalmente os que já eram aflitos pelas carências materiais. A miséria escancarou-se. O desemprego continua em alta. A violência recrudesceu. A inflação voltou. E as vulnerabilidades brasileiras se mostraram em toda a sua trágica expressão.

O Brasil produz comida para gado estrangeiro, mas não é autossuficiente em alimento humano. Embora pudesse produzir trigo, prefere comprar. As previsões são sombrias: faltará trigo e, com ele, faltará o pão. Nem se pode falar em mandar pobre comer brioche, porque ele nem sabe o que é brioche.

Para culminar, aquilo que parecia impossível ou pelo menos distante para quase todos os que não se esqueceram de dois conflitos mundiais no século 20, aconteceu. A insanidade humana continua a guerrear. Nos moldes convencionais, de armamento pesado, de homens nas frentes de batalha, de tanques derrubando edifícios e esmagando pessoas.

Enquanto isso, o Parlamento continua a sua lida “para lamentar”. Capricha em orçamento secreto. Cria “Fundões”, tanto partidário, como eleitoral. Afinal, eleições e reeleições são mais importantes do que assegurar ao povo sofrido o mínimo de dignidade.

Nesse ponto é que a lucidez nacional encontra nas letras refúgio e lenitivo. Daqui a cem ou duzentos anos, se a humanidade conseguir sobreviver e não perecer nessa inacreditável sanha suicida que prossegue na destruição do seu habitat, os pesquisadores encontrarão material instigante para reconstituir o que foi esta primeira metade do século 21 da era Cristã.

Ao lado das análises cruas da triste realidade, haverá o relato de gestos altruísticos. A sociedade não é apenas hobbesiana: não é a totalidade dos homens que se propõe a ser loba do seu semelhante. Há os que se condoem com a dor alheia e procuram minimizá-la. Existe sensibilidade que explica o voluntariado, a busca de abrigo material e espiritual aos desvalidos. Abrem-se portas, embora ainda insuficientes, para os refugiados.

Há quem vislumbre que os refugiados não serão apenas os que fogem da guerra na Ucrânia, que já ultrapassam cinco milhões. A cada dia, cento e cinquenta mil pessoas tentam sair da sangrenta zona do conflito. Haverá refugiados ambientais. Os que deixam seus desertos em busca de oásis, cada vez mais raros, cada vez mais cercados e reservados aos originais ocupantes dessas áreas.

Escrever, nessa quadra melancólica da história humana é a forma de sobrevivência que os que podem escolhem. Transmitir para a tela do computador suas emoções, a sensação de estar vivo, de lamentar o estágio miserável em que a raça humana se encontra, é aquilo que resta para muitos. “Escrevo como respiro”, dizem alguns escritores. Mas não é preciso ser escritor para tentar mitigar o vácuo deixado naquele território anteriormente habitado pela esperança, hoje reservado a cogitações de nostalgia: como foi que chegamos a este estágio? Terá razão aquele que pensa que o projeto humano é um fracasso, do qual o Criador se arrepende?

Escrever é a alternativa ao mergulho no desespero. Escrever para sobreviver e alimentar aquela tênue e fugaz expectativa de que amanhã seja um dia menos triste do que hoje.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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