Escolhas de Joe Biden contra Trump podem influenciar oposição a Bolsonaro em 2022

Escolhas de Joe Biden contra Trump podem influenciar oposição a Bolsonaro em 2022

Lucas Wosgrau Padilha e Pedro Vormittag*

02 de setembro de 2020 | 08h15

Pedro Vormittag e Lucas Wosgrau Padilha. Foto: Divulgação

O mês de agosto se encerrou, nos Estados Unidos, com as Convenções dos Partidos Democrata e Republicano, com o início formal à corrida pela Casa Branca em 2020. A reeleição de Donald Trump é desafiada pelos democratas Joe Biden — ex-Vice Presidente de Obama —, e sua companheira de chapa Kamala Harris — Senadora pelo Estado da Califórnia. Em uma Convenção realizada virtualmente e pensada com cuidado para conquistar corações e mentes até novembro, os democratas apresentaram ao eleitorado um ambicioso arco de alianças pró-Joe Biden. O desfecho da corrida presidencial terá repercussão mundial, influenciando, inclusive, a política brasileira.

Enquanto isso, no Brasil, Jair Bolsonaro jamais escondeu sua admiração pelo estilo de Donald Trump. Por esta razão, apesar das diferenças essenciais entre os processos eleitorais brasileiro e norte-americano, a influência que Trump exerce sobre Bolsonaro transforma o pleito que começa a acontecer nos Estados Unidos em verdadeiro laboratório do que podem ser as tendências do discurso eleitoral no Brasil de 2022.
A Convenção Democrata, realizada entre os dias 17 e 20 de agosto, sincronizou 8 horas de transmissões ao vivo em dezenas de lugares diferentes, fazendo do distanciamento social parte de sua mensagem. Já a Convenção Republicana, realizada entre os dias 24 e 27 de agosto, optou por locações históricas e não priorizou o distanciamento ao aglomerar centenas de pessoas na Carolina do Norte, Maryland e 1.500 pessoas, a maioria sem máscara, no quintal da Casa Branca para o discurso final de Donald Trump.

Em qualquer eleição, é natural que candidaturas se esforcem para aglutinar o maior número possível de forças políticas. Nos Estados Unidos de 2020, porém, a chapa Biden-Harris tem unido campos historicamente rivais e diametralmente opostos, cristalizando um arco de alianças que seria considerado utópico poucos anos antes.

Colin Powell, ex-Secretário de Estado de George W. Bush e John Kasich, ex-Governador de Ohio — um swing state — não hesitam em manifestar apoio ao candidato do partido rival.

John McCain, candidato republicano à Casa Branca derrotado por Obama e falecido em 2018, é homenageado pelo amigo e adversário Joe Biden como ícone da resistência republicana contra Trump. A mensagem foi clara: valores e compromissos podem pontificar alianças improváveis em nome de agendas negligenciadas – senão desmontadas – por Trump. McCain foi o fiel da balança na votação do Congresso Americano que garantiu a manutenção do Affordable Care Act — política de saúde que se tornou um dos principais legados do governo de Obama —, esforço legislativo liderado por Biden, então Vice-Presidente e, portanto, Presidente do Senado Americano.

O esforço republicano anti-Trump é coroado pelo Lincoln Project, comitê de ação política (PAC) formado por antigos e atuais republicanos com o objetivo declarado de provocar a ira de Trump com insinuações sobre sua capacidade física e mental de governar os Estados Unidos.
Do outro lado do espectro político, Bernie Sanders, o Senador independente cuja agenda à esquerda chacoalhou o partido ainda em 2016, volta com ainda mais força em 2020 e, embora novamente derrotado, crava apoio inequívoco ao ticket Democrata já no primeiro dia de Convenção. O engajamento dos democratic socialists — nomenclatura que nos Estados Unidos equivale à social-democracia no resto do mundo — é vital para aumentar o comparecimento às urnas em swing states, sem o qual o pleito democrata perde competitividade.

Sem prejuízo de discordâncias sobre a agenda ideal de um governo pós-Trump, as forças que compõem a coalizão Biden-Harris estão alinhadas sobre o que fazer em novembro. A Convenção Democrata se posicionou como um evento suprapartidário ao lançar luz sobre os primeiros sinais de uma frente ampla contra Donald Trump.

As centenas de vídeos no evento democrata foram pensadas como táticas capazes de alinhar um discurso de unidade de ação. À religiosidade, por exemplo, é dada centralidade sem precedentes em uma campanha democrata, abrindo caminho para a adesão de um eleitorado cristão tradicionalmente republicano e potencialmente insatisfeito com as decisões de Trump. Em termos programáticos, o foco não é dado às propostas concretas, cuja moderação poderia desmotivar engajamentos à esquerda ou cujo progressismo poderia constranger votos críticos à direita.

Muito mais do que as ousadas agendas do green new deal ou o Medicare for All, são a história de Kamala e o caráter de Joe as bandeiras democratas até aqui. A escolha dialoga com as pesquisas que indicam que Trump ainda é bem avaliado em sua política econômica. O slogan Build Back Better anuncia alguma agenda para a economia mas é, sobretudo, a antítese do antológico Make America Great Again de Trump.

Mas os Estados Unidos de 2020 não são o Brasil de 2022. Ainda que a campanha Biden-Harris possa oferecer inspirações e táticas eleitorais úteis às oposições brasileiras a Bolsonaro, as diferenças essenciais entre o sistema político-eleitoral brasileiro e o estadunidense não podem ser esquecidas.

