Epopeia da paternidade

Epopeia da paternidade

José Renato Nalini*

08 de agosto de 2021 | 05h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Epopeia é um poema épico ou longa narrativa em prosa, em estilo oratório, que exalta as ações, os feitos memoráveis de um herói histórico ou lendário que representa uma coletividade. Ou pode ser uma sucessão de eventos extraordinários, ações gloriosas, retumbantes, capazes de provocar a admiração, a surpresa, a maravilha, a grandiosidade da epopeia.

Qualquer dos sentidos indicados pelo dicionário Houaiss serviria para denominar a aventura de alguém que se arrisca a exercer o sagrado e dificílimo exercício da paternidade no século XXI.

É certo que nem sempre há planejamento nessa área. A paixão entorpece a razão e pode resultar em paternidade não inteiramente refletida. Bem agiu o codificador de Hamurabi que impedia o apaixonado de ser testemunha, pois não estava em seu melhor juízo.

A paternidade almejada reside no recôndito dos sonhos masculinos. Quem já não ouviu que um homem precisa, para que sua vida tenha valido a pena, ter um filho, escrever um livro e plantar uma árvore?

Planificada ou não, a paternidade sempre trouxe desafios. Criar alguém, incutir-lhe valores, propiciar-lhe educação, formação integral – ética, cidadã, religiosa – prepará-lo para os combates existenciais, não é missão singela. Não existem “cursos de paternidade” e tanto pais, como filhos, vão caminhando à base do empirismo, na cadeia de erros e acertos. Reformulação de rota, recuos ou avanços.

Mas houve tempos menos árduos para o desempenho dessa missão. O pai era o líder, o chefe, o patrão, a última, definitiva e irrecorrível palavra. Sua autoridade era indiscutível. Para essa aura contribuiu a religião. Afinal, o Criador é considerado o Pai de toda a humanidade. A Igreja contemplou essa missão instituindo um específico mandamento a ser observado pelos cristãos: “Honrar pai e mãe”.

Isso era levado a sério. Não faz tanto tempo assim – embora hoje possa parecer característica da pré-história – os filhos pediam a benção a seus pais; bastava um olhar destes para a prole entender o recado. Os salários eram entregues ao genitor, para que ele administrasse o ganho em consonância com as despesas do lar.

Eram os pais que pediam as moças em casamento para seus filhos varões. O respeito filial era verdadeira devoção. A lição doméstica era passada de pai para filho, sem tergiversação.

Pode ser que ainda existam raríssimos nichos onde isso aconteça. Não é mais a regra, mas honrosa exceção. Excepcionalíssima, pode-se dizer.

A moderna educação – ou a falta dela – veio a fragilizar personagens que poderiam se enquadrar sob a letra “P”: pai, professor, padre, pastor, patrão. Toda a mitologia envoltória desses protótipos mereceu profunda transformação.

A pretexto de se abrandar o autoritarismo, conferiu-se à infância tal grau de autonomia, que há crianças tirânicas. Impõem sua vontade inquestionável e os pais, aturdidos, têm de obedecer às suas vontades e caprichos.

O comportamento social é ditado pelas tribos e pelas redes sociais. A mínima contrariedade oposta a qualquer desejo filial é considerado um traumatismo que deixa máculas indeléveis na personalidade adulta.

Vencidos e amedrontados, os pais invertem a equação tradicional. Passam a ser servos de suas crias.

Todavia, os mais prejudicados são os pais invisíveis, os excluídos do banquete capitalista, os não-cidadãos, pois desempregados, informais em período catastrófico para a economia brasileira. Seus filhos assistem à mesma programação dos que nasceram em berço de ouro, cresceram em chiqueirinho dourado e continuam a usufruir de áureos recursos.

Numa era de erosão da autoridade, da supremacia do ego, da imagem self que desconsidera qualquer outra criatura que não seja “eu”, como é que esses pais encaram seus filhos?

Não se pode dizer que pior do que eles estão aqueles que já perderam seus pais. Estes, no mistério da morte, estão libertos dos dolorosos desafios do exercício da paternidade nesta era digital de manipulação e de semeadura da ira.

É ou não é uma epopeia a aventura paterna sobre este sofrido planeta, no fatídico ano de 2021?

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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