Escola de tiranos

Escola de tiranos

José Renato Nalini*

12 de fevereiro de 2022 | 08h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

Emil Cioran (1911-1995), o filósofo romeno que passou a maior parte de sua vida na França, escreveu obras de angústia, como “O silogismo da amargura”. No livro “História e Utopia”, tem um texto que chamou “A escola dos tiranos”. Escreve que aquele que não foi tentado a ser o primeiro na cidade, nunca entenderá o jogo político. Este é “a vontade de submeter os outros para convertê-los em objetos”, algo que se realiza mediante o exercício da arte do desprezo. Quem despreza os semelhantes e é movido pela sede de poder, converte-se em monstro perigoso.

A sede de poder é algo natural, “mas, examinando-a bem, esta sede adquire todas as características de um estado doentio do qual só nos curamos por acidente, ou então por uma mutação interior”.

A ambição atormenta e causa febre e acessos. Cioran fala aos ambiciosos: “Constatarás que eles – os acessos – são precedidos por sintomas curiosos, por um calor especial que não deixará de seduzir-te nem de alarmar-te. Intoxicado de futuro por haver abusado da esperança, te sentirás subitamente responsável pelo presente e pelo futuro, no coração da duração, carregada de teus estremecimentos, em cujo seio, agente de uma anarquia universal, sonhas explodir”.

O sedento de poder mergulha em perturbação e adora seus signos. A loucura política é fonte de transtornos e de mal-estar sem igual. Sufoca a inteligência e favorece os instintos. O ambicioso faz-se cercar por áulicos. Estabelece com eles idêntica vibração: “Sentirás à tua volta uma perturbação análoga naqueles que estejam corroídos pela mesma paixão. E enquanto estiverem dominados por ela, estarão irreconhecíveis, vítimas de uma embriaguez diferente de todas as outras. Tudo mudará neles, até o timbre de sua voz. A ambição é uma droga que transforma quem se entrega a ela em um demente em potencial. Quem não observou esses estigmas, esse ar de animal transtornado, esses traços inquietos e como que animados por um êxtase sórdido?”. O ambicioso não permanecerá estranho aos malefícios do Poder, “inferno tônico, síntese de veneno e de panaceia”.

Só que o poder é ilusório. Ele tem prazo de validade. Assim que ele parte, a febre desaparece e em seu lugar impera o desencanto. Adquire-se a noção da normalidade em excesso. “Nenhuma ambição mais, logo nenhuma possibilidade mais de ser alguém ou algo; o nada em pessoa, o vazio encarnado: glândulas e entranhas clarividentes, ossos desenganados, um corpo invadido pela lucidez, livre de si mesmo, fora de jogo, fora do tempo, sujeito a um eu congelado em um saber total sem conhecimento”.

Quem devolverá o instante que escapou? Quem o devolverá? Ficarão contigo os “amigos do poder”, os que o incensaram, os que se especializaram na “tática das homenagens”?

Acabou-se a cumplicidade, acabou-se o séquito, não haverá mais o aplauso fácil, as louvaminhas, os encômios, a busca de “selfies”. O poderoso destituído do cargo ou da função sentir-se-á um leproso. Os antigos subservientes, com suas espinhas dorsais complacentes se inclinarão perante um outro. Fugirão de quem já não encarna o poderio.

Isso ocorre desde que o mundo é mundo. “Para tornar-se um homem político, isto é, para ter as qualidades de um tirano, é necessária uma perturbação mental”. Ao ser afastado do poder, o antigo poderoso, que se cria soberano e onipotente, sofrerá outra perturbação mental. É uma espécie de “metamorfose do delírio de grandeza”.

Observa Cioran que “faz séculos que o apetite de poder se dispersou em múltiplas tiranias pequenas e grandes, que causaram estragos aqui e ali, e parece que chegou o momento em que o apetite de poder deva por fim concentrar-se para culminar em uma só tirania, expressão desta sede que devorou e devora o globo, termo de todos os nossos sonhos de poder, coroamento de nossas expectativas e de nossas aberrações”.

O filósofo pensava no pesadelo que se avizinhava da Europa, com o Führer acometido de insanidade e capaz de acreditar que dominaria o mundo. Deu no que deu. O inacreditável foi a preservação de fiéis seguidores até à catástrofe terminal. Recusavam-se a enxergar a “solução final”, com o extermínio de milhões de judeus. Entregavam seus jovens, cada vez mais jovens, para morrer em território estrangeiro. Acreditando em alguém que faria a Alemanha resgatar o prestígio perdido com a derrota na Primeira Grande Guerra Mundial.

O perigo maior é que essa loucura é atemporal e cíclica. Enquanto a vacina contra a pandemia comprova que a ciência tem razão, contra a ignorância existe vacina: abrir os olhos, ler, estudar. Mas assim como há os que repudiam a vacina da Covid, existem – e até em maior número – os que rejeitam a vacina contra os perigos da tirania.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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