Nos Estados Unidos, arranjos institucionais condicionam – ainda que não determinem – a formação de frentes amplas. O sistema bipartidário cria barreiras à entrada de candidatos independentes criando uma polarização que, por consequência, reduz os custos para formação de alianças. As eleições primárias, ainda, expõem o partido ao escrutínio popular de suas teses e líderes muito antes do calor eleitoral: alianças são forjadas ao longo do tempo e construídas com base em desistências e apoios ainda durante a disputa intrapartidária. Neste sentido, o processo tem efeitos similares ao primeiro turno das eleições presidenciais brasileiras, mas os custos são menores e os partidos se fortalecem antes mesmo do pleito geral.

A combinação entre os custos proibitivos à multiplicação de candidatos e o processo de fortalecimento partidário por meio da escolha pública de suas candidaturas é terreno fértil para frentes amplas. No Brasil, por outro lado, a multiplicação de chapas e a criação de partidos dispensa os processos políticos pré-eleitorais como parte da formação de candidaturas.

Experiências passadas mostraram que, no Brasil, os custos para formação de frentes amplas no primeiro turno (ou antes) demandam criatividade política e altos níveis de articulação entre partidos e movimentos. Em 2018, figuras como Fernando Henrique Cardoso, Roberto Freire e Cristovam Buarque procuraram costurar um consenso que permitisse o surgimento de uma candidatura única ao centro. A frente ampla não se formou, e Geraldo Alckmin, o candidato com o maior arco de alianças partidárias, ficou longe do segundo turno.

No contexto do governo Bolsonaro, a agenda da unidade passou a ser pautada pelas esquerdas partidárias, representadas por Boulos, Ciro, Haddad e Dino, os principais atores a discutir as condições necessárias para uma frente ampla competitiva em 2022. O exemplo democrata, no entanto, aponta que a unificação da esquerda, ainda que necessária, não é suficiente para a formação de uma frente.

Ainda assim, não é apenas de virtudes pessoais ou elementos estruturais que a potência unificadora percebida na convenção é feita. Um sentimento de urgência raro na consciência política norte-americana, fruto da preocupação com as crises sanitária, econômica e racial vividas no país, fazem com que as oposições a Trump não hesitem em aceitar Biden como a oportunidade irresistível de fazer de Trump um presidente de um só mandato – o que não acontece desde 1993 quanto Clinton derrotou George H. W. Bush.

Os assassinatos de pessoas negras como George Floyd e Breonna Taylor por policiais chacoalham as ruas das cidades americanas, de Portland à capital Washington, palco na semana passada de manifestações que preencheram cartões postais da cidade, como os Monumentos a Lincoln e Washington, ecoando os atos liderados por Martin Luther King nos anos 1960. Joe Biden e Kamala Harris lembram o movimento Black Lives Matter em seus discursos, cobrando de Trump a menção aos nomes das vítimas e uma clara declaração de vidas negras importam.

Ao mesmo tempo, a chapa democrata critica protestos violentos, sinalizando para comunidades brancas suburbanas que as mudanças necessárias acontecerão, mas por meio de atos legislativos que reforcem a ordem pública – não ação direta. A mensagem é empática às demandas por transformação, ao mesmo tempo em que não aliena o eleitorado que poderia se abster ou votar em Trump, caso a candidatura não fizesse ressalvas aos movimentos das ruas.

No Brasil, questões estruturais estão mais explícitas do que nunca. No esforço de articulação de denominadores comuns e de perspectivas sobre a história do Brasil, a luta histórica do movimento negro, que encontrou novas vozes em Djamila Ribeiro, Thiago Amparo, Sílvio Almeida e Adilson Moreira, oferece críticas e propostas que são insumos essenciais à formação de uma frente ampla de oposição a Bolsonaro. As crises da COVID, no Brasil, porém, acontecem dois anos antes da eleição presidencial. É improvável que a conjuntura atual influencie, de maneira determinante, o clima eleitoral de 2022. Nem por isso, porém, a construção de uma frente ampla brasileira deve prescindir do momento histórico de 2020.

O arco plural de alianças que sustenta Biden à frente nas pesquisas ensina que a mera unidade das esquerdas, ou do establishment, não é suficiente para a vitória. Assim como o partido Democrata aprendeu com sua derrota em 2016, é necessário que as forças políticas brasileiras revisitem suas estratégias em 2018 de maneira a depurá-las para 2022.

A eleição em curso nos Estados Unidos influenciará os esforços da oposição na eleição brasileira. Uma vitória de Biden não causará uma derrota de Bolsonaro em 2022. Mas a lição da campanha democrata que fica para a política brasileira, até agora, é a mobilização da história e dos valores nacionais como protagonista da campanha, sem dar menos prioridade aos movimentos e narrativas que questionam problemas estruturais dos Estados Unidos, como o racismo.

*Lucas Wosgrau Padilha, advogado, mestrando e pesquisador na Universidade de Pequim, tem formação complementar em Relações Internacionais e pós graduação em Direito Econômico pela FGV.

*Pedro Vormittag,  Formado em Direito pela Universidade de São Paulo e mestrando em Gestão Internacional pela Fundação Getúlio Vargas, Lemann Fellow aceito na School of International and Public Affairs (SIPA) da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos.

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