‘Era um ganha ganha’, diz delator sobre propina a políticos, agentes públicos e empreiteiras

Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobrás, sustenta diante de juiz da Lava Jato que empreiteiras pagavam sem serem coagidas e que interesses iam além dos contratos da estatal, em áreas como energia, portos e aeroportos

JULIA AFFONSO, MATEUS COUTINHO, RICARDO BRANDT E FAUSTO MACEDO

07 Novembro 2015 | 14h00

Paulo Roberto Costa falou à Justiça Federal. Foto: Reprodução

Paulo Roberto Costa falou à Justiça Federal. Foto: Reprodução

O ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás Paulo Roberto Costa – primeiro delator da Operação Lava Jato – afirmou em depoimento nesta sexta-feira, 6, à Justiça Federal, em Curitiba, que as empreiteiras do cartel que fatiava obras da estatal agia por interesse próprio, dentro de uma lógica de “ganha ganha”. Além das empresas, políticos, partidos e agentes públicos também se beneficiavam do esquema de propinas. E voltou a alertar as autoridades que os desvios e a corrupção do cartel funcionava de maneira conexa em outras áreas do governo: “mais cedo ou mais tarde virão à tona”.

“Elas (empresas) ganhavam com isso, algumas pessoas da Petrobrás ganhavam, os partidos ganhavam e elas olhava outros projetos, em Ministério dos Transportes, em portos e aeroportos e uma porção de outras coisas que, mais cedo ou mais tarde, virão à tona com certeza”, declarou o ex-delator, diante do juiz federal Sérgio Moro – que conduz os processos da Lava Jato, em Curitiba.

Questionado pela Procuradoria da República se havia coação para que as empreiteiras pagassem a propina, ele negou. “Não, porque era um ganha ganha.”

O ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás depôs como testemunha arrolada pela acusação na ação penal contra o ex-ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu (Governo Lula), o ex-diretor de Serviços da Petrobrás Renato Duque e contra o ex-tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, todos alvos da Pixuleco I, desdobramento da Operação Lava Jato.
Os três réus estão presos em Curitiba. O Ministério Público Federal atribui a Dirceu, a Duque e a Vaccari crimes de corrupção e lavagem de dinheiro.

Ele explicou o motivo que levava as empreiteiras a agir de forma ativa no esquema, por interesse próprio. “Elas tinham interesse em atender os diretores ou alguém da Petrobrás, que estava à frente desse processo, porque era para atender também os partidos políticos. E os partidos tinham gente importante em ministérios e vários outros órgãos de governo em que essas empresas também tinham interesses”, afirmou Costa.

“Esse processo que eu mencionei (de desvios e corrupção) da Petrobrás não aconteceu só na Petrobrás, aconteceu em vários outros lugares como grupo Eletrobrás e agora já se chegou alguns pontos mais detalhados na Eletronuclear e como vão chegar a vários outros ministérios e órgãos de governo como falei lá mais de um ano atrás.”

Costa fez delação premiada em agosto de 2014 – foi o primeiro delator da Lava Jato. Como delator é obrigado a depor em todas as ações penais da Lava Jato.

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Partidos. O ex-diretor de Abastecimento, que era cota do PP e depois também do PMDB, no esquema, afirmou que partidos e agentes públicos da estatal eram beneficiários de propinas em decorrência da divisão de obras da estatal por parte do cartel, formado pelas maiores empreiteiras do País.

“Fui procurado por algumas empresas e fiquei sabendo do detalhamento de um processo de escolha de obra que essas empresas tinham interesse, um processo de cartelização e que isso resultava também em benefícios para partidos políticos e para algumas pessoas dentro da própria Petrobrás na área de Abastecimento isso ocorreu mais intensamente a partir de 2006 e 2007”,

Costa detalhou que a Diretoria de Serviços, que era cota do PT no esquema de fatiamento partidário da estatal, controlava todas as grandes obras, arrecadando propina de 1% em todos os grandes contratos das demais diretorias.
“Todas as obras, quer seja para Diretoria de Abastecimento, de Gás e Energia ou pela Exploração e Produção, eram conduzidas pela Diretoria de Serviços”, explicou.

O delator foi questionado se a diretoria que era cota do PT, controlada na época pelo ex-diretor Renato Duque – apadrinhado do ex-ministro José Dirceu -, tinha conhecimento do processo de cartelização, ele foi afirmativo. Costa aponta a participação de Duque e também do ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto

“Ele (Vaccari) era a pessoa que tinha um percentual dentro da área de Serviços de arrecadação de recursos ilícitos”, disse Costa. Questionado se o percentual arrecadado por Vaccari era para proveito próprio, o ex-diretor afirmou que os recursos eram dirigidos ao PT.