“Era doleiro”, diz delator da Odebrecht sobre Tacla Duran

“Era doleiro”, diz delator da Odebrecht sobre Tacla Duran

Olívio Rodrigues Júnior prestou depoimento ao juiz federal Sérgio Moro na segunda-feira, 5, e disse que comissão de advogado era ‘muito maior’ que a dele

Julia Affonso, Ricardo Brandt e Luiz Vassallo

07 Março 2018 | 13h43

O empresário Olívio Rodrigues Júnior, um dos delatores da Odebrecht, afirmou que o advogado Rodrigo Tacla Duran ‘era doleiro’. O executivo prestou depoimento na segunda-feira, 5, em que ação penal em que ele e o ex-dirigente da UTC Walmir Pinheiro Santana são réus por lavagem de dinheiro.

Tacla Duran está foragido na Espanha. A Operação Lava Jato afirma que o advogado operava propina ao lado de executivos do departamento de propinas da Odebrecht.

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Neste processo, Olívio Rodrigues Júnior e Walmir Santana foram acusados de operacionalizar repasses fraudulentos a Tacla Duran, denunciado em outra ação por lavagem de dinheiro e associação criminosa.

O advogado teria recebido valores de empreiteiras em suas empresas e disponibilizado dinheiro em espécie ‘para que fossem utilizados para pagamentos de agentes públicos, especialmente dirigentes da Petrobrás’.

Olívio relatou que prestou serviço para Odebrecht entre 2006 e 2015 com vínculo exclusivo.

O executivo afirmou que foi contratado pelo chefe do Setor de Operações Estruturadas, o departamento de propinas da empreiteira, Hilberto Silva – delator da Lava Jato -, ‘para prestar serviço à área internacional e fazer pagamentos não contabilizados da empresa’. O delator declarou que ‘não sabia quem eram os beneficiários’ do pagamentos.

Durante o depoimento, o juiz federal Sérgio Moro questionou se Olivio conheceu Tacla Duran.

“Conheci, sim, sr”, afirmou. “Pessoalmente.”

O magistrado perguntou se Tacla Duran esteve envolvido ‘em prestação de serviço ao grupo Odebrecht’.

“Ele era um doleiro”, disse.

O executivo contou que Tacla Duran ‘ingressou no grupo Odebrecht, através do Fernando Migliaccio’, responsável pelas entregas em dinheiro vivo do Setor de Operações Estruturadas.

Migliaccio é delator da Lava Jato.

“Existia conta corrente entre a Odebrecht e ele (Tacla Duran) que, na realidade, era controlada pelo Fernando e isso ia balanceando. Se existia uma necessidade de pagar, ele solicitava um pagamento e eu efetuava a transferência para ele”, relatou.

Sérgio Moro quis saber ‘como era a remuneração de Tacla Duran’.

“Isso eu não sei precisar ao sr. Sei que era uma comissão muito superior à minha”, afirmou Olívio Rodrigues Júnior.

O executivo afirmou que durante o período em que prestou serviço à Odebrecht, Tacla Duran era exclusivo da empreiteira.

“Depois da Operação Lava Jato, fiquei sabendo que ele prestava serviço para essas empresas que veio a surgir na Lava Jato”, declarou.

Espanha. A Justiça espanhola negou em julho o pedido do Brasil para extraditar Rodrigo Tacla Duran. O advogado chegou a ser detido em Madri em novembro de 2016.

Por ter dupla nacionalidade, Tacla Duran recorreu e conseguiu o direito de responder pelos crimes na Espanha. Como o Brasil não extradita espanhóis, o governo do país europeu ‘aplicou o princípio da reciprocidade’ no caso de Tacla Duran.

COM A PALAVRA, RODRIGO TACLA DURAN

Sobre os depoimentos dos delatores Olivio Rodrigues e Walmir Pinheiro esclareço:

1. Fui fiscalizado pela Receita Federal do Brasil durante dois anos e, após dez pedidos de prorrogação, a fiscalização foi encerrada sem identificar quaisquer irregularidades, conforme relatório em poder do juízo da 13ª Vara Federal de Curitiba.

2. O delator Olivio Rodrigues tenta me imputar crimes com o intuito de proteger seu irmão, Marcelo Rodrigues, o qual também trabalhou para o Departamento de Operações Estruturadas, esteve preso duas vezes a pedido Lava Jato, não foi denunciado e nem está entre os 77 delatores da Odebrecht. Marcelo Rodrigues era colega de faculdade de Wu Yu, citado como sendo o chinês da rua 25 de março, e foi ele o responsável pelo seu recrutamento para dar início à Operação Dragão.

3. Nunca mantive contato por e-mail ou telefone com Olivio Rodrigues, que precisa esclarecer que foi um dos fraudadores do sistema Drousys, cujos técnicos responsáveis por estas adulterações trabalhavam dentro do seu escritório no bairro do Tatuapé, em São Paulo, e por ele eram remunerados. Entre estes técnicos estavam Paulo Sérgio da Rocha Soares e Camilo Gornatti, conforme registram vários depoimentos de delatores e testemunhas.

4. A empresa VivoSant Corp S.A., citada no seu depoimento, é uma empresa espanhola, não é uma offshore. Ela é uma holding patrimonial declarada ao fisco brasileiro e ao fisco espanhol, a qual já foi alvo de fiscalização pelas autoridades fiscais de ambos os países sem que nada de irregular tenha sido encontrado como, por exemplo, transferências de valores a terceiros. No ano passado, coloquei espontaneamente à disposição da Justiça Espanhola os recursos da vivoSant Corp S.A. depositados em Cingapura, no banco Pictet.

5. Com relação ao delator Walmir Pinheiro, nunca foi realizada perícia no seu celular para constatar, através dos registros das Estações Rádio Base (ERBs), sua acusação de que se encontrou comigo na garagem da UTC. Por sinal, ele se contradiz: antes dizia que se encontrava comigo pessoalmente na garagem, mas mudou a versão e agora fala que eu enviava um portador, o qual não sabe o nome e que não há registro da sua passagem pela sede da UTC.

6. As relações entre minhas empresas, o Grupo UTC e Ivan Carratu já foram objeto de esclarecimento em inquérito que corre na Polícia Federal de São Paulo e cuja cópia entreguei à CPI da JBS durante meu depoimento no dia 30 de novembro de 2017, ocasião em que pude esclarecer questões envolvendo o advogado Carlos Zucolotto e minha tentativa de acordo com a Força Tarefa da Lava Jato. Neste inquérito da Polícia Federal de São Paulo estão sendo apurados os desvios cometidos pelo delator Walmir Pinheiro em prejuízo da UTC, recursos estes que ele oculta e os quais não foram revelados em juízo no seu acordo com a Lava Jato.

Madrid, 7 de março de 2018.
Rodrigo Tacla Duran