Escaramuças literárias

Escaramuças literárias

José Renato Nalini*

10 de fevereiro de 2022 | 11h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Literatos constituem uma espécie singular. Há de todos os tipos. Exuberante fauna que propicia estudos antropológicos bem instigantes. Hoje, como diz a querida Lygia Fagundes Telles, todos escrevem. O que é necessário buscar, com a lanterna de Diógenes, é o leitor.

Há escritores que se melindram facilmente. A hipersensibilidade é uma das características mais corriqueiras entre os intelectuais. Quem convive com eles, embora sem ser um deles, acaba experimentando episódios curiosos. Isso ocorre com frequência na vida acadêmica. As Academias de Letras continuam a existir, a provocar reações díspares. Há os confessadamente antiacadêmicos, que as ironizam. Há os que as ambicionam. Mestre Miguel Reale sempre citava em francês, algo que a Pátria cuja Academia inspirou todas as outras similares modernas ensinava: somos quarenta e nos ridicularizam; somos trinta e nove e nos bajulam.

Em sua autobiografia “A Longa Viagem”, Menotti Del Picchia, um dos artífices da Semana de Arte Moderna de 1922 lembra Aristeu Seixas, seu amigo, “ditador da crítica paulistana. Sua autoridade mais se firmara quando, com desabusada audácia, se insurgiu contra o grande Vicente de Carvalho, com artigos ferinos ao querer o vate de “Poemas e Canções”, depois de ter ironizado a Academia Paulista de Letras, da qual Aristeu era membro e defensor vigilante e temerário, ingressar nela sem fazer, antes uma ritual penitência”.

Essa “ritual penitência” perdura. Tenho recomendado aos amigos que têm a intenção de se converterem um dia, por eleição democrática, em “imortais bandeirantes”, que se aproximem da APL qual um humilde pretendente. Olhares, flertes, conversas, namoro, noivado e casamento. Encaminhar as obras aos eleitores é uma delicadeza necessária. Mercê da qualidade de seus integrantes, a Academia Paulista de Letras atrai muitos reconhecidos talentos. E tem escolhido bem os seus membros.

Mas voltando a Menotti, ele se confessa “afobado como todo moço, rebelde, como todo escritor incipiente que se crê, desde logo, dono da verdade e medida do mundo”, escolheu logo Aristeu Seixas “para alvo de uma campanha contra o parnasianismo. Petulância e audácia nunca faltam aos jovens que se erigem a si mesmos iluminados vetores do Espírito Novo. Desanquei o amigo Aristeu com um artigo que fuzilou e estourou como um raio em céu sem nuvens. A intempestiva carga verbal deflagrada tão bruscamente, atingindo uma sensibilidade irritadiça, fez Aristeu, com razão, ferver de fúria. Era o que eu queria. São Paulo inteiro – não havia nesse tempo distrações outras que desaguisados polêmicos entre políticos e literatos – quis saber quem era aquele jornalista petulante, ainda cheirando a província, que ousava afrontar o Aristeu Seixas”.

Avizinhava-se uma boa polêmica. “Alceu perdeu a calma. Revidou com a cólera de um Júpiter que vê seu altar emaçado pela ambição pedestre de um Eróstrato. Caiu na ingenuidade de fazer estridentemente reclamo do meu então obscuro nome. Para mostrar o que de irreverente e ingrato havia na minha atitude, anunciou que iria expor, na vitrina da Casa Vanorden, situada bem em frente ao “Correio Paulistano”, o volume dos “Poemas do Vício e da Virtude” que eu lhe enviara com a famosa dedicatória”.

É que Menotti encaminhara um exemplar de seu livro a Aristeu com a mensagem: “A Aristeu Seixas, poeta, crítico e polígrafo…” e mais elogios.

No dia seguinte, Aristeu cumprira a promessa. Havia muita gente junto à vitrine. Foi uma explosão de vendas do livro desse Menotti Del Picchia, que ousara enfrentar a fera Aristeu. A edição se esgotou. E Menotti vibrou. Respondeu ao repto: “Respondi galante e mesureiro agradecendo Aristeu por dar à minha dedicatória uma autoridade tão consagradora. Agradeci em nome do meu editor a propaganda que fizera do meu livro”.

Como toda pessoa que sobressai aos demais, Aristeu possuía inimigos. Estes vibraram e se regozijaram com o entrevero. Mas nem tudo era glória permanente para Menotti: “Eu, porém, iria pagar mais tarde, em 1922, logo após as tormentosas noitadas de “Semana de Arte Moderna”, com a mesma moeda, essa minúscula vitória. Aristeu capitanearia a um grupo aguerrido e reacionário cujo testa-de-ferro seria Moacir Chagas, jornalista e poeta mineiro. Por um mês, pela primeira página de “A Folha da Manhã”, fui desancado sem misericórdia resultando dessa contra-ofensiva um livro que esse mesmo Moacir Chagas lançou com o título “São Paulo e seus homens de letras – Menotti Del Picchia e sua obra”.

Ninguém passa imune quando pretende inovar, como fizeram os jovens paulistas em fevereiro de 1922. A crítica vem, cruel, e quase invariavelmente, começa em casa.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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