Era das trevas

Era das trevas

José Renato Nalini*

26 de janeiro de 2021 | 10h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

A partir da crença numa antiga religião, chamada Tradicionalismo Perene, que desapareceu mas deixou sementes em várias outras religiões, elaborou-se um conceito singular de História.

A concepção básica é a de que a humanidade percorre um quádruplo ciclo de idades: ouro, prata, bronze e chumbo. A era do ouro é aquela em que os sacerdotes guiam o povo. Como têm ligação direta com a divindade, só podem pregar caminhos retos e bons. Todavia, a miséria humana faz com que essa idade seja substituída pela era da prata. Aqui, é a vez dos guerreiros. A força comanda o rumo do convívio.

Como é um ciclo, também acaba. E é substituído pela era do bronze. A característica é o predomínio do dinheiro. São os ricos os que ditam o rumo da sociedade. O dinheiro é o bem maior. Por ele, tudo se faz, com esquecimento do que ocorria nas duas primeiras fases.

Por fim, chega a era do chumbo. Tudo pesado, tudo escuro, tudo sombrio. Prevalecem os conchavos, as falcatruas, a maledicência, a violência, o desrespeito, o rebaixamento da civilização e o retrocesso ao primitivismo e à barbárie.

Os dois primeiros ciclos se submetem a um ideal. O ideal do bem no primeiro, o ideal da força garantidora da paz no segundo. Já o terceiro ciclo é o puro materialismo, o consumismo irresponsável, as baixezas que levam o ser humano a se curvar perante o dinheiro. Mas nada tão vil quanto os anos de chumbo. Eles mostrariam o fracasso da humanidade como projeto. O ser humano mostraria sua irracionalidade e poderia ser comparado a qualquer outro ser vivo na escala animal.

Essa visão de mundo fez surgir pseudo-profetas que conseguem fazer com que algumas lideranças contemporâneas ajam à luz de tais ensinamentos. É o que procura demonstrar Benjamin Teitelbaum, um etnógrafo e pesquisador americano que se especializou no estudo da extrema direita em suas várias e recentes manifestações pelo planeta.

Ele acredita que a persuasão do tradicionalismo, bem diferente do mero conservadorismo, é de tamanha intensidade, que manifestações nefastas, como a invasão do Capitólio quando o Congresso ratificaria a vitória de Joe Biden, podem ocorrer e em outras partes do mundo.

Por isso é que a democracia precisa manter em pleno funcionamento as instituições como a família bem estruturada, e não se fala aqui da família-tipo – pai a trabalhar fora, mãe em atividades domésticas, um casal de filhos – pensa-se nos diversos arranjos que substituíram esse modelo, hoje minoritário. Penso nos grupos que mantêm aceso o amor do convívio. A primeira célula de uma sociedade. É dela que tudo surge e se espraia para a população submetida às mutações decorrentes de tantas causas, das quais a Quarta Revolução Industrial não é a menor.

Mas é preciso pensar na Igreja, que tem de atuar para que seus fiéis saibam distinguir o lobo disfarçado, a ameaçar os cordeiros. Não é possível aplicar inflexivelmente a mensagem de Paulo que serviu para a formulação da teoria do direito divino do monarca. Nem todo governante faz a vontade de Deus, embora todos digam fazê-la.

A vontade de Deus é que todos sejam irmãos, que haja o respeito supremo ao Criador e, logo em seguida, o amor ao próximo. Tudo o que afasta um crente do exercício do respeito e da compaixão pelo semelhante, não é coisa inspirada por Deus.

Os políticos precisam pensar menos em galgar postos e funções, em ocupar cargos privilegiados, em exaurir um Erário extenuado ante o mais injusto fardo tributário do planeta e em promover as modificações inadiáveis, no sentido de se reduzir a iníqua desigualdade reinante no Brasil.

A mídia tem de ser o farol do alarme para acordar os incautos, abrir os olhos dos fanáticos, mostrar o que realmente se passa nas entranhas do poder e evidenciar tudo aquilo que é visível, mas que o talento midiático pode tornar ainda mais convincente e provocar indignação.

A Universidade, local insuspeito onde a busca da verdade tem sua residência, não pode se calar. A cidadania é o motor das modificações que precisam ser aceleradas, para que todo o empenho do Estado, em conjunto com o povo, resulte em efetiva melhoria das condições de vida de milhões de invisíveis, de excluídos, de hipossuficientes, de desalentados e de desprovidos sequer de perspectivas e de esperança.

Se houver alguma verdade no tradicionalismo, à era sombria, aos anos de chumbo, sucederá uma exuberante idade do ouro. Ouro da paz, da fraternidade, da solidariedade, da sustentabilidade, da amizade entre seres humanos, tudo aquilo que os adeptos da conspiração procuram macular com o ceticismo, para usar da ignorância como massa de manobra apta a servi-los quando chegar a hora.

Há muita lucidez no Brasil, matéria-prima suficiente a deflagrar uma revolução do bem. É nela que os homens de boa-vontade hoje confiam.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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