Escarros no patriarca

Escarros no patriarca

José Renato Nalini*

22 de julho de 2022 | 08h00

Retrato de José Bonifácio de Andrada e Silva. FOTO DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Duzentos anos de Independência do Brasil, muito ufanismo, celebrações de retórica edificante. Pouco interesse por resgatar personagens que tornaram possível a ruptura entre o Brasil colônia e a lusa metrópole. Impõe-se fazer justiça a José Bonifácio de Andrada e Silva, o “Patriarca da Independência”, cuja biografia oferece infinitas tonalidades de enfoques para instigantes reflexões.

Dentre as várias fases da longa existência desse heroico santista, vale mencionar o período em que assumiu a tutoria de Pedro II e suas irmãs. Pedro I era impulsivo, mas inteligente. Sabia que o Brasil não dispunha de muitos homens de caráter com qualidades morais suficientes à educação aprimorada de um Imperador.

José Bonifácio assumiu a missão e, desde logo, começou a sofrer a pestilência da política malsã, aquela perpetrada por partidos que conseguem congregar o que de pior a humanidade produz, em todas as épocas. Em 2 de dezembro de 1833, no Teatro São Pedro, presente o Imperador, gritavam “abaixo o Tutor”, intercalando com vivas ao soberano e à Regência. Dias depois, a turba instigada pelos exaltados clamava a queda do Tutor. Em 14 de dezembro decretou-se sua suspensão, nomeando-se o Marquês de Itanhaém para substituí-lo. Para criar vácuo em torno do exonerado, expediu-se ordem para todas as portarias, impedindo seu ingresso em qualquer recinto oficial.

José Bonifácio reagiu e declarou que não cumpriria a ordem. Não se considerava suspenso, pois a nomeação fora do ex-Imperador Pedro I. No domingo, 15.12.1833, dez Juízes de Paz, à frente de cento e vinte soldados a cavalo e outro tanto de infantaria, foram cumprir a ordem de suspensão do Tutor. Ele afirmou que os receberia a bala.

Então voltaram mais tarde dois brigadeiros e o próprio Marquês de Itanhaém, para compelir José Bonifácio a acatar o decreto de suspensão. O velho Patriarca, às quatro horas da tarde, acedeu à ordem e fez caminho idêntico ao de Pedro I, despejado não para o outro lado do Atlântico, mas para a sua chácara em Paquetá. Diz Alberto Rangel, no livro “A educação do Príncipe”, que ali “o provecto Conselheiro aprisionado ia conhecer o pior dos exílios, o que se consuma na nossa própria pátria”.

No mesmo dia começou o expurgo da equipe de José Bonifácio. Inocentes foram aprisionados e perseguidos. Os desejosos de poder se regozijaram. Aureliano Coutinho escreve a D. Mariana, antiga preceptora da prole imperial: “Parabéns, minha Senhora! Custou, mas demos com o colosso em terra!”. Avalie-se o teor das intrigas desses maus políticos, ardidos de ambição em torno ao meninote imperial.

Critica-se José Bonifácio por não ter propiciado a Pedro II a educação necessária à preparação de um Imperador. Era o homem mais cultivado de seu tempo, respeitado no Brasil e no exterior. Cientista, naturalista, ambientalista, conhecedor das artes e das manhas da política. Diz-se que não compreendeu a importância da missão que o ex-Imperador lhe cometeu.

Diz Alberto Rangel que “extraordinário é, com efeito, que tão notável espírito, curtido e alentado no enciclopedismo e principalmente dedicado a ciências naturais, nas quais se tornou autoridade universal e em ciências sociais e políticas em que foi sem dúvida um valioso elucubrador, não imprimisse a D. Pedro II e às irmãs nova direção educacional, consentânea às vistas profundas da sua própria cultura. Não se resolveu ele a tocar, nem de leve, no que deparou de bolorento e curto em matéria de estudos seguidos pelos meninos imperiais”.

Aquele que era lúcido, coerente, luminoso e pioneiro em temas como a abolição da escravatura, a incorporação dos índios, a proteção da floresta, sabia aconselhar os deputados de São Paulo às Cortes de Lisboa um espírito tão vasto e esclarecido, mostrou-se um burocrata. Resignou-se a lições medíocres, de professores sem experiência, insistindo na religiosidade primitiva, qual a praticada nas Cortes de Lisboa. Só que esse homem sério e probo cuidou das crianças como se fosse um avô. Não recebeu um tostão pelo seu trabalho. Recusou os doze mil cruzados que o Tesouro lhe ofereceu. Septuagenário, trabalhou de graça. Não quis receber dos cofres públicos dinheiro em remuneração a um encargo que entendia haver recebido de um particular, de um seu amigo.

Isso é comprovado documentalmente. O artigo 6º da Lei de 12.8.1831 concedia ao Tutor vencimentos de 4.800 cruzados mensais. As despesas com a educação de Pedro II no triênio 1831-1834 evidenciaram um saldo de 14.000 cruzados, pela dedução dos ordenados não pagos a José Bonifácio. Ainda assim, viu-se processado. Em 14.3.1835, o júri o absolveu, sem que tivesse comparecido perante seus julgadores. Mandou mensagem dizendo: “Os crimes que eu cometi são de outra categoria, em que muito amor próprio gratuito se ofendia; mas perante a lei, nunca foi crime. Não preciso, portanto, de defesa que não seja o negar positivamente o de que sou acusado em um processo irregular, injusto e absurdo”.

Escarros no Patriarca, a quem o Brasil tanto deve. A prática da ingratidão deve explicar os insucessos desta República, tão reincidente em humilhar os seus melhores.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

Tudo o que sabemos sobre:

José Renato NaliniArtigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.