Escravidão, negritude e o protagonismo dos anônimos

Escravidão, negritude e o protagonismo dos anônimos

Paulo Stucchi*

18 Novembro 2018 | 12h00

Paulo Stucchi. FOTO: DIVULGAÇÃO

A história é composta por inúmeros episódios que dão voz aos vencedores e, por conseguinte, são recontados sob a óptica de suas elites sociais e econômicas (no Brasil e na América Latina, esses dois agentes – social e econômico – se misturam em uma simbiose quase impossível de desassociar). Contudo, à sobra das versões oficiais dos livros de história e dos heróis nacionais, há sagas não contadas de personagens e heróis anônimos – e que permanecem desconhecidos senão por iniciativas esporádicas.

No Brasil, o caso mais emblemático é o do negro – a etnia mais sofredora entre todas as outras que colaboraram para compor o mosaico de nossa cultura e sociedade multicolorida. E, entre inúmeros episódios que podem ser relembrados e desnudados para que se atribua o devido valor à participação muitas vezes de protagonista dos negros, está a Guerra do Paraguai.

Divisor de águas entre o estado agonizante em que caiu a Monarquia, o vigor do movimento abolicionista (e seus tortuosos caminhos) e a República, o conflito que uniu Brasil, Argentina e Uruguai contra o vizinho Paraguai de Francisco Solano López foi, quase todo, potencializado e vencido graças à participação de negros e mulatos, maioria das fileiras do Exército Imperial.

Não se tem um consenso sobre o total de negros que compuseram o corpo militar brasileiro, tampouco a real origem destes – se eram escravos ou homens livres, recentemente alforriados. Focando-se apenas em dados reais, é sabido que a enfadonha campanha pelos “Voluntários da Pátria” (movimento que visava apelar para o patriotismo e encorpar as fileiras do exército do Brasil no front paraguaio e nas terras de Mato Grosso), é sabido que tornara-se prática comum entre os mais abastados darem dinheiro em troca do alistamento “à força” (que nada tinha de voluntarismo), ou enviar empregados e escravos no lugar de seus parentes ou de si.

De qualquer modo, é inegável que o exército brasileiro, vitorioso no Paraguai, era formado por mestiços e negros. Estima-se que cerca de 100 mil negros (escravos libertos ou escravos alistados com a promessa de alforria) morreram no conflito. Historiadores, como Julio José Chiavenatto, afirmam que a Guerra do Paraguai serviu também como forma de “embranquecer” a população brasileira.

Mas, por que afinal os negros teriam sido os reais heróis desse conflito, ainda que os títulos expoentes tenham caído sobre os ombros de oficiais brancos? Trata-se de uma questão matemática. Em 1864, ano em que a guerra começou, o Brasil Império dispunha apenas de um contingente de cerca de 25 mil homens da Guarda Nacional, ligada à elite abastada e inexperiente em combates da proporção que obteve o choque contra o país de Solano López.

Os primeiros meses de guerra trouxeram a fácil vitória paraguaia, mas, por erro estratégico de López, o conflito deixou o território brasileiro e passou a ocorrer em terras paraguaias, estendendo-se mais do que o contingente guarani podia suportar. À época, o Paraguai, um país pequeno e pouco povoado, dispunha de 400 mil habitantes (ainda que o número exato não seja confirmado), em sua maioria, índios guaranis que habitavam o interior do país e não falavam espanhol. Ou seja, um conflito de longa duração minaria as possibilidades do exército de López de repor seu contingente – fato este superado pelo Brasil através do alistamento forçado de negros, mulatos e pobres, com pouca experiência em batalha, mas em maior número.

Pode-se afirmar que a vitória pelo braço negro deu-se, assim, menos pela habilidade de batalha, e mais pelo fato de este representar uma opção rápida e imediata de preencher as trincheiras – o que é comprovado pela determinação do Imperador, na época da guerra, de se aumentar a compra de escravos pelo Brasil.

Na mesma proporção que o negro foi decisivo para a vitória do lado do Império, também é notória a injustiça com que o assunto é tratado pela história oficial. Se há um real protagonista do lado brasileiro no conflito, que se estendeu de 1864 a 1870, ele tem pele escura.

Interessante notar que essa percepção (do herói anônimo e injustiçado) não pende somente para o lado de cá.

Durante minha primeira grande viagem ao Paraguai, em 2001, quando levantava o material que, posteriormente, serviria de base para meu romance Menina / Mitacuña, escutei, de um garçom do finado Hotel Paraná em Assunção, que também lá, assim como cá, a herança não-branca (no caso, bugre, indígena) era jogada para debaixo do tapete. Oras, é sabido que o lado paraguaio era maciça a presença de índios e mestiços (e, também, alguns poucos negros, lá chamados de cambá).

Mas o que o jovem garçom chamado Nilson me disse naquela época reafirmou que é preciso dar voz e vez aos heróis reais que, mesmo em condição de menor-valia, colaboraram, muitas vezes com a vida, para a construção dos alicerces sobre os quais dorme nosso presente.

No meu livro, Menina, dedico uma humilde homenagem a esses heróis, trazendo dos protagonistas que sintetizam o povo excluído de ambos os países – o soldado negro brasileiro, e a mulher indígena paraguaia.

É pouco, mas uma tentativa de colocar uma nova lente sobre um único episódio (de muitos) que ilustra a injustiça que até hoje persiste em relação à nossa herança negra-africana.

*Paulo Stucchi atuou como redator, jornalista responsável e editor em jornais impressos e revistas. Também foi professor e coordenador de curso de Comunicação. Atualmente, divide seu tempo entre o trabalho como assessor de imprensa e sua paixão pela literatura, história e psicanálise

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