Escolha como se fora um sócio

Escolha como se fora um sócio

José Renato Nalini*

25 de outubro de 2020 | 11h00

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

Aproxima-se o dia em que teremos de escolher vereador e prefeito. Alguns já fizeram sua opção. Outros estão indecisos. Mas o importante é votar. E votar bem. Isso significa escolher alguém. Não votar em branco ou anular o voto. Isso em nada contribui para aprimorar a Democracia.

É possível exercer o sufrágio de forma a não se arrepender?

A experiência de grande parte do eleitorado diria que é inviável. Basta alguém passar a exercer poder e autoridade e o desgaste é o resultado natural. O poder desgasta. Não há exceção. Que o digam os políticos que se consideram injustiçados. É que as necessidades são infinitas e as possibilidades de atendimento muito reduzidas.

Colabora com o desprestígio da democracia representativa, o ranço burocrático da máquina pública. A despeito da existência de nichos excepcionais de excelentes funcionários, a impressão que se tem, é a de que todas as estruturas estatais estão repletas de incompetência.

Tudo é lento, custoso, complicado, ineficiente.

Comparar os partidos? Eles são praticamente iguais. Assim não fora e não haveria esse fenômeno bem brasileiro que é a troca de legendas. Com frequência maior do que a troca de roupas. Basta verificar o currículo eleitoral de muitos candidatos: começou ali, passou por acolá, hoje está nesta agremiação. Ninguém pode garantir continuará nela para os próximos pleitos. Leia-se a normativa estatutária dos Partidos. Expressão da lei de Lavoisier.

O que fazer então?

Sempre haverá um pouco de álea na escolha. Há um excesso de oferta e a propaganda intensificada pelas redes torna tudo um pouco parecido e bastante confuso. A tônica tem sido excluir o adverso. Caprichar na demolição de sua reputação. O advento das fake News, velha praxe com apelido novo, não facilita a definição.

Talvez fosse interessante exercitar um raciocínio que raramente está em nossa agenda eleitoral.

Por que não votar em alguém que poderíamos escolher para sócio?

Um sócio é alguém que partilha não apenas de nosso pensamento, de nossa orientação para as coisas da vida, mas vai partilhar ainda de nossa intimidade. É alguém a quem se faz confidências. Alguém que passa a nos conhecer por dentro: nossas angústias, incertezas, apreensões. Nossas questões familiares.

Sócio é mais do que parente. O parentesco civil é consanguíneo e por afinidade. Mas a sociedade é algo mais próximo à amizade: escolhe-se por uma série de circunstâncias. É quase a seleção afetiva de alguém com quem nos identificamos bastante, o “parente escolhido”. Já não se disse, e com certa razão, que “parente é acidente”? Enquanto isso, com amigos não se poderia errar.

Com vereador e prefeito, deveria acontecer a mesma coisa. Ele (ou ela) precisa ser alguém a quem eu tenha acesso. A quem eu possa elogiar, mas também criticar. Alguém a quem eu confiaria metade do meu patrimônio.

Você já tentou fazer esse exercício em relação aos seus candidatos? Você conviveria com o seu escolhido? Traria essa pessoa para a sua casa? Confiaria a ele os seus segredos? Emprestaria dinheiro a ele? Gostaria de que ele se tornasse um parente por afinidade, por exemplo: deixaria sua filha se casar com o filho dele? Ou vice-versa?

São operações mentais que talvez possam ajudar a escolher. Agora, lembre-se de que é preciso muito mais. Seu candidato tem competência técnica para enfrentar os problemas cada vez mais complexos de uma cidade que está, como todas as outras, imersa em dificuldades?

A pandemia arremessou toda a sociedade brasileira numa crise que, ao que parece, ou conforme os especialistas, demorará décadas para a superação. Por isso é muito importante colocar à frente do poder público em seu município, pessoas confiáveis. Aqueles que têm condições de fato de enfrentamento da situação caótica, sem recursos financeiros suficientes, com o agravamento da questão ambiental, com o boicote internacional dos que também estão sufocados, mas que se valem de outros argumentos para deixar de investir em país periférico.

O Brasil precisa de gente forte, de bem, vigorosa e corajosa. Além de tudo, com dose infindável de otimismo, pois o que virá não é para diletantes. As eleições de novembro de 2020 têm a terrível tarefa de selecionar heróis. Você já escolheu o seu herói? Aceitaria tê-lo como sócio?

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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