Equidade de gênero passa por mais mulheres decidindo investimento de capital de risco

Equidade de gênero passa por mais mulheres decidindo investimento de capital de risco

Flávia Mello*

28 de fevereiro de 2021 | 07h00

Flávia Mello. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Empreendedoras geram o dobro de retorno por dólar investido do que os empreendedores homens, em outras palavras, a cada $1 investido na empresa, as mulheres geraram $0,78, enquanto os homens geraram menos da metade: $0,31. Foi o que informou um recente estudo da consultoria BCG em parceria com a Masschallenge. O mesmo estudo nos conta que companhias co-fundadas por mulheres geraram 10% mais em renda acumulada num período de cinco anos em comparação com aquelas fundadas por equipes exclusivamente de homens.

Uma outra pesquisa do fundo de capital de risco First Round Capital demonstra que as startups investidas fundadas por mulheres performaram 63% melhor. E entre as empresas de capital aberto, listadas na bolsa de UK, as que tem o quadro diretivo composto por pelo menos ⅓ de mulheres geraram margens mais de 10 vezes maior, segundo estudo da consultoria de gênero britânica The Pipeline.

Na contramão da avalanche de dados e pesquisas que comprovam a eficiência de mulheres líderes, o volume de investimento em startups fundadas por elas está indo na direção errada.

No relatório All In: Women in the VC Ecosystem da PitchBook, publicado com o apoio da Microsoft para Startups and Beyond the Billion, mostra que a pandemia de coronavírus afetou negativamente fundadoras e CEOs do sexo feminino. Apesar dos ganhos inegáveis ​​de longo prazo em investimentos em capital de risco na última década, o financiamento para as fundadoras do sexo feminino caiu 31% em relação a 2019, enquanto o financiamento para equipes exclusivamente masculinas caiu apenas 16%.

Um relatório do Crunchbase mostra que, mesmo se combinássemos o investimento de capital de risco feito em empresas fundadas por mulheres e empresas mistas (ao menos 50% de fundadoras) em 2019, o volume ainda representaria apenas 9% de todo o investimento nos EUA. Quando a empresa é fundada só por mulheres, esse montante reduz para vergonhosos 2.8%. Na Europa, o valor investido nelas diminuiu de 2,4% para 1,7% nos últimos quatro anos.

Na América Latina, as rodadas para startups fundadas apenas por mulheres passaram de $14 milhões em 2019 para ZERO em 2020. Já para startups com mulheres e homens como fundadores, os recursos arrecadados caíram de $ 748 milhões em 2019 para $ 612 milhões em 2020. Em contrapartida, os investimentos em startups fundadas apenas por homens cresceram levemente na região, de $ 3,80 bilhões para $ 3,83 bilhões.

Em pleno 2021, ainda temos claros indicadores de que algo no sistema está quebrado. Isso levanta as seguintes questões: Por que os fatos estão sendo ignorados? Quem está tomando as decisões de financiamento? Como mudamos o status quo?

Um passo fundamental para a equidade de gênero é ter mais mulheres definindo como o capital será investido. Nos Estados Unidos, as mulheres que tomam decisões representam cerca de 12% dos VCs, e a maioria das empresas não tem sócias mulheres. Os números mostram que isto se torna um ciclo vicioso. Poucas mulheres definem investimentos, poucas mulheres recebem investimentos.

As mulheres investidoras em tecnologia em estágio inicial também estão sub-representadas na América Latina. Dados da International Finance Corporation mostram que apenas 8% dos fundos de private equity e venture capital têm mulheres na liderança, evidenciando a necessidade de mudanças.

Meu objetivo é testemunhar a mudança na direção das tendências no capital alocado para negócios liderados por mulheres e ver normalizado uma fundadora de startups em alto crescimento levantando fundos significativos.

Para isso, precisamos tomar as rédeas do capital de risco nas duas pontas: decidir onde investir e obter investimento caso se trate de uma mulher empreendedora. Essa será uma das grandes revoluções para a equidade de gênero no mundo pois permite a construção de um ecossistema onde seja amplamente entendido que equipes diversas – tanto na gestão do capital quanto na liderança das empresas – geram retornos financeiros mais elevados e que as práticas arcaicas e patriarcais de investimentos em startups não são mais bem-vindas.

*Flávia Mello, investidora e mentora de empresas fundadas por mulheres que estejam desenvolvendo soluções para equidade de gênero. Apresentou por um ano o podcast Família Feminista

